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17/11/2009

O legado de Michelle Bachelet

The New York Times
Alexei Barrionuevo De Santiago (Chile)
No começo, quebrar a barreira do gênero não foi muito suave para Michelle Bachelet. Em 2006, ela havia acabado de atrair atenção mundial, tornando-se a primeira mulher a ser eleita presidente deste país profundamente conservador. E havia feito isso sozinha, sem os maridos famosos que haviam impulsionado outras mulheres presidentes na América Latina.
  • João Wainer/Folha Imagem - 30.jul.2007

    Popularidade Pesquisas recentes mostram o índice de aprovação da presidente chilena Michelle Bachelet acima dos 70%. Nas últimas semanas, ela atingiu os níveis mais altos desde que o Chile passou de ditadura a democracia, em 1990



Porém, um mês após assumir o cargo, Bachelet enfrentou enormes manifestações estudantis por todo o país. Em seguida, seu apoio decaiu ainda mais quando um novo sistema de transporte público se tornou caótico, levando críticos a retratá-la como um ônibus municipal indo em direção de um penhasco. "Havia essa impressão de que ela não estava no controle", disse Marta Lagos, diretora da Market Opinion Research International, empresa de pesquisa do Chile.

No entanto, faltando apenas cinco meses para o fim de seu mandato, Bachelet tem cada vez mais chances de ser lembrada como um dos líderes mais populares de seu país. Pesquisas recentes mostram seu índice de aprovação acima dos 70%. Nas últimas semanas, ela atingiu os níveis mais altos desde que o Chile passou de ditadura a democracia, em 1990.

Analistas e realizadores de pesquisas de opinião atribuem essa surpreendente reviravolta ao seu tratamento da economia durante a crise financeira global e à sua decisão de economizar bilhões de dólares da renda de venda de cobre durante o último boom de mercadorias. Essa economia agressiva deu ao país dinheiro para gastar na reforma previdenciária e no ambicioso programa de proteções sociais para mulheres e crianças de Bachelet, apesar da crise financeira.

Bachelet está entre os poucos líderes latino-americanos, incluindo o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, cujo gerenciamento da crise fortaleceu sua popularidade. Tanto o Brasil quanto o Chile estão emergindo da recessão, e o governo chileno afirma que sua economia crescerá 5% no próximo ano.

Bachelet, agnóstica confessa e mãe solteira de três filhos em um país que legalizou o divórcio há apenas cinco anos, rompeu o molde dos políticos chilenos tradicionais nesta fortaleza romana católica. No começo, segundo ela, a elite política tentou retratá-la como fraca e desrespeitosa em relação ao cargo de presidente.

"Foi um desafio importante nos primeiros anos", disse Bachelet, de 58 anos, em recente entrevista, apontando a forma pela qual outras mulheres poderosas a encorajaram a se fortalecer e "gritar e insultar" para ser respeitada. "Eu me arrisquei", ela acrescentou, "a exercitar a liderança sem perder minha natureza feminina".

Agora, com eleições presidenciais no Chile dentro de dois meses e condições que evitam sua candidatura, candidatos rivais estão lutando para conseguir uma foto ao lado dela, incluindo alguns que a criticaram por não gastar o adicional do cobre durante a época de prosperidade.

Quando assumiu o poder, Bachelet introduziu um gabinete de 20 ministros: dez homens e dez mulheres, uma paridade de gênero jamais tentada anteriormente por um presidente chileno.

Todavia, seu governo logo tropeçou em abril de 2006, quando mais de 100 mil estudantes do colegial se manifestaram por melhorias na educação pública. Com popularidade em queda, ela substituiu três ministros em julho.

Em fevereiro seguinte, a introdução do sistema de transporte público Transantiago, desenvolvido pelo governo de seu predecessor, o presidente Ricardo Lagos, transformou-se em um grande embaraço ao se mostrar confuso e insuficiente para a demanda.

Ela substituiu outros cinco ministros em março de 2007, três deles sendo mulheres trocadas por homens. Em setembro, o problema gerado pela Transantiago havia arrastado seu índice de aprovação para 35%.

