UOL Notícias Internacional
 

22/11/2009

Depois do terremoto em Aquila, em busca de pastagens mais verdes

The New York Times
Rachel Donadio
Em L'Aquila (Itália)
Numa tarde recente de outono, meio ano depois que um terremoto devastador aconteceu aqui, um pequeno rebanho de ovelhas e cabras abriu caminho através do centro fantasmagórico e destruído desta antiga cidade no alto das montanhas.

Trotando a passo apertado, com os sinos em volta de seus pescoços tocando alegremente, os animais estavam a maioria numa só fila, enquanto motoristas curiosos tentavam passar, forçando seus carros à frente do rebanho de um jeito tipicamente italiano.

Um jovem casal num carro pequeno sorriu calorosamente e gritou: "Boa viagem!" enquanto uma van de carabinieri (força policial italiana) irritados buzinava impacientemente, com um deles gritando: "Movam essas ovelhas já!"

O rebanho foi organizado, se é que se pode dizer isso, pelo Tracturo 3000, um pequeno grupo de ativistas locais, amantes dos animais e sonhadores, para celebrar uma antiga tradução da região montanhosa de Abruzzo: a migração anual dos rebanhos, dos pastos de verão nos Montes Apeninos centrais para as pastagens de inverno a leste, na região de Puglia, no Adriático.
  • Nadia Cohen/The New York Times


Neste outono, a tradição teve uma repercussão ainda maior, uma vez que o rebanho passou pelas áreas mais atingidas pelo terremoto de 6 de abril, que matou quase 300 pessoas e destruiu ou danificou seriamente milhares de casas e prédios, em geral precariamente construídos.

Até a 2ª Guerra Mundial, Abruzzo era em grande parte rural. Agricultores arrendatários trabalhavam no terreno rochoso durante os verões quentes e invernos punitivos. Muitos emigraram para escapar da extrema pobreza e de um terremoto que matou milhares de pessoas em 1915.

Durante séculos, os pastores fizeram a jornada com seus rebanhos até que os caminhões passaram a ser usados nos anos 50. Alimentados pela nostalgia e um profundo sentimento de regionalismo, o Tracturo 3000 fez o trajeto a pé durante os últimos três anos, emprestando rebanhos de pastores locais ao longo do caminho.

Usando mapas antigos e procurando rastros na paisagem, eles mapearam 240 quilômetros de caminhos de L'Aquila até Foggia, na região de Puglia. O Estado italiano se apropriou dos caminhos, que ficavam em terras que antes pertenciam a um rei, e com frequência construiu ferrovias ao longo deles.

O Tracturo 3000 imagina a criação de um caminho formal, similar à rede de rotas de peregrinação que levam à catedral de Santiago de Compostela na Espanha, onde a lenda diz que está o túmulo de São Tiago, e onde os turistas podem parar em hospedarias e tavernas rústicas ao longo do caminho.

"Nosso objetivo é obter o reconhecimento da Unesco", disse Pierluigi Imperiale, veterinário e nativo de L'Aquila que fundou o Tracturo 3000. Os caminhos pertencem à herança da humanidade, ele acrescentou, enquanto deixava o rebanho passar por entre macieiras - e muitas casas destruídas.

Imperiale e outros creem que preserver o passado agrícola da região é a chave para seu futuro. A ideia pode não ser tão implausível. Numa entrevista no verão passado, Guido Bertolaso, chefe do serviço de Proteção Civil da Itália, disse acreditar que o turismo é essencial para a revitalização da região.

O primeiro-ministro Silvio Berlusconi fez repetidas visitas à região e apostou boa parte da imagem de seu governo no esforço de reconstrução.

O governo construiu centenas de novos apartamentos num tempo recorde em comparação às respostas a desastres naturais anteriores na Itália. Hoje, 5.400 pessoas vivem nas novas moradias; em janeiro esse número deve aumentar para 17 mil, de acordo com a Agência de Proteção Civil.

