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20/11/2009

Obama exige que as reformas afegãs produzam resultados

The New York Times
Peter Baker e Mark Landler* Em Washington (EUA) e Cabul (Afeganistão)
O presidente Barack Obama enviou sua mais alta diplomata ao Afeganistão na quarta-feira, para pressionar o presidente Hamid Karzai a apresentar "resultados mensuráveis" na governança e no combate à corrupção, enquanto a Casa Branca prepara novas exigências específicas em acompanhamento ao envio de mais soldados americanos.
  • Presidential Palace/AP

    No gabinete de Obama, não há consenso sobre a estratégia a ser adotada no Afeganistão de Karzai



Em uma visita não anunciada a Cabul, a secretária de Estado, Hillary Rodham Clinton, alertou privativamente Karzai de que a futura ajuda civil dependeria em parte do desempenho de seu governo em áreas como desenvolvimento de um exército eficaz e no combate à corrupção, segundo um funcionário americano. Publicamente, ela disse aos repórteres que Karzai começou a enfrentar a corrupção, "mas ainda é insuficiente".

A viagem, ocorrendo na véspera da posse de Karzai para um segundo mandato após uma eleição caótica, manchada por acusações de fraude desenfreada, representou um esforço mais amplo por parte do governo Obama para vincular o aumento de tropas no Afeganistão a esforços mais eficazes de seus parceiros na região.

A Casa Branca está desenvolvendo "metas claras" para os governos afegão e paquistanês, possivelmente com prazos específicos, como forma de sinalizar que a presença militar americana não durará para sempre, disseram funcionários americanos. Ainda não está claro o que o governo está disposto a fazer caso as metas não sejam cumpridas.

Entre outras coisas, disseram os funcionários, o governo insistirá para que o Afeganistão combata a corrupção, acelere o treinamento e retenção de tropas, e canalize ajuda para desenvolvimento para as áreas dominadas pelo Taleban. Quanto ao Paquistão, disseram os funcionários, a Casa Branca planeja pressionar Islamabad a continuar atuando contra os insurgentes assim como contra a Al Qaeda e, mais importante, perseguir os grupos militantes que até agora não eram combatidos agressivamente.

Mas o estabelecimento de metas no passado - mais recentemente em setembro- não mudou o curso dos eventos na região e não ficou claro quão longe Obama iria na ameaça de consequências caso as metas não sejam cumpridas. A menção por Hillary Clinton de ajuda civil levantou um ponto potencial de pressão. O fato de tropas americanas adicionais ingressarem no Afeganistão em fases, ao longo do próximo ano, fornece outro.

As novas metas são uma forma de reforçar a ideia de que o governo não enviará simplesmente mais tropas ao Afeganistão incondicionalmente e de que ele prevê o início da retirada, após transferir a responsabilidade pelos combates ao governo de Cabul. Em comentários públicos recentes, Obama tem alertado cada vez mais que seu "compromisso não possui final aberto".

A mensagem foi destinada a três públicos, disseram funcionários. O primeiro é o povo afegão, visando rebater a caracterização pelo Taleban das forças americanas como ocupadores. O segundo é o governo afegão, que está sendo pressionado a agir. E o terceiro é o povo americano, que está cada vez mais incomodado com a guerra que já dura oito anos.

"A tarefa aqui é assegurar que o Afeganistão esteja suficientemente estável para que possamos realizar essa transferência", disse Obama para a "NBC News" durante sua viagem à Ásia. "Minha meta é exatamente o que você descreveu - criar uma situação na qual nossa pegada seja menor e as forças de segurança afegãs possam realizar o trabalho de manter o país unido. Elas ainda não são capazes. Elas precisam de nossa ajuda."

Obama disse à "CNN" que estava "muito próximo da decisão" de quantos soldados adicionais enviar e que fará o anúncio "nas próximas semanas". Ele sugeriu que gostaria de reduzir o envolvimento militar americano no Afeganistão antes de deixar o cargo. "Minha preferência é de não transferir nada para o próximo presidente", ele disse.

Obama já enviou 21 mil soldados adicionais ao Afeganistão desde que tomou posse, elevando o total da força americana para 68 mil. Após mais de dois meses repensando a estratégia, ele decidiu enviar ainda mais e está estudando quanto.

Várias pessoas informadas sobre as deliberações do governo, que como outros insistiram no anonimato para discuti-las, disseram na quarta-feira que os conselheiros do presidente vinham testando a reação a um aumento de 20 mil a 25 mil soldados, alertando ao mesmo tempo que nenhuma decisão tinha sido tomada.

Funcionários da Casa Branca disseram que após retornar da Ásia, Obama se encontrará com sua equipe de segurança nacional na sexta-feira ou no fim de semana, a 9ª sessão do gênero, mas eles indicaram que é improvável que algum anúncio seja feito antes do feriado de Ação de Graças. Um alto assessor do Senado disse que os legisladores preveem uma decisão a tempo a para realização de audiências, durante a semana de 30 de novembro.

