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23/11/2009

Com visita de Ahmadinejad, Lula dá "cotovelada" na diplomacia americana

The New York Times
Alexei Barrionuevo Em Brasília
As ambições do Brasil para se tornar um ator mais importante na diplomacia global está atropelando os esforços dos Estados Unidos e de outras potências ocidentais para frear o programa de armas nucleares do Irã.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebe hoje (23) o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad. O encontro faz parte de um esforço maior de Lula para entrar no quase intratável mundo da política do Oriente Médio, e dá sequência às visitas do presidente de Israel, Shimon Peres, e da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas. nas duas últimas semanas.

Saiba mais sobre o Irã

  • Reprodução/CIA

    A bandeira do Irã é formada por três faixas de mesma largura, uma verde, uma branca e uma vermelha. O emblema nacional - a palavra Allah (deus) com uma caligrafia em forma de tulipa - é estampado ao centro da bandeira, na faixa branca, em vermelho. A expressão Allah Akbar (deus é grande), escrita em branco, é repetida 11 vezes na parte superior da faixa vermelha e 11 vezes na parte inferior da faixa verde

  • Arte UOL


    Forma de governo: República teocrática islâmica

    Área: 1.648.195 km²

    População: 66.429.284

    Religião: muçulmanos (98%: 89% xiitas e 9% sunitas), e outros

    Idiomas: persa e dialetos persas (58%), turco e dialetos turcos (26%), curdo (9%), e outros

    Recursos naturais: Petróleo, gás, carvão, cobre, ferro

    Exportação: principalmente petróleo e derivados, frutas e tapetes, vendidos para China, Japão, Índia, Coreia do Sul, Turquia e Itália

    Importação: bens de consumo, bens de capital, alimentos e serviços, comprados dos Emirados Árabes Unidos, China, Alemanha, Coreia do Sul, Itália, França, Rússia


Mas a visita gera críticas de legisladores e ex-diplomatas tanto no Brasil quanto nos EUA, que dizem que ela pode atrapalhar os esforços ocidentais para pressionar o Irã sobre seu programa nuclear, e consequentemente esfriar as relações entre Brasília e Washington e arranhar a crescente reputação brasileira como poder global.

Representantes do governo brasileiro dizem que o objetivo da visita é estreitar as relações comerciais entre os dois países e ajudar a levar a paz ao Oriente Médio.

"Isso faz parte de uma tentativa do Brasil de projetar seu papel e sua força como ator global", disse Michael Shifter, presidente do Inter-American Dialogue, um grupo de pesquisa política com sede em Washington. "E, em parte, o Brasil está mandando uma mensagem a Washington de que o país vai se relacionar com quem bem entender."

Além do impasse nuclear, os críticos dizem que a recepção de Lula legitima Ahmadinejad cinco meses depois do que a maior parte do mundo vê como uma reeleição fraudulenta, seguida de uma repressão brutal às dissidências.

"Esta visita oficial é um erro grotesco, uma falha terrível", disse o deputado Eliot L. Engel, do Estado de Nova York, presidente da subcomissão da Câmara Federal americana para o Hemisfério Ocidental. "Ele é ilegítimo entre seu próprio povo, e o Brasil vai agora dar a ele o ar de legitimidade em um momento em que o mundo está tentando descobrir como evitar que o Irã tenha armas nucleares. Não faz sentido para mim, e, francamente, mancha a imagem do Brasil."

As relações entre EUA e Brasil já estavam tensas depois que o governo Lula criticou a atuação dos EUA na crise de Honduras e o aumento da presença militar americana na Colômbia.

Apesar do criticismo, a abertura de Lula ao Irã é consistente com a política de engajamento de Barack Obama, e a Casa Branca diz que está otimista de que o encontro não irá prejudicar, e poderá até reforçar, os esforços já empenhados por Washington e potências europeias para lidar com o Irã.

"Nós gostaríamos que todos os nossos amigos e aliados entendessem que este é um momento realmente crítico para o próprio Irã", disse Ian C. Kelly, porta-voz do Departamento de Estado americano, na última quinta-feira (19). "Nós esperamos que o Brasil possa desempenhar um papel construtivo na tentativa de fazer com que o Irã tome a decisão certa e satisfaça suas obrigações internacionais."

O ministro brasileiro das Relações Exteriores, Celso Amorim, disse que Lula foi encorajado por líderes ocidentais, inclusive Obama, a procurar um "diálogo direto e aberto" com o Irã, em particular no que diz respeito à questão nuclear.

"Já foi dito e reiterado que era do interesse das Nações Ocidentais que o Brasil tivesse um bom relacionamento com o Irã", afirmou Amorim em uma entrevista.

Representantes do governo dizem que Lula tentará convencer o Irã dos benefícios de um programa nuclear como o do Brasil, que é constitucionalmente restrito ao uso civil.

