UOL Notícias Internacional
 

10/11/2009

Clérigo radical é associado ao tiroteio em base militar no Texas

The New York Times
David Johnston e Scott Shane Em Washington (EUA)
As agências de inteligência interceptaram comunicações no ano passado e no início deste ano entre o psiquiatra militar acusado de matar a tiros 13 pessoas no Fort Hood, Texas, e um clérigo radical no Iêmen, conhecido por seus incendiários ensinamentos antiamericanos.
  • Nicole Bengiveno/The New York Times

    Soldados participam de corrida matinal na base militar de Fort Hood, onde o major Hassan inciou um tiroteio que resultou na morte de 13 pessoas



Mas as autoridades federais abandonaram a investigação após decidirem que as mensagens do psiquiatra, o major Nidal Malik Hassan, não justificavam uma maior ação, disseram funcionários do governo na segunda-feira.

As conversas de Hassan com Anwar al Awlaki, antes um líder espiritual em uma mesquita em um subúrbio da Virgínia frequentada por Hassan, indicam que o psiquiatra militar com problemas chamou a atenção das autoridades muito antes do tiroteio da última quinta-feira no Fort Hood, mas o deixaram em seu posto.

Não está claro qual era o conteúdo das conversas, supostamente por e-mail, e se ofereciam uma pista sobre os pontos de vista de Hassan ou de um declínio de seu estado emocional.

As comunicações, que serão analisadas pelo FBI e por investigadores do Exército, fornecem o primeiro indício de que Hassan se comunicava diretamente com o clérigo. Este elogiou Hassan na segunda-feira em seu site, dizendo que o psiquiatra do Exército "fez a coisa certa" ao atacar os soldados que se preparavam para partir para o Afeganistão e Iraque.

Dependendo do conteúdo das comunicações, a revelação da decisão do governo de não agir contra Hassan poderá provocar críticas do FBI e dos investigadores do Exército por ter perdido um possível sinal de alerta de um suposto assassino em massa.

Mas as autoridades federais cientes do caso disseram que sua decisão de suspender a investigação era razoável, dadas as informações sobre Hassan compiladas na época, que não davam indício de que praticaria violência.

As autoridades disseram que as comunicações não alteram a teoria principal de que Hassan agiu por conta própria, atacando em consequência de uma combinação de fatores, como sua oposição declarada à política americana para o Iraque e Afeganistão e seu fervor religioso cada vez mais profundo como muçulmano.
  • Jack Plunkett/AP

    O sargento Anthony Sills conforta sua esposa em frente à base militar de Fort Hood, no Texas

Hassan, que foi baleado por um policial e está no Centro Médico Brooke do Exército, em San Antonio, recuperou a consciência e já pode falar, mas não se sabe se já conversou com investigadores federais a respeito do tiroteio. "O quadro dele é crítico, mas estável", disse uma porta-voz do hospital, Maria Gallegos.

Gallegos acrescentou que Hassan saiu do coma no sábado e conversou com seus médicos. Ele estava em coma quando chegou a San Antonio na sexta-feira.

Um advogado de Hassan disse à agência de notícias "The Associated Press", na segunda-feira, que pediu aos investigadores que não interrogassem seu cliente e expressou dúvida que ele receberia um julgamento justo. O advogado, o coronel John P. Galligan, disse que foi contatado pela família de Hassan na segunda-feira e que estava a caminho de San Antonio para conversar com seu cliente.

Há muitas perguntas a respeito do estado mental de Hassan, apesar de outra revelação na segunda-feira ter adicionado complexidade ao seu caráter. O gerente geral de um clube de strip-tease, a cerca de 500 metros da mesquita onde Hassan rezava cinco vezes por dia, e vizinha de uma loja de armas onde ele comprou a pistola usada no tiroteio, disse que Hassan era um cliente.

O gerente do clube, Matthew Jones, disse que Hassan esteve no clube de strip-tease Starz pelo menos três vezes no mês passado. "Sim, ele esteve aqui", disse Jones, confirmando um relato que foi divulgado inicialmente pela "Fox News". Jones disse que às vezes Hassan ficava por seis ou sete horas e pagava por danças no colo em uma sala privada. Sua aparição mais recente no clube foi no final de outubro, disse uma das dançarinas.

O imã com quem Hassan fez contato é um cidadão americano nascido no Novo México, filho de um casal iemenita. Ele escreveu na segunda-feira, em seu site de língua inglesa, que Hassan era "um herói". O clérigo disse: "Ele é um homem de consciência, que não suportava viver a contradição de ser um muçulmano servindo a um exército que combate seu próprio povo".

Awlaki acrescentou: "A única forma de um muçulmano poder justificar islamicamente servir como um soldado no Exército americano é se suas intenções forem seguir os passos de homens de Nidal".

