UOL Notícias Internacional
 

23/11/2009

E-mails hackeados de cientistas do clima provocam polêmica

The New York Times
Andrew C. Revkin
Centenas de mensagens de e-mail e documentos particulares hackeados do servidor de uma universidade britânica estão causando polêmica entre os céticos do aquecimento global, que dizem que as informações mostram que os cientistas do clima conspiraram para exagerar o problema da influência humana na mudança climática.

As mensagens de e-mail, atribuídas a importantes pesquisadores do clima norte-americanos e britânicos, incluem discussões sobre dados científicos e se estes deveriam ser revelados, debates sobre como melhor combater os argumentos dos céticos, e comentários casuais - em alguns casos debochados - sobre determinadas pessoas conhecidas por suas visões céticas. Rascunhos de artigos científicos e uma colagem de fotos que mostra os céticos em relação ao clima sobre um pedaço de gelo também estavam entre os dados hackeados, alguns dos quais datam de até 13 anos atrás.

Em ma troca de e-mails, um cientista escreve sobre usar um "truque" estatístico em um gráfico para ilustrar uma drástica tendência recente de aquecimento. Em outra, um cientista refere-se aos céticos em relação ao clima como "idiotas". Alguns céticos afirmaram na última sexta-feira que a correspondência revelava um esforço para impedir a divulgação da informação científica.

"Isso não é uma prova indiscutível, é uma nuvem explosiva", disse Patrick J. Michaels, climatologista que há tempos questiona as provas da influência humana no aquecimento global e é criticado nos documentos.

Parte da correspondência mostra que os cientistas estão se sentindo cercados pelo campo dos céticos e se preocupam que qualquer comentário aleatório ou dado aberrante possa se voltar contra eles. Mas as provas que apontam para uma crescente contribuição humana para o aquecimento global são tão amplamente aceitas que é improvável que o material hackeado possa derrubar o argumento como um todo. Entretanto, os documentos sem dúvida levantarão questões sobre a qualidade da pesquisa em alguns temas específicos e as ações de alguns cientistas.

Em várias trocas de e-mail, Kevin Trenberth, climatologista do Centro Nacional para Pesquisa Atmosférica, e outros cientistas discutiram se uma sequência de temperaturas relativamente estáveis nos últimos anos podem minar os modelos científicos para prever o aquecimento de longo prazo.

"O fato é que não podemos explicar a falta de aquecimento no momento e é cômico que não possamos", escreveu Trenbeth.

Outros cientistas tentaram refutar suas ideias, dizendo que as flutuações não eram inconsistentes com uma tendência contínua de aquecimento.

As mensagens de e-mail também incluem referências a jornalistas, incluindo este repórter, e perguntas de jornalistas relacionadas a artigos que estavam escrevendo.

Funcionários da Universidade de East Anglia confirmaram em uma declaração na sexta-feira que os arquivos foram roubados de um servidor da universidade e que a polícia havia sido chamada para investigar o vazamento. Eles acrescentaram, entretanto, que não poderiam confirmar que todo o material circulando na internet era autêntico.

Mas vários cientistas e outras pessoas contatadas pelo "The New York Times" confirmaram que foram os autores ou receptores de mensagens de e-mail específicas que foram hackeadas.

As revelações podem inflamar o debate público à medida que centenas de negociadores se preparam para discutir um acordo internacional sobre o clima nos encontros em Copenhague no mês que vem, e pelo menos um cientista especulou que não era coincidência esses arquivos serem roubados neste momento.

Trenberth disse na sexta-feira que ficou alarmado com a divulgação das mensagens de e-mail, que segundo ele eram discussões particulares.

Mas ele acredita que as revelações podem ser um tiro pela culatra para os céticos quanto ao clima. De qualquer forma, ele acredita que as mensagens mostram "a integridade dos cientistas".

Ainda assim, alguns dos comentários podem fazer que eles mesmos sejam considerados desonestos.

Em uma troca de e-mails de 1999 sobre gráficos que mostravam padrões climáticos dos dois últimos milênios, Phil Jones, um pesquisador climático da East Angia Climate Research Unit, disse que havia usado um "truque" já empregado por outro cientista, Michael Mann, para "esconder uma queda" nas temperaturas.