As polêmicas de Mahmoud Ahmadinejad

  • AP

    Antes de sua surpreendente vitória nas eleições presidenciais de 2005, Mahmoud Ahmadinejad foi prefeito da capital Teerã.

    Filho de um ferreiro, mudou-se do norte do Irã para a capital com sua família durante a infância; mais tarde, doutorou-se em engenharia civil.

    Durante a corrida eleitoral de quatro anos atrás, Ahmadinejad prometeu dedicar aos pobres o dinheiro que o país consegue com o petróleo, mas durante seu governo o país encontrou graves problemas econômicos, em parte devido a sanções internacionais.

    Ahmadinejad, 52, casado, pai de três filhos, ficou conhecido por seus comentários polêmicos, entre os quais a negação do Holocausto, o desejo de "tirar Israel do mapa" e declarações homofóbicas.

    Ele reivindica o direito de enriquecer urânio no Irã para gerar energia elétrica, um programa que Israel e os Estados Unidos acusam de ter fins bélicos.

    Foi reeleito em 12 de junho deste ano para seu segundo mandato presidencial, com quase 63% dos votos.



No entanto, Amorim deixou claro que o Brasil não considera ser seu papel insistir no acordo proposto ao Irã para processar a maior parte de seu urânio enriquecido em combustível nuclear no exterior. "Não estamos aqui para convencer o Irã a aceitar qualquer proposta", disse o ministro. "O Brasil está interessado na paz."

Desde sua eleição em 2002, Lula procura cimentar a liderança do Brasil na economia e diplomacia da América Latina, usando seu poder econômico para criar um perfil brasileiro de política externa. Seu governo também já fez lobby por um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) e se tornou uma voz respeitada nas discussões sobre mudança climática. Nos últimos meses, ele acrescentou a diplomacia do Oriente Médio ao portfólio.

O Brasil não é nenhum estranho na região. A Petrobras está ajudando o Irã a desenvolver seus campos de petróleo e o comércio entre os dois países chegou a US$ 2 bilhões em 2007, a maior parte em exportações de comida ao Irã, segundo Amorim.

O país se juntou às missões de paz da ONU no Egito após a crise do canal de Suez em 1956 e tem se envolvido com o Oriente Médio desde então, explicou David Fleischer, professor de ciência política da UnB (Universidade de Brasília).

"O Brasil começa a perceber o peso que tem", disse Amorim. "Não foi o Brasil que foi atrás do Oriente Médio; o Oriente Médio é que procurou o Brasil."

Representantes afirmam que o Santo Graal da iniciativa de Lula para o Oriente Médio é melhorar as relações entre Israel e os palestinos, e eles veem o Irã como um ator chave para resolver o conflito. Sucesso nesta iniciativa "colocaria o Brasil de vez no mapa e poderia pôr Lula na disputa por um prêmio Nobel", disse Fleischer.

No entanto, seria difícil escolher uma missão mais formidável ou polarizadora. Muitos críticos não veem Ahmadinejad - que já negou o Holocausto, sugeriu que Israel fosse apagado do mapa e apoia milícias anti-israelenses - como uma força construtiva no Oriente Médio.

Mais de 1.500 pessoas protestaram contra sua visita neste mês em São Paulo, lar da maior comunidade judaica no Brasil, e um protesto menor ocorreu domingo (22) no Rio de Janeiro. Outro estava marcado em Brasília nesta segunda.

Não são só os israelenses que não confiam em Ahmadinejad. O líder palestino Abbas disse após reunião com Lula na sexta-feira que pediu ao presidente brasileiro para insistir com o Irã que pare de apoiar o Hamas, o movimento radical islâmico que controla Gaza.

Mas tanto Abbas quanto Peres pediram a Lula para se juntar ao processo de paz no Oriente Médio. "O Brasil, como um país importante, e o presidente Lula, como um líder respeitado, podem desempenhar um importante papel", disse Abbas à Folha de S. Paulo.

Alguns analistas políticos e representantes do governo americano dizem que, em seus esforços de polir suas credenciais como estadista, Lula marcha ao som dos próprios tambores em vez de cooperar com seus aliados para atingir objetivos maiores.

"Conforme o Brasil se torna mais relevante na questão climática e nos fóruns mundiais econômicos, ele não poderá criticar ou antagonizar tão abertamente outras potências sem pagar um preço político por isso", disse Christopher Garman, analista do Eurasia Group, uma consultoria de risco político em Nova York.

Em compensação, um sucesso diplomático seria um bom motivo para calar as críticas.

"O Brasil com certeza deve esperar críticas por receber Ahmadinejad", disse Julia E. Sweig, especialista em América Latina do Conselho de Relações Exteriores. "Mas se conseguir fazer o papel de moderador - e claramente é o que Washington quer - na questão nuclear, o país certamente conseguirá lidar com elas."

Tradução: Silvana Salles

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