Mesmo assim, os problemas são muito mais profundos. O terremoto destruiu a economia da região. Milhares de empresas estão fechadas. Quase um quarto dos 80 mil moradores de L'Aquila recebem seguro desemprego do governo, dizem as autoridades, com mais de 20 mil habitantes espalhados pela região em moradias provisórias, entre eles 13 mil em hotéis e 8 mil em casas na costa Adriática. Alguns vivem em suas próprias casas de veraneio.

A Universidade de L'Aquila, um pilar da economia local, reabriu em grande parte, mas seus 28 mil alunos perderam a cidade universitária. Sem centro histórico ou base econômica, especialistas alertam para uma despopulação radical. "Estou lutando para evitar que as pessoas deixem L'Aquila definitivamente", disse Stefania Pezzopane, presidente da província de Abruzzo.

Em pior situação estão quase 800 pessoas que continuam morando em acomodações emergenciais. No outono, as ovelhas e os caminhantes passaram por um acampamento no centro de L'Aquila. Um grupo de adolescentes com piercings no rosto se aproximou e observou o rebanho através de uma cerca de arame. "Também queremos ir!", disseram.
  • Nadia Cohen/The New York Times


Passando pelas tendas azuis, a estrada leva à Basílica de Santa Maria de Collemaggio, do século 14, que foi seriamente danificada, cercada por andaimes e coberta com panos com uma foto de sua fachada de rosáceas. Por centenas de anos, os clérigos abençoaram os pastores e rebanhos antes da travessia para as pastagens de inverno.

A basílica é um dos 45 monumentos para os quais o governo italiano está levantando dinheiro para ajudar a recuperar, muitos no centro histórico de L'Aquila, cujas incontáveis ruínas são guardadas pela polícia e fechadas para o público. Como restaurar a cidade que já foi pitoresca é um tópico de intenso debate, e os especialistas estimam que levará anos para decidir como proceder.

"O que nós perdemos foi a beleza do centro histórico", disse Imperiale enquanto caminhava com o rebanho, com um bastão nas mãos.

"Não estamos irritados com o governo, estamos esperando", acrescentou. "Nós de Abruzzo somos pacientes, mas também somos muito fortes."

Enquanto o sol começava a se por e um pedaço de lua levantava no céu atrás dos Apeninos, o rebanho passou pelo vilarejo de Bazzano, com seus complexos de apartamento recém-construídos, antes de ir descansar no vilarejo de Onna, que perdeu 40 e seus 350 moradores no terremoto e cujo pequeno centro ainda está em ruínas.

A tarde havia caído, e as ovelhas foram guiadas ao pasto. Elas abriram caminho entre ruas recém-construídas, cercadas de casas novas de madeira e uma escola, diferente de qualquer bairro norte-americano: moradias semi-permanentes para os sobreviventes do terremoto em Onna.

Os caminhantes pararam diante de uma árvore velha e nodosa. Uma Virgem dourada estava em sua base, brilhando sob as novas luzes das ruas. No dia do terremoto, a árvore havia se tornado um velório improvisado, com caixões colocados sob sua copa.

E lá ela ficou entre os pastos. Hoje ela está entre as novas casas de madeira. Uma placa com os nomes dos mortos de Onna foi colocada em sua base.

As novas casas são aconchegantes, porém anônimas, dizem os moradores. Roupas penduradas do lado de fora de algumas, e gerânios em algumas janelas, mostram alguns sinais de normalidade.

"As pessoas estão fora das barracas e vivendo em casas agora", disse Marzia Masiello, porta-voz da comunidade de Onna e membro fundadora da Tracturo 3000, em pé do lado de fora de sua pequena casa de um quarto. "Mas só agora que nós realmente começamos a sentir o que perdemos."

Jessica Donati contribuiu com a reportagem em Roma

Tradução: Eloise De Vylder

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    10h49

    -0,23
    3,128
    Outras moedas
  • Bovespa

    10h54

    -0,26
    75.789,84
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host