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18/11/2009

Obama evita assuntos políticos sensíveis na visita à China

The New York Times
Michael Wines e Sharon La Franiere* Em Pequim (China)
Seja por planejamento da Casa Branca ou por insistência de Pequim, o presidente Barack Obama evitou encontros públicos com chineses liberais, defensores da liberdade de imprensa e até mesmo chineses comuns durante sua primeira visita à China, demonstrando deferência às aversões da liderança chinesa a essas interações, o que é incomum para um presidente americano em visita.

Obama participou de um encontro com estudantes na segunda-feira. Mas eles foram cuidadosamente selecionados e preparados para o evento pelo governo, disseram os participantes. E as autoridades chinesas, empregando uma mistura de censura e pressão política, tiveram sucesso em limitar a exposição de Obama a ponto de um terço dos cerca de 40 estudantes universitários em Pequim, entrevistados na terça-feira, não estarem cientes de que ele tinha acabado de se encontrar com seus colegas em Xangai.
  • Ng Han Guan/AP

    Encontro O presidente dos EUA, Barack Obama (à esquerda), cumprimenta o presidente da China, Hu Jintao, após uma coletiva de imprensa no Grande Salão do Povo, em Pequim

Alguns estudantes que estavam cientes aplicaram a ele termos raramente usados para líderes americanos, como "humilde" e "afável". "A América está sendo caprichosa porque suas dificuldades econômicas a forçam a ser mais gentil com a China e outros países, ou se trata de uma mudança genuína?" perguntou Liu Ziqi, um calouro de Universidade de Negócios Internacionais e Economia. "Eu não sei."

Este não é mais o velho relacionamento Estados Unidos-China, mas um encontro entre um gigante enfraquecido e um emergente com uma dose de bravata. A vantagem comparativa de Washington em encontros anteriores agora está diminuída, um fato que claramente não passou desapercebido pelos chineses.

Os direitos humanos é o principal exemplo de todos. Em 1998, o presidente Bill Clinton participou de um debate transmitido nacionalmente com o presidente da época, Jiang Zemin, sobre direitos humanos, o Dalai Lama e talvez o assunto mais tabu da China, os protestos de 1989 na Praça Tiananmen. Em 2002, o presidente George W. Bush destacou a liberdade, a regra da lei e fé em um discurso para estudantes universitários transmitido para toda a China.

Quando Obama visitou Moscou em julho, ele se encontrou com jornalistas e ativistas políticos da oposição, assim como questionou publicamente o processo contra um empresário anti-Kremlin.

Na China, em comparação, as referências cheias de nuances de Obama aos direitos evitaram citar o histórico da China, mesmo quando lhe foi oferecida a oportunidade. Ao ser pedido na segunda-feira, em Xangai, para que discutisse a censura da Internet na China, o presidente respondeu falando sobre os robustos debates políticos dos Estados Unidos.

Acadêmicos americanos e ativistas, que exigiram anonimato por temer prejudicar as relações com a Casa Branca, disseram que o governo rejeitou propostas para encontros breves em Pequim com ativistas políticos chineses e então com advogados.

As autoridades americanas de fato consideraram organizar encontros entre Obama e advogados chineses, estudantes universitários em Pequim e Hu Shuli, um conhecido jornalista chinês que cedeu recentemente o controle da "Caijing", uma das revistas mais respeitadas e independentes do país. Mas as autoridades disseram que limitações de tempo, e não considerações políticas, acabaram impedindo essas opções, apesar da agenda turística ter permanecido intacta.

Um proeminente advogado de defesa, Mo Shaoping, disse na terça-feira que um funcionário americano o contatou neste mês para perguntar se ele se encontraria com Obama, mas nunca telefonou de volta. "Os Estados Unidos deveriam ser a salva-guarda dos valores universais", ele disse, mas Obama "na verdade não fez disso um alta prioridade".

Por sua vez, o governo chinês assegurou que Obama não se encontrasse com manifestantes, colocando os ativistas conhecidos sob vigilância reforçada. Os Defensores dos Direitos Humanos Chineses, uma organização local, disseram que 20 pessoas foram detidas, colocadas sob prisão domiciliar ou proibidas de viajar antes da visita de Obama.

Zhang Zuhua, um ex-membro do Partido Comunista e atualmente um dos mais influentes ativistas de direitos civis da China, disse que um número adicional de policiais estava vigiando seu apartamento e que ele foi alertado a evitar atividade política.

Zhang expressou preocupação com o que chamou de crescente relutância dos Estados Unidos em criticar a China em direitos humanos, dizendo que "o Partido Comunista pode tratar o assunto com ainda menos respeito e endurecer ainda mais". Mas uma explicação alternativa para a relativa discrição de Obama aqui, curiosamente, é a própria insegurança do regime autocrático da China.

Obama defende liberdade de informação

  • Em encontro com estudantes chineses nesta segunda-feira, em Xangai, o presidente americano Barack Obama defendeu a liberdade de expressão, de culto e de informação, inclusive na internet



Diferente de Jiang, que debateu abertamente com Clinton a respeito de direitos humanos, Hu é um político cauteloso cujo mandato é marcado por uma obsessão pela estabilidade. No caso de Obama, por exemplo, as autoridades chineses dificultaram as negociações em torno de itens como a transmissão para todo o país do encontro com os estudantes em Xangai, até conseguirem a maioria de seus objetivos para limitar a exposição.

Na China, Obama não desfruta do status de ídolo de matinê que o segue por toda parte. Mas os chineses estão curiosos a respeito do jovem novo presidente e, em alguns casos, eles claramente o consideram um contrasta refrescante à sua própria liderança em idade de aposentadoria.

Um assunto que causou certa admiração nos sites de bate-papo na Internet chinesa, nesta semana, foi a imagem de Obama desembarcando do Força Aérea Um em uma Pequim chuvosa, segurando seu próprio guarda-chuva, sem a assistência de um serviçal.

Em uma pesquisa pela Internet em 11 de novembro, foi pedido aos internautas que dissessem o que era mais memorável a respeito de Obama. A maioria notou seu Prêmio Nobel da Paz. Em segundo lugar, de forma improvável para forasteiros, foi uma reportagem chinesa de que o presidente tinha insistido em pagar pelo seu próprio hambúrguer em um restaurante de Washington.

Neste país louco por basquete, Obama poderia sozinho ter mudado a imagem dos Estados Unidos ao aparecer nas muitas quadras ao ar livre da cidade para alguns arremessos. Em vez disso, ele evitou assuntos delicados como direitos humanos, enquanto as autoridades chineses adotavam medidas extras para assegurar que a imprensa estatal não projetasse qualquer indício de desarmonia.

Um editor de jornal estatal disse que sua redação estava agora mais tensa do que em junho, quando a China passou pelo 20º aniversário do massacre de Tiananmen de 1989.

Na noite de segunda-feira, ele disse, um censor do Ministério das Relações Exteriores insistiu para que dois artigos programados para publicação na terça-feira fosse descartados, incluindo um artigo simples sobre o valor da moeda da China.

A viagem de Obama, brincaram os jornalistas do jornal, "expulsou os sem-teto de Pequim e trouxe mais censura para a China". "É como se pensassem que ele leria o jornal e ficaria ofendido, provocando alguma comoção internacional", disse o editor. "Como está agora, apenas causaria um bocejo."

*Edward Wong, Jonathan Ansfield e Xiyun Yang contribuíram com reportagem; Li Bibo e Zhang Jing contribuíram com pesquisa.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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