UOL Notícias Internacional
 

13/11/2009

Em uma área remota do Afeganistão, um programa de desenvolvimento modelo

The New York Times
Sabrina Tavernise Em Jurm (Afeganistão)
Um plano de ajuda à população, usando pequenas somas de dinheiro e conselhos de aldeia, promoveu mudanças modestas mas importantes neste canto do Afeganistão, aumentando a esperança de que possa vir a se tornar um modelo em um país onde a corrupção oficial e uma insurreição do Taleban frustraram muitos esforços de desenvolvimento de grande escala.
  •  Holly Pickett/The New York Times

    Fonte de água comunal no Vale de Jurm, no Afeganistão. Os próprios moradores da região construíram sistemas para distribuir água potável



Desde que chegaram ao Afeganistão em 2001, os Estados Unidos e seus aliados ocidentais gastaram bilhões de dólares em projetos de desenvolvimento, mas com menos resultados e apoio popular do que muitos esperavam.

Grande parte do dinheiro foi canalizado pelo governo central, que é cada vez mais criticado como incompetente e corrupto. Ainda mais foi para caras empresas privadas contratadas pelos Estados Unidos, que desviaram quase metade de cada dólar para pagamento de salários dos trabalhadores estrangeiros e outras despesas.

Não aqui em Jurm, um vale na montanhosa província ventosa de Badakhshan, no noroeste. As pessoas daqui tomam conta de si mesmas -usando os conselhos da aldeia e fundos diretos como parte de uma iniciativa chamada Programa de Solidariedade Nacional, introduzido por um ministério afegão em 2003.

Antes, este vale não tinha eletricidade e nem água limpa, sua principal plantação era de papoula e quase uma entre 10 mulheres morria no parto, uma das taxas mais altas de mortalidade maternal no mundo. Hoje, muitas pessoas têm torneiras, trigo cresce nos campos e não é mais considerado vergonhoso uma mulher se consultar com um médico.

Se há lições a serem extraídas dos sucessos ainda frágeis aqui, elas são a de que pequenos projetos frequentemente funcionam melhor, que o consentimento e participação da população local é essencial e que mesmo pequenos passos levam anos.

As questões não são acadêmicas. Levar o desenvolvimento aos afegãos é uma parte importante de uma estratégia de contrainsurreição que visa afastar as pessoas do Taleban e fomentar o apoio popular ao governo apoiado pelo Ocidente, mostrando que ele pode fazer a diferença na vida das pessoas.

"Nós ignoramos as pessoas em distritos e aldeias", disse Jelani Popal, que dirige um órgão estatal que nomeia os governadores. "Isso causou muita indiferença. 'Por que devo apoiar um governo que não existe na minha vida?"

Em lugares como Jurm, a presença do governo central é mal sentida. A ideia para mudar isso foi simples: as pessoas elegeram os aldeões mais confiáveis e o governo em Cabul, auxiliado por doadores estrangeiros, lhes concedeu verbas diretas - dinheiro para construir coisas para eles mesmos como sistemas de água e escolas para meninas.

Os moradores argumentam que os conselhos funcionam porque promovem o desenvolvimento em seu nível mais básico, com os aldeões direcionando os gastos para melhorar suas próprias vidas, cortando intermediários, locais e estrangeiros, assim como grande parte das despesas e corrupção. "Você não rouba a si mesmo", foi como descreveu Ataullah, um agricultor em Jurm que usa apenas um nome.
  • Holly Pickett/The New York Times

    Escola para meninas no Vale de Jurm, Afeganistão



Os fundos eram pequenos, frequentemente de menos de US$ 100 mil. A eficácia geral do plano ainda está sendo avaliada pelos acadêmicos e pelas autoridades americanas e afegãs, mas a ideia já foi reproduzida em milhares de aldeias por todo o país.

Relatos apontam para algum sucesso. Houve economia. Quando os aldeões no Vale de Jurm quiseram água corrente, por exemplo, eles realizaram grande parte do trabalho sozinhos, com a ajuda de um engenheiro. Uma empresa privada, com laços com um político local, pediu o triplo do preço (os aldeões recusaram).