"Eu tinha dito que era um erro", disse Bachelet. "Era uma boa ideia, mas criou problemas para a vida cotidiana das pessoas, e isso não foi aceitável". Ela disse ter feito o necessário para tentar aliviar os problemas.

Bachelet já havia enfrentado coisas piores. Seu pai, general da força aérea, foi torturado por meses sob a ditadura do general Augusto Pinochet, e acabou morrendo na prisão. Os militares também prenderam e torturaram Bachelet e sua mãe, antes de as exilarem na Austrália. Bachelet retornou em 1979.

Depois que a democracia foi restaurada, ela trabalhou para a Comissão Nacional de AIDS. Em 2000, o Sr. Lagos a nomeou ministra da saúde, e ela gerou controvérsias por permitir a distribuição gratuita da pílula do dia seguinte para vítimas de abuso sexual. Posteriormente, ela foi nomeada ministra da defesa, sendo a primeira mulher a assumir esse cargo em um país da América Latina.

Mas foi na frente econômica que ela conseguiu reverter sua presidência.

Bachelet resistiu aos clamores de políticos em usar os lucros da venda de cobre para tentar acabar com a desigualdade econômica do Chile, uma das piores do mundo. Em vez disso, durante os três primeiros anos de mandato, seu governo reservou US$35 bilhões desse lucro do boom. Quando a crise financeira chegou, o valor das exportações chilenas afundou mais de 30% -- mas então o Chile tinha quase US$20 bilhões investidos somente em fundos soberanos estrangeiros.
  • /Paulo Whitaker/Reuters - 08.nov.2007

    Caminhos semelhantes Bachelet está entre
    os poucos líderes latino-americanos, incluindo
    o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, cujo gerenciamento da crise fortaleceu sua popularidade. Tanto o Brasil quanto o Chile estão emergindo da recessão, e o governo chileno afirma que sua economia crescerá 5% no próximo ano



"Nós temos o mérito de talvez possuir o único fundo soberano que lucrou durante a crise", disse Andrés Velasco, ministro das finanças do Chile. No ano passado, após arrastar altas dívidas públicas por mais de duas décadas, o Chile se tornou credor líquido pela primeira vez em sua história, disse Velasco.

Com bilhões de dólares economizados, o governo de Bachelet legalizou o pagamento de pensões a mulheres divorciadas e triplicou o número de centros gratuitos de tratamento infantil para famílias de baixa renda. Foi acrescentada uma garantia mínima de pensão para os muito pobres e para donas-de-casa de baixa renda. O governo trabalha para completar seu objetivo de criar 3.500 centros de tratamento infantil, disse Maria Estela Ortiz, vice-presidente executiva do Conselho Nacional de Centros de Creches do Chile.

"Acredito que, para combater a desigualdade, é preciso começar na infância", disse Bachelet. Políticos da oposição, que anteriormente criticaram seus esforços de proteção social como se fossem um recuo a uma era de grande governo, agora dizem que tentarão expandir seus programas para a classe média.

Seu estilo não-ortodoxo deixou uma marca na cultura política do país, segundo analistas. Durante pronunciamento à nação em maio, ela brincou sobre perder um sapato ao chutar uma bola de futebol na inauguração de um estádio, dizendo que o investimento em quatro novos estádios incluiria dinheiro para "o sapato voador". Na recente entrevista, ela brincou que seu plano de igualdade de gêneros para o gabinete tinha a intenção de assegurar que todos tivessem um parceiro de dança.

Esse ar pessoal também inspirou críticas, por exemplo, quando ela foi fotografada dando um mergulho matinal no mar no Brasil, durante uma conferência de líderes regionais no ano passado, ou quando recebeu artistas populares como Bono e Shakira.

"Ela fez coisas que não eram consideradas presidenciáveis aos olhos da instituição chilena", disse a Sra. Lagos, pesquisadora. "É muito difícil voltar atrás. Ela levou a presidência a um nível mais próximo do povo".

Tradução: Gabriela d'Avila

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