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18/11/2009

Sucessos militares do Paquistão podem influenciar decisão americana sobre tropas

The New York Times
Sabrina Tavernise e Eric Schmitt* Em Sararogha (Paquistão) e Washington (EUA)
A cidade da ventania e da cor de areia, nas terras áridas do oeste do Paquistão, agora está vazia, livre dos militantes que antes a declaravam sua capital. Mas seus prédios de tijolos, intactos e cheios de areia, não narram uma batalha épica, mas uma fuga repentina.

Um mês após as forças armadas paquistanesas terem iniciado seu avanço contra a fortaleza do Taleban no Waziristão do Sul, os militantes parecem ter sido dispersados, não eliminados, com a maioria simplesmente fugindo. Esse padrão recorrente ilustra os problemas que o governo Obama enfrenta ao entrar nos dias finais de uma decisão sobre sua estratégia para o Afeganistão.
  • Tyler Hicks/The New York Times

    Soldado paquistanês patrulha a cidade de Sararogha, onde já não se vê mais militantes talebans

O sucesso nesta região, nas montanhas remotas próximas da fronteira afegã, pode ter um peso direto sobre quantas tropas americanas adicionais devem ser enviadas ao Afeganistão e por quanto tempo permanecerão lá.

O Paquistão tem demonstrado uma disposição cada vez maior de lidar com o problema, lançando operações abrangentes no norte e oeste do país neste ano, mas as autoridades americanas ainda estão pedindo para que faça mais, mais recentemente em uma carta do presidente Barack Obama ao presidente do Paquistão, Asif Ali Zardari, no fim de semana.

Na terça-feira, os militares escoltaram jornalistas em uma visita à área, onde o acesso é restrito, mostrando pilhas de coisas que apreenderam, incluindo armas, bombas, fotos e até mesmo uma peruca com cabelos longos e encaracolados. "Tudo parte daqui", disse o brigadeiro Muhammed Shafiq, o comandante aqui. "Esta é a cidade mais importante no Waziristão do Sul."

Mas um sucesso duradouro tem sido esquivo, temperado por um inimigo ágil e que se move com facilidade de uma parte das áreas tribais para outra - e mesmo até mais profundamente no Paquistão - virtualmente toda vez que é desafiado.

Analistas americanos expressaram surpresa com os combates relativamente leves e com as baixas paquistanesas igualmente leves - sete soldados em cinco dias em Sararogha - apoiando suas suspeitas de que os combatentes do Taleban, da tribo Mehsud local e os combatentes estrangeiros que são seus aliados, incluindo um grande contingente de uzbeques, seguiram para o norte ou penetraram mais profundamente nas montanhas. Em comparação, 51 americanos foram mortos em oito dias de luta em Fallujah, Iraque, em 2004.

"Isso é o que me incomoda", disse um oficial da inteligência americana. "Onde eles estão?" Os militares paquistaneses dizem que aprenderam por meio de fracassos anteriores em uma região na qual perderam centenas de homens em combate antes. Eles passaram semanas bombardeando a área antes da entrada de seus 30 mil soldados. Eles acertaram alianças com as tribos vizinhas.

Mas a campanha não era um segredo, dando tempo para que a população local e os militantes escapassem.
  • Tyler Hicks/The New York Times

    Soldados paquistaneses organizam patrulha por áreas tribais de Jaamat, no Waziristão do Sul



"Eles estão fugindo em todas as direções", disse um alto oficial de segurança paquistanês, que não quis ser identificado enquanto discutia assuntos de segurança nacional. "Os uzbeques estão fugindo para o Afeganistão e para o norte, e os mehsuds estão fugindo para qualquer local possível no qual possam pensar."

Mesmo assim, o fato dos militares agora ocuparem a área é uma espécie de sucesso, disseram analistas, e os oficiais americanos expressaram elogios comedidos à operação paquistanesa até o momento.

"O exército paquistanês se saiu muito bem, aprendendo as lições da campanha em Swat, incluindo o uso de apoio aéreo de seus caças", disse um alto oficial de inteligência americano, se referindo à primeira ofensiva do exército.

Mas ainda restam grandes perguntas: por quanto tempo os militares conseguirão manter o território? E assim que partirem, os militantes simplesmente retornarão?

"Eles estão realmente conquistando as pessoas -esta é a grande pergunta", disse Talat Masood, um analista militar e ex-general em Islamabad, a capital. "Eles enfraqueceram o Taleban taticamente, mas realmente conquistaram a área se as pessoas não estão ao lado deles?"

Conquistá-los não será fácil. A população de maioria pashtun do Waziristão foi repetidamente abandonada pelos militares no passado. As pessoas desta área ainda são profundamente céticas a respeito das intenções do exército.

"As pessoas querem saber: quão sérios os militares serão desta vez?" disse um oficial que pediu para que seu nome não fosse citado, para não minar publicamente a posição oficial.

Os militares argumentam que serão, dizendo que perderam 70 soldados nesta operação até o momento, além dos mais de 1.000 mortos nos últimos anos do conflito.

O general Athar Abbas, principal porta-voz das forças armadas paquistanesas, disse que cerca de 50% do território mehsud agora está sob controle do exército, incluindo a maioria das principais cidades e estradas, e que as forças armadas em breve começariam a penetrar em vilas onde os militantes estão escondidos.

Encontrar um parceiro local confiável será difícil. O Taleban e a Al Qaeda governaram a área empobrecida por tanto tempo que alteraram sua estrutura social, matando centenas de anciãos tribais e dificultando para que militares possam negociar.
  • Tyler Hicks/The New York Times

    Soldados paquistaneses trafegam por uma estrada próxima de Sherwangai, no Waziristão do Sul



As alianças que os militares fecharam com os líderes tribais vizinhos, incluindo Hafiz Gul Bahadur, também podem provar ser problemáticas. O alto oficial de segurança paquistanês disse que Bahadur estava recebendo as famílias de dois altos líderes paquistaneses do Taleban.

Alguns oficiais americanos também expressaram preocupação de que se e quando o exército paquistanês esmagar os mehsuds, ele declarará vitória e fechará mais acordos de paz permanentes com outras facções militantes paquistanesas, em vez de combatê-las e derrotá-las.

"Eles têm um problema imenso e não o resolveram até agora", disse o primeiro oficial de inteligência americano.

Mas os militares paquistaneses argumentam que enquanto outros grupos não atacarem o exército ou o Estado paquistanês, seria tolice atraí-los para a guerra, particularmente porque o Paquistão não está confiante de que os Estados Unidos permanecerão por muito mais tempo na região.

Masood explicou o pensamento. "Vocês estarão a 16 mil quilômetros de distância e nós iremos conviver com eles, logo, como podemos enfrentar cada bandido hostil a vocês?"

E há uma história a superar. Um oficial de inteligência paquistanês apontou para como os americanos abandonaram a região em 1989, após a União Soviética deixar o Afeganistão. "Se partirem às pressas, como fizeram no passado, nós voltaremos aos velhos tempos ruins", disse o oficial. "Nossos jihadistas voltarão ao Afeganistão, reabrirão os campos de treinamento e serão os negócios de costume."

*Ismail Khan, em Peshawar (Paquistão), contribuiu com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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