UOL Notícias Internacional
 

09/11/2009

A Rússia tenta, mais uma vez, deter o vício da vodca

The New York Times
Clifford J. Levy Em Mytishchi (Rússia)
Era um final de tarde de uma segunda-feira em uma "cela para bêbados" neste subúrbio de Moscou, mas poderia ter sido em qualquer dia, a qualquer hora, em qualquer instalação semelhante do país.

As pessoas chegariam. Elas sempre chegam.

A destrutiva inclinação que os russos têm pelas garrafas é muito grande - assim como o desafio que uma nova política do governo enfrenta para detê-la.

O primeiro a ser escoltado pelos policias é um operário da construção civil chamado Damir M. Askerkhanov, que disse estar apenas bebericando vodca e cerveja - "É o meu feriado!" - antes de ser encontrado cambaleando no frio. Aos 23 anos de idade, ele admitiu já ter sido pego embriagado duas vezes recentemente. "Só um pouco alto", afirmou.

Sergey A. Yurovsky, 36, que estuda para ser funcionário público, chegou logo depois, murmurando e se enroscando em seu agasalho quando pediram para que ele o tirasse para um breve exame médico. Depois que ele foi levado para uma sala para se recuperar, e tirar uma soneca, os policiais chegaram com Larisa V. Labachyova, 53, cujo cabelo estava cheio de sujeira por causa de uma queda.
  • James Hill/The New York Times

    Enfermeira atende Sergey A. Yurovsky (à esq.), depois de ele ter sido pego bêbado por policiais


"É assim o tempo todo", diz o delegado Igor I. Poludnitsyn, que supervisiona a delegacia há sete anos. "É a nossa calamidade nacional."

O presidente da Rússia, Dmitri A. Medvedev, tem expressado esse sentimento com frequência e diz que o governo precisa fazer alguma coisa sobre o fato de o país ser o líder mundial em consumo de álcool.

O Kremlin já derrotou um vício neste ano, o jogo nos cassinos, que foi quase totalmente banido em julho. Mas beber - em especial a vodca - é uma coisa completamente diferente. É um dos pilares da vida russa, uma espécie de "lubrificante social" muito apreciado e um meio fácil de escapar da dureza do dia-a-dia.

Medvedev quer punições mais fortes para quem vender álcool para menores de idade, além de restrições à cerveja, que vem se tornando mais popular entre os jovens. A venda de cerveja em quiosques seria proibida, assim como a de grandes engradados da bebida. O governo poderá tentar controlar mais o mercado de vodca, que continua sendo a bebida alcoólica mais comum.

Mas os planos de Medvedev dão continuidade a uma longa história de campanhas a favor da abstinência, que remontam há séculos. A mais conhecida foi lançada por Mikhail S. Gorbachev, o último líder soviético, que ordenou que as prateleiras de vodca fossem esvaziadas e que vinhedos históricos fossem destruídos em meados da década de 80. As medidas foram bem sucedidas em um primeiro momento e resultaram em um período de abstinência que chegou a aumentar a expectativa de vida.

Mas elas também despertaram fortes reações públicas que ameaçaram a permanência de Gorbachev e do partido comunista, e ele acabou renunciando.

Nos últimos anos, enquanto a Rússia se recuperou e se envolveu mais com o mundo, o álcool obstrui seu desenvolvimento. As empresas estrangeiras que operam aqui ficam cada vez mais conscientes desse impacto quando tentam combater a baixa produtividade.

Os russos consomem aproximadamente 17,5 litros de álcool por pessoa anualmente, mais do que o dobro do nível considerado saudável pela OMS (Organização Mundial de Saúde). O consumo nos Estados Unidos é de aproximadamente 8,5 litros.

O país terá dificuldades para resolver sua crise demográfica - espera-se que a população diminua em 20% até 2050 - se não enfrentar seu problema com o alcoolismo. Atualmente a expectativa de vida de um homem na Rússia é de 60 anos, em parte em decorrência do alcoolismo.