Em Cabul, Karzai iniciou um segundo mandato na quinta-feira como líder marcado por uma eleição manchada, relações estremecidas com os aliados e um retrospecto de administração ineficaz e corrupção. Sua posse neste momento chave, oito anos após os americanos iniciarem a guerra afegã, levanta a pergunta sobre se o povo afegão ou as autoridades americanas podem esperar algo melhor dele nos próximos cinco anos.

Enquanto Obama aumenta a pressão, Karzai parece pego entre imperativos concorrentes: o Ocidente, aqueles que o apoiam e seus instintos de lealdade à tribo e família. Enquanto muitos pedem para que ele afaste as pessoas acusadas de corrupção, alguns daqueles que ele está sendo pressionado a substituir são os próprios aliados que o ajudaram a se reeleger, e não está claro se ele estará disposto a substituir um número suficiente de pessoas para aplacar seus críticos - ou, caso o faça, se seu governo conseguirá sobreviver.

Raio-X do Afeganistão

  • UOL Arte


    Área: 652.230 km² (sem saída para o mar)

    População: 33 milhões

    Urbanização: 24% da população é urbana

    Taxa de fertilidade: 6,5 crianças nascidas por mulher (4º maior do mundo)

    Mortalidade infantil: 151 mortes por 1000 nascimentos (3º maior do mundo)

    Expectativa de vida ao nascer: 44,5 anos

    Grupos étnicos: pashtun (42%), tajik (27%), hazara (9%), usbeque (9%) e outros

    Religião: sunitas (80%), xiitas (19%), outros

    Alfabetização: homens, 43%; mulheres, 12%

    Taxa de desemprego: 40%

    Fonte: CIA World Factbook 2009



"Se Karzai remover todas as pessoas que o apoiaram na eleição, os senhores da guerra, e não contar com o apoio da comunidade internacional, então ele poderá perder ambos os lados", disse Muhammad Noor Akbary, um membro do Parlamento que trabalhou na campanha de Karzai. "Ele precisa ter alguns aliados."

Muitos daqueles que apoiam Karzai acusam seus críticos no Ocidente de hipocrisia, notando que eles ajudaram a colocá-lo no poder. E mesmo algumas pessoas dentro de seu próprio círculo o estão pressionando para limpar a casa, reconhecendo que a corrupção disseminada e o fracasso em fornecer serviços estão levando os afegãos a recorrerem ao Taleban e outros grupos insurgentes.

"Nós estamos pedindo para que façam grande parte do que já disseram, incluindo a criação de uma entidade governamental anticorrupção crível", disse Hillary Clinton aos repórteres que viajavam com ela. "Eles trabalharam um pouco nisso, mas no nosso entender, não o suficiente para demonstrar uma seriedade de propósito de combate à corrupção."

Durante sua conversa privada de 90 minutos com Karzai, que durou muito mais do que o previsto, Hillary Clinton pressionou por ações específicas, como um aumento das inspeções aos programas de ajuda humanitária americanos e certificação dos ministros afegãos, para assegurar que não desviem dinheiro, disse um funcionário americano. Ela também pressionou Karzai a realizar nomeações baseadas em mérito para altos cargos do governo e assumir um maior papel pessoal no desenvolvimento de um exército e força policial independentes.

O general James L. Jones, o conselheiro de segurança nacional do presidente, fez uma viagem semelhante ao Paquistão no final da semana passada, onde pressionou o governo a fazer mais. Qualquer nova lista de metas para o Paquistão incluiria uma ação contra a rede militante Haqqani ao longo da fronteira afegã e contra a shura, ou conselho, do Taleban na cidade de Quetta, no sul, que o governo tem relutado em enfrentar, disse um funcionário americano. O governo também quer expandir as operações com aeronaves não-tripuladas no norte, em Chitral e mais profundamente em Bajaur, e em partes do Baluquistão, no sul, disse o funcionário.

Ainda não foi decidido se prazos serão aplicados a algumas dessas exigências, disseram as autoridades. Prazos foram estabelecidos para algumas metas, como o treinamento de mais soldados afegãos, e provavelmente serão acelerados. Mas apesar da Casa Branca estar preparando uma estratégia de saída, Obama aparentemente não estabelecerá um prazo geral para o início da retirada das tropas americanas, como defendeu para o Iraque.

"A intenção aqui é estabelecer metas muito concretas que poderemos usar como base para pressionar pelo sucesso", disse um funcionário do governo. "Não visa ser uma ameaça em si, mas uma declaração de realidade. Não se trata de um poço sem fundo."

*Alissa J. Rubin, em Cabul; Eric Schmitt, David E. Sanger e Elisabeth Bumiller, em Washington; e Helene Cooper, em Seul, Coreia do Sul, contribuíram com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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