Mann, professor da Universidade do Estado da Pensilvânia, confirmou em uma entrevista que a mensagem de e-mail era real. Ele disse que a escolha de palavras por seus colegas foi ruim, mas observou que os cientistas com frequência usam a palavra "truque" para se referir a uma boa forma de resolver um problema, "e não a algo secreto".

A questão dizia respeito a dois conjuntos de dados, empregados em dois estudos. Um conjunto de dados mostrou os efeitos de longo prazo das temperaturas nos anéis das árvores, e o outro, leituras de termômetro durante os últimos 100 anos.

Durante o século passado, os anéis das árvores e os termômetros mostram um aumento consistente na temperatura até 1960, quando os anéis das árvores, por razões desconhecidas, deixaram de mostrar este aumento enquanto os termômetros continuaram a fazê-lo.

Mann explicou que a confiabilidade dos dados dos anéis das árvores foi colocada em dúvida, então eles não os utilizam mais para acompanhar as flutuações da temperatura. Mas ele disse que abandonar o uso dos anéis das árvores nunca foi uma decisão velada, e está na literatura científica há mais de uma década.

"Isso soa incriminador, mas quando você examina a questão sobre a qual está falando, não há nada demais", disse Mann.

Em uma mensagem de e-mail, Jones recusou-se a ser entrevistado e enviou uma cópia da declaração da universidade.

Stephen McIntyer, um blogueiro que há anos usa seu site (climateaudit.org) para desafiar os dados usados para elaborar os padrões climáticos, criticou duramente algumas mensagens de e-mail, chamou as revelações de "bastante surpreendentes".

Mas vários cientistas cujos nomes aparecem repetidamente nas mensagens de e-mail disseram que elas meramente revelam que os cientistas são seres humanos, e não fizeram nada para reduzir o corpo da pesquisa sobre o aquecimento global.

"A ciência não funciona porque todos nós somos legais", disse Gavin A. Schmidt, climatologista da Nasa cuja troca de e-mails com colegas sobre uma variedade de estudos climáticos recentes estão entre os documentos hackeados. "Mesmo que Newton fosse um idiota, a teoria da gravidade ainda funcionaria."

Ele disse que a quebra de sigilo na Universidade de East Anglia foi descoberta depois que hackers que tinham conseguido acesso à correspondência tentaram invadir na quinta-feira um outro servidor, do realclimate.org, um blog não relacionado à Nasa que é feito por vários outros cientistas que tratam do aquecimento global.

Os intrusos queriam criar um "post" falso e publicar todo o conjunto de arquivos da Inglaterra - quase 200 megabytes de dados.

A tentativa foi impedida, disse Schmidt, e os cientistas imediatamente notificaram colegas da Unidade de Pesquisa Climática da Universidade de East Anglia. Quase todo o material dos arquivos hackeados, que rapidamente se espalhou para vários servidores, era originário de cientistas climáticos da escola ou havia sido enviado para eles.

Os primeiros posts que revelaram detalhes dos arquivos apareceram na quinta-feira no "The Air Vent", um site dedicado a argumentos dos céticos. Leitores deste e de outros sites começaram a publicar trechos que eles acreditavam que ilustravam a desonestidade ou parcialidade científica.

Segundo Michaels, o climatologista que questionou parte dos dados que apoiam o consenso de aquecimento global, seu primeiro instinto foi ignorar as correspondências como sendo "apenas a forma como os cientistas falam".

Mas na sexta-feira, ele disse que, depois de ler mais atentamente, sentiu que algumas trocas de mensagens refletiam um esforço arquitetado para impedir a divulgação de dados para análises independentes.

Ele disse que algumas mensagens de e-mail imaginavam uma forma de acabar com sua credibilidade ao desafiar a veracidade de sua dissertação de doutorado na Universidade de Wisconsin ou alegar que ele sabia que sua pesquisa estava errada.

"Isso mostra que são pessoas dispostas a quebrar regras e perseguir a reputação dos outros de formas muito graves", disse ele.

Spencer R. Weart, físico e historiador que está mapeando o curso da pesquisa sobre o aquecimento global, disse que o material hackeado indubitavelmente revelaria algumas coisas desagradáveis, mas seria um "ótimo material para os historiadores".

Tradução: Eloise De Vylder

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