De acordo com um relatório publicado pelo "The Lancet", uma revista de medicina inglesa, pesquisadores que estudaram a mortalidade em três cidades industriais na Sibéria no anos 90 descobriram que durante vários anos o álcool foi a causa de mais de metade das mortes de pessoas entre 15 e 54 anos, muitas vezes por meio de acidentes, violência ou intoxicação.

A Câmara Pública, que aconselha o Kremlin, afirmou que cerca de 500 mil pessoas morrem todos os anos em decorrência direta do álcool ou têm a morte agravada por ele.

"Não importa que as pessoas digam que ele está profundamente enraizado em nossa cultura, que é praticamente impossível lutar contra o alcoolismo na Rússia", disse Medvedev, "precisamos reconhecer que outros países, e vocês sabem quais, foram bem sucedidos em seus esforços para lidar com essa questão".

Vários especialistas dizem que duvidam que o governo seja capaz de alcançar muitos resultados a menos que seus planos sejam drasticamente endurecidos. Eles dizem que o passo mais importante seria o aumento do preço da vodca por meio de pesados impostos e o fechamento de destilarias irregulares. Um litro de vodca custa atualmente apenas R$ 3,50.

Eles destacam que, em outros países, como na França, as pessoas bebem bastante, mas principalmente vinho e cerveja, bebidas que são vistas como menos prejudiciais. O problema aqui são os destilados.

Em Mystishchi, com 170 mil habitantes, Poludnitsyn diz que a necessidade de impor mais limites é evidente. A delegacia normalmente recebe cerca de doze pessoas por dia e muito mais durante os feriados e finais de semana.

"Não é uma batalha que pode ser vencida em apenas um ano", diz ele. "É uma luta de muito tempo, talvez décadas."

O consumo de álcool aumentou drasticamente desde a queda da União Soviética em 1991, apesar de menos pessoas embriagadas serem vistas nas ruas nos últimos anos, em parte porque a polícia está fazendo um trabalho melhor para retirá-los da rua.

Dr. Aleksandr V. Nemtsov, do Instituto de Pesquisa Psiquiátrica de Moscou, é um dos maiores especialistas em álcool da Rússia e afirma que pouca coisa vai mudar se o Kremlin não levar a sério o fechamento das destilarias irregulares, responsáveis por metade da vodca produzida no país, e que normalmente são protegidas por policiais corruptos.

"O governo não quer que as pessoas pobres fiquem sem vodca barata", diz Nemtsov. "Porque é melhor para eles que as pessoas fiquem embriagadas. Você deve saber que Catarina, a Grande, disse que era mais fácil governar um povo embriagado. Essa é a raiz do problema."

Nemtsov diz que seria besteira restringir a venda de cerveja. Segundo ele, já que é pouco provável que as pessoas parem de beber completamente, o governo deveria preferir que elas bebessem cerveja.

Viktor F. Zvagelsky, membro do partido do governo no parlamento, discorda e diz que jovens que começam com a cerveja depois passam para a vodca.

Ele diz que o apoio de Medvedev e do Primeiro Ministro Vladmir V. Putin ajudaria a superar a oposição da indústria do álcool contra mais restrições.

As cervejarias, muitas delas pertencentes a conglomerados estrangeiros, têm impedido há anos as tentativas do parlamento de aplicar à cerveja as mesmas regras aplicadas à vodca, como a limitação das propagandas e a restrição dos locais e horários de venda, diz Zvagelsky.

"O lobby dos fabricantes de cerveja é muito forte", afirma.

Formas ultrapassadas de lidar com o problema ficaram evidentes na delegacia de Mytshchi. Depois de ficarem sóbrios, os detidos foram fichados e avisados de que teriam que pagar uma multa antes de serem liberados.

O valor é de 100 rublos (R$ 6), o mesmo desde os tempos da União Soviética.

Tradução: Eloise De Vylder

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