Mesmo esses passos modestos não foram fáceis. Jurm era um campo minado de obstáculos e foi necessário um grupo de desenvolvimento com funcionários locais determinados para exibir progresso aqui.

Um problema básico era o analfabetismo, disse Ghulam Dekan, um trabalhador local da Rede de Desenvolvimento Agha Khan, o grupo sem fins lucrativos que apoia os conselhos aqui.

Diferente da situação no Iraque, cujo índice de alfabetização era de mais de 70%, menos de um terço dos afegãos sabe ler, tornando o trabalho dos conselhos dolorosamente lentos. Os aldeões suspeitavam dos projetos, acreditando que as pessoas nos grupos que os apresentavam eram missionários cristãos.

"Eles não entendiam a importância de uma estrada", disse Dekan.

A maioria dos projetos, independente de quão simples, levou cinco anos. Anos de guerra despedaçaram a sociedade afegã em fragmentos rancorosos, tornando difícil resistir à interferência dos senhores da guerra nos projetos. "Eles diziam: 'Pelo amor de Deus, nós não podemos fazer isso, nós não temos a capacidade'", disse Dekan. "Nós os ensinamos a ter confiança."

Muhamed Azghari, um funcionário da Rede de Desenvolvimento Agha Khan, passou mais de um ano tentando persuadir um mulá a permitir uma escola para meninas. Sua tática: sentar-se mais baixo do que o homem, em sinal de deferência, e elogiar sua liderança. Ele pagou ao homem para que visitasse outras aldeias, para ver o que outros conselhos realizaram.

"Dez vezes lutamos, duas vezes rimos", disse Dekan, usando o equivalente afegão a "dois passos para a frente, um passo para trás".

Quando o assunto era as mulheres, os aldeões eram veementes.

Mas forçar condições teria violado um princípio básico da abordagem: nunca iniciar um projeto que não seja apoiado por todos os membros da comunidade, ou ele fracassará.

"As pessoas precisam estar mentalmente prontas", disse Akhtar Iqbal, diretor da Agha Khan em Badakhshan. Se não estiverem, a escola ou clínica permanecerão ociosas, um problema frequente com os esforços de desenvolvimento de grande escala.

Cinco anos depois, a aldeia de Fargamanch possui aulas de alfabetização para mulheres e um colégio para meninas. Ao todo, o número de garotas matriculadas em Badakhshan aumentou 65% desde 2004, segundo o Ministério da Educação. O número de parteiras treinadas quadruplicou.

A saúde também melhorou. Atualmente, 3.270 famílias possuem torneiras com água potável perto de suas casas, reduzindo o número de doenças, e com elas o trabalho para a tia de Ataullah, que é médica.
  • Holly Pickett/The New York Times

    Garotas de um vilarejo no Vale de Jurm, no Afeganistão, onde uma escola feminina foi construída pela comunidade para recebê-las



Os conselhos também combatem a corrupção. Quando 200 sacas de trigo desapareceram misteriosamente do governo local neste ano, membros do conselho exigiram que fossem devolvidas. (Elas foram.) Quando um assessor de um ministro descontou um cheque destinado a um transformador, Ataullah passou uma semana rastreando uma cópia. (O assessor foi demitido.)

"O governo não gosta mais de nós", disse Azghari, rindo. "Eles querem o velho sistema de volta."

Apesar das mudanças em Badakhshan serem frágeis, as forças da modernização estão crescendo. Os televisores começaram a exibir o mundo exterior para as aldeias. Redes telefônicas cobrem mais de 80% da província, o triplo do número em 2001.

Talvez mais importante, os afegãos estão cansados da guerra e ver os benefícios de uma década de paz pode ser o suficiente para encorajar novos tipos de decisões.

Ghulal Mohaiuddin, um agricultor, se agita quando lembra do passado. "A jihad foi inútil", ele disse, sentado de pernas cruzadas em sua casa de paredes de barro. De repente, ocorreu uma explosão, assustando seus hóspedes. Ele riu. Era o som da construção do canal, não de uma de bomba. "Agora nós baixamos nossas armas e começamos a construir", ele disse, sorrindo.

*Sangar Rahimi contribuiu com reportagem

Tradução: George El Khouri Andolfato

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