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13/11/2009

Iniciativa para a construção de mesquitas encontra resistência

The New York Times
John Tagliabue Em Copenhague (Dinamarca)
Paris possui a sua grande mesquita, ao longo do Sena. E também Roma, a cidade do papa. Mas, apesar da sua grande população muçulmana, a capital dinamarquesa só conta com pequenos locais improvisados para a prática da religião muçulmana.

A cidade está neste momento rumando lentamente para a construção de duas grandes mesquitas. Em agosto, o conselho municipal aprovou a construção de uma mesquita muçulmana xiita, dotada de dois minaretes de 37 metros de altura, em uma setor industrial, no local em que antigamente havia uma fábrica. Há também planos para a construção de uma mesquita sunita. Mas este tem sido um processo longo e complicado, que envolve a política local e que foi prejudicado pela publicação, há quatro anos, de charges que zombavam do islamismo.
  • AFP PHOTO / FABRICE COFFRINI

    Cartazes de propaganda da direita suíça defendem a proibição aos minaretes no país

As dificuldades refletem o caminho tortuoso que a Dinamarca adotou para lidar com os seus imigrantes, que são em sua maioria muçulmanos. Copenhague, em especial, tem sido afligida por guerras de quadrilhas,com tiroteios e assassinatos ocorridos nos meses recentes entre o Hells Angels e grupos de imigrantes.

A confusão fez com que crescesse a popularidade de um partido conservador contrário aos imigrantes, o Partido do Povo Dinamarquês. Nas eleições municipais marcadas para 17 de novembro, o Partido do Povo, segundo algumas estimativas, poderia dobrar os cerca de 6% dos votos que obteve na última disputa do gênero.

A Dinamarca não é o único país que está às voltas com essa questão. Na Itália, a direitista Liga Norte opõe-se à existência de mesquitas em cidades italianas; na Suíça, os eleitores irão às urnas em 29 de novembro em um referendo para decidir se o país proibirá a construção de minaretes muçulmanos.

Na Dinamarca, foram as charges, uma delas mostrando Maomé com uma bomba no turbante, que deram o ímpeto inicial a um movimento por uma mesquita.

"Eu redigi uma matéria de primeira página afirmando que, de alguma maneira, precisávamos voltar a nos conectar com os muçulmanos, e arrecadar dinheiro para a construção de uma mesquita como sinal de solidariedade", diz Herbert Pundik, 82, ex-editor do jornal dinamarquês "Politiken".

Falando por telefone de Tel Aviv, onde atualmente mora, ele disse que em um período 24 horas houve mais de mil respostas positivas. Mas a seguir a reação muçulmana às charges tornou-se violenta, com ataques a embaixadas dinamarquesas em várias cidades, incluindo Beirute e Damasco. "O projeto perdeu força", disse Pundik.

Perdeu força, mas não morreu. Bijan Eskandani, o arquiteto da mesquita xiita, disse que encontrou a inspiração para o seu design no "elemento persa na arte islâmica", que segundo ele consiste de uma "filosofia especial lírica e poética". Respondendo a perguntas por escrito, ele disse que a comunidade xiita não contava com os recursos financeiros necessários para a aquisição de um terreno apropriado para uma mesquita. "O terreno que eles possuem para construção é situado em uma área de fábricas, cinzenta, feia e desarmônica. Uma mesquita esplendorosa naquele local poderia fazer uma diferença", disse Eskandani.

A própria palavra "persa" provoca calafrios em Martin Henriksen. "Nós somos contra a mesquita", diz Henriksen, 29, um dos cinco membros da diretoria do Partido do Povo, em uma entrevista no prédio do parlamento, em Copenhague. "É óbvio que todos os membros do regime iraniano têm algo a ver com isso", afirma ele. "O regime iraniano está baseado em uma identidade fascista que nós não queremos que chegue à Dinamarca".

Depois que tornou-se parte da coalizão nacional de governo, em 2001, o Partido do Povo ajudou a criar uma legislação para conter o fluxo de imigrantes e aumentar as exigências para a concessão da cidadania.

"Os imigrantes precisam demonstrar uma capacidade e uma vontade de se tornarem dinamarqueses", insiste Henriksen. Ele cita como exemplo a imigração judaica ocorrida no passado. "Muitos judeus vieram para a Dinamarca a partir do século 16", diz ele. "Não temos qualquer polêmica quanto à construção de sinagogas". Há pelo menos quatro sinagogas na cidade.

Abdul Wahid Pedersen, cujos pais são escandinavos, converteu-se ao islamismo há alguns anos. "Eu tinha 28 anos, era membro da geração dos anos sessenta", afirma Pedersen. Atualmente com 55 anos, ele é o diretor de um comitê de 15 membros que promove a construção de uma grande mesquita para a comunidade muçulmana sunita de Copenhague.

Ele admite que dentre os aproximadamente 250 mil muçulmanos de uma população dinamarquesa de 5,5 milhões, somente cerca de 35 mil são sunitas. Mas ele defende a necessidade da construção de uma grande mesquita e afirma que, embora a comunidade sunita não esteja solicitando auxílio financeiro da Arábia Saudita, conforme alega o Partido do Povo, não vê problema em aceitar doações.

"Se alguém quiser ajudar, tudo bem", afirma Pedersen, em uma loja de um bairro de classe operária onde vende literatura islâmica, tapetes de oração e outros objetos religiosos. "Mas eles não influirão na administração do local".

Pedersen, um homem louro de barba avermelhada, diz que o seu comitê está até cogitando a instalação de turbinas eólicas no topo dos minaretes e a cobertura da cúpula da mesquita com um painel de energia solar.

O vice-prefeito da cidade, Klaus Bondam, 45, defende o direito dos muçulmanos às mesquitas. Segundo ele, os minaretes seriam "torres bem delgadas; nada parecido com Damasco ou Cairo". A prefeitura também deixou claro que não convocará fieis a partir dos minaretes das mesquitas. Quanto à acusação de financiamento estrangeiro, Bondam diz que isso não o preocupa, contanto que as fontes sejam declaradas com transparência.

Mas ele teme que o debate a respeito das mesquitas possa ajudar o Partido do Povo a dobrar a sua quantidade de votos nas eleições locais deste mês, para até 12%. "Isso se deve a um certo nervosismo de pessoas de outras religiões e culturas", diz Bondam. "Elas questionam: "Por que os outros não podem ser como eu?".

Para Toger Seidenfaden, 52, o atual editor do "Politiken", o Partido do Povo é "democrático e parlamentar - eles não são camisas marrons". Mas Seidenfaden afirma que o partido é muito dinamarquês e nacionalista. "Eles gostariam que retornássemos à Dinamarca anterior à globalização".

Na ampla avenida chamada Njalsgade, onde a mesquita sunita será construída em um terreno baldio, Preben Anderson, um pedreiro de 61 anos, diz que não tem nada contra o templo muçulmano, embora observe que não pode falar pelos seus vizinhos. "Nós temos igrejas", diz ele. "Precisamos ter mesquitas". Ele está do outro lado da rua, onde o mato e o lixo atualmente cobrem o terreno no qual um dia poderá ficar a mesquita sunita. Um vizinho dele diz que não sabe onde a mesquita será construída.

Per Nielsen, 56, um professor de história aposentado, diz que a crise econômica e as guerras entre quadrilhas nos bairros vizinhos estão provocando o aumento da popularidade do Partido do Povo. Quanto à mesquita, ele diz: "Há uma pressão muito grande. As pessoas que moram aqui não a querem".

Tradução: UOL

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