Após os ataque de 11 de setembro de 2001 em Nova York e Washington, Awlaki foi citado desaprovando essa violência e foi retratado como uma figura moderada, que poderia fornecer uma ponte entre o Islã e as democracias ocidentais. Mas desde que trocou os Estados Unidos por Londres, em 2002, e posteriormente pelo Iêmen, Awlaki se tornou, por meio de seu site, www.anwar-alawlaki.com, um defensor proeminente do Islã militante.

"Ele é uma das figuras mais populares entre os jihadistas linhas-duras e que falam inglês de todo o mundo", disse Jarret Brachman, autor do livro "Global Jihadism" e um consultor sobre terrorismo para o governo.

Brachman disse que Awlaki tem apelo especial junto aos jovens muçulmanos, que têm curiosidade a respeito das ideias radicais, mas ainda não estão comprometidos. "Ele é americano, é engraçado e fala de forma bem compreensível", disse Brachman.

Awlaki, em seu site, convida os visitantes a fazerem perguntas e comentários sob o título: "Contate o xeque".

O jornal "The Toronto Star" noticiou no mês passado que um grupo de jovens canadenses, acusado de tramar ataques contra alvos do governo e das forças armadas, foi inspirado, em parte, pelos sermões de Awlaki online.

Em 2000 e 2001, Awlaki serviu como imã em duas mesquitas nos Estados Unidos, frequentadas por três futuros sequestradores do 11 de Setembro. Khalid al Midhar e Nawaf al Hazmi frequentavam a mesquita Rabat, em San Diego, onde Awlaki posteriormente reconheceu ter encontrado Al Hazmi várias vezes, mas "alegava não lembrar de detalhes específicos a respeito do que discutiram", segundo o relatório da comissão nacional sobre o 11 de Setembro.

Tanto Al Hazmi quanto outro sequestrador, Hani Hanjour, frequentaram posteriormente a mesquita de Dar al Hijra, em Falls Church, Virgínia, após Awlaki ter se mudado para lá no início de 2001. O relatório da comissão sobre o 11 de Setembro expressou "suspeita" a respeito da coincidência, mas disse que seus investigadores foram incapazes de encontrar Awlaki no Iêmen para interrogá-lo.

Hassan frequentava a mesma mesquita na Virgínia, mas não se sabe se eles se encontraram lá.

Awlaki, que tem menos de 40 anos, nasceu no Novo México de pais iemenitas, mas retornou ao Iêmen com sua família na infância. Ele recebeu educação religiosa no Iêmen e posteriormente obteve diplomas de engenharia pela Universidade Estadual do Colorado e Liderança em Educação pela Estadual de San Diego, segundo uma biografia em seu site.

Seus textos pedem aos muçulmanos que se dediquem a defender o Islã, incluindo buscando um "treinamento em armas", em trabalhos como "44 Modos de Apoiar a Jihad".
  • Nicole Bengiveno/The New York Times

    James Roesch, do centro que presta assistência aos soldados com stress em Fort Hood, no Texas



No Fort Hood, o Exército construiu paredes gigantes de contêineres de cor cinza em torno da sede da 3ª Corporação, em preparativo para o serviço memorial que será realizado na terça-feira para as 13 pessoas mortas quando, disseram as autoridades, Hassan abriu fogo em um centro onde os soldados eram vacinados antes de serem enviados ao exterior.

"Nós estamos criando um espaço lá que é, ao mesmo tempo, privado e livre de observação", disse o general Robert Cone, o comandante da base.

O presidente Barack Obama e sua esposa, Michelle Obama, deverão participar da cerimônia. O presidente deverá falar para uma plateia que incluirá sobreviventes do ataque e as famílias das vítimas.
A cerimônia incluirá orações, a citação nominal dos mortos e uma salva de 21 tiros.

Cone disse que 15 pessoas permaneciam hospitalizadas com ferimentos de bala, oito delas em tratamento intensivo. Outros 27 soldados feridos estavam se recuperando e estarão presentes na cerimônia, ele disse.

Enquanto o senador Joseph I. Lieberman, um independente de Connecticut, pedia uma investigação de como o Exército ignorou os sinais de que Hassan tinha se tornado um oponente violento das guerras, Cone disse que seus oficiais estavam revendo o histórico de seus soldados em busca de algum outro com problemas emocionais que possa transformá-lo em ameaça. Ele disse que eles não estavam se concentrando em soldados muçulmanos. "Nós estamos à procura de pessoas com problemas pessoais, nem um pouco relacionados à religião delas", ele disse.

*James C. McKinley Jr., em Killeen (Texas), contribuiu com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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