UOL Notícias Internacional
 

13/11/2009

Dinheiro somali vindo do exterior é um salva-vidas na terra natal

The New York Times
Matthew Saltmarsh Em Paris Com contribuição de Mohammed Ibrahim, de Mogadício
Enquanto somalis lutam para sobreviver ao caos que assola seu país, uma rede de empresas que distribuem dinheiro da grande diáspora da nação expandiu discretamente, providenciando uma importante rede de segurança.

Como em outros países pobres, o principal objetivo dessas empresas é garantir que o dinheiro daqueles que trabalham no exterior chegue até os familiares que ficaram para trás.

  • Abdurashid Abikar/AFP - 5.abr.2009

    Mulheres e crianças somalis fazem fila para receber alimentos, na capital Mogadício



Mas em uma Somália arrasada pela guerra, onde o governo tem pouco controle sobre o país e também precisa lutar para sobreviver, as empresas agora estão ajudando organizações internacionais a transferir dinheiro para o país e movimentá-lo dentro dele, de acordo com o Banco Mundial, acadêmicos e voluntários.

E na Somalilândia, uma região autodeclarada independente onde o governo é mais estável do que em outras partes do país, a diáspora somali contribuiu com dinheiro para a educação, a saúde e outros programas sociais.

"O sistema de remessa de fundos se tornou o salva-vidas para o povo somali, e o sangue vital da economia nas duas últimas décadas de conflito civil", diz Samuel Munzele Maimbo, um especialista do Banco Mundial em Moçambique, que diz ainda que muitos somalis sobreviveram somente por causa do dinheiro vindo do exterior. Para outros, o dinheiro foi crucial para abrir e manter negócios.

Um estudo patrocinado pelo Departamento Britânico para Desenvolvimento Internacional em maio de 2008 revelou que 80% do capital inicial para empresas de pequeno e médio porte na Somália vem de dinheiro enviado pela diáspora.

Dilip Ratha, um economista do Banco Mundial, disse que a Somália, assim como o Haiti, estava entre os países que mais dependem de dinheiro do exterior.

O sistema de remessa de fundos - e sua importância na Somália - cresceu, uma vez que décadas de caos político levaram muitos somalis para fora do país e, nos últimos anos, islamitas tiraram o controle sobre boa parte do país das mãos de um fraco governo de transição. O governo, que tem apoio internacional, está preso em uma pequena parte da capital sob proteção de tropas de paz da União Africana.

Um estudo recente feito pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) estimou o tamanho da diáspora somali em mais de 1 milhão, e a quantia das remessas anuais para a Somália em até US$ 1 bilhão (cerca de R$ 1,74 bilhão), equivalente a cerca de 18% do produto interno bruto do país.

O sistema começou a prosperar durante a ditadura do presidente Mohammed Siad Barre, que dirigiu o país entre 1969 e 1991. Como o sistema bancário enfraquecia, segundo Mohamed Waldo, consultor que trabalhou com empresas somalis de remessa, negociantes vieram com uma solução: agir como intermediários na revenda de bens de consumo enviados para casa pelo número crescente de somalis que trabalhavam no exterior, especialmente na região do Golfo Pérsico. Os negociantes ficavam com uma pequena parte dos lucros e enviava o resto para os parentes dos trabalhadores na Somália. Os carregamentos contornavam restrições de moeda.

Por fim, quando o governo desmoronou, os trabalhadores somalis no exterior começaram a enviar dinheiro.

Waldo diz que naquela época havia mais de 20 empresas somalis de remessas ativas, cinco delas grandes. Uma das maiores empresas é a Dahabshiil, fundada no início dos anos 1970 por Mohamed Said Duale a partir de sua mercearia em Burao no noroeste da Somália.

Em 1988, a briga entre forças do governo e rebeldes com o Movimento Nacional Somali arrasou Burao. Duale deixou o país e continuou seu trabalho do exterior.

Em 1991, quando o governo Barre foi derrubado, Duale voltou para a Somália. Ele abriu escritórios em grandes cidades e mais tarde em vilarejos remotos que gigantes ocidentais do ramo de transferência de dinheiro teriam dificuldade em servir.

"Construímos este negócio por meio do boca a boca", diz seu filho, Abdirashid Duale, agora presidente da empresa. Hoje, a Dahabshiil diz ter mais de 1.000 filiais e agentes em 40 países.

O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento usa a Dahabshiil para transferir dinheiro para programas locais, diz Álvaro Rodriguez, o diretor da agência para a Somália. Essas empresas fornecem "a única opção segura e eficiente para transferir fundos para projetos que beneficiam as pessoas mais vulneráveis da Somália", ele disse. "Seu serviço é rápido e eficiente".

Abdirashid Duale, que informa sua idade como "35, mas com 25 anos de experiência", se recusa a fornecer números de lucros ou receitas, dizendo que isso só ajudaria seus concorrentes. A empresa cobra comissões que variam entre 1% e 5%, dependendo do tamanho da transação; ele diz que a maioria dos somalis com quem ele trabalhou no exterior enviavam para casa de US$ 200 a US$ 300 por mês.

Nikos Passas, um professor da Northeastern University em Boston, que pesquisa terrorismo e crime do colarinho branco, disse que a Dahabshill foi ajudada pelo fechamento de uma rival maior, a Al Barakaat, por ordem das autoridades dos Estados Unidos na sequência dos ataques de 11 de setembro de 2001.

No fim, agentes do FBI não encontraram nenhuma prova que ligasse a Al Barakaat ao financiamento de terrorismo. Mas para a Dahabshiil, ganhar a fatia de mercado da Al Barakaat foi como "tirar doce de uma criança", diz Passas.

A imagem da Dahabshiil teve uma ajuda dos seus trabalhos de caridade. Ela diz investir 5% do lucro anual em tais projetos; Abdirashid Duale diz que isso representa cerca de US$ 1 milhão por ano.

Em Mogadício - uma cidade de arquitetura italiana esburacada e cheia de escombros - Dahabshiil opera a partir do Mercado de Bakara, apesar de contínuos conflitos na área entre o enfraquecido governo e os insurgentes islâmicos.

Seu escritório, em um modesto prédio de dois andares, é protegido por seguranças.

Olhando à frente, Abdirashid Duale planeja mais expansão.

"Um dia os conflitos vão acabar", ele diz, "e nós ainda estaremos aqui".

Tradução: Lana Lim

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