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23/11/2009

EUA temem que sua ajuda para reconstruir o Iraque seja desperdiçada

The New York Times
Timothy Williams Em Bagdá
Em seu maior esforço de reconstrução desde o Plano Marshall, o governo dos EUA gastou US$ 53 bilhões (R$ 91,8 bilhões) no Iraque desde a invasão em 2003, construindo hospitais, estações de tratamento de água, subestações de energia elétrica, escolas e pontes.

Mas há uma preocupação cada vez maior por parte de funcionários norte-americanos de que o Iraque não seja capaz de manter adequadamente essas instalações depois que os EUA saírem, desperdiçando potencialmente milhões de dólares e prejudicando a capacidade de o país fornecer serviços básicos para sua população.
  • AP - 17.out.2009

    Forças de segurança do Iraque avaliam estrago feito por um caminhão-bomba em ponte de Ramadi, a 115 quilômetros de Bagdá. Há uma preocupação cada vez maior por parte de funcionários norte-americanos de que o Iraque não seja capaz de manter adequadamente suas instalações depois que os EUA saírem, desperdiçando potencialmente milhões de dólares e prejudicando a capacidade de o país fornecer serviços básicos para a população



Os projetos são de todos os tipos - desde uma inovadora estação de tratamento de água de US$ 270 milhões (R$ 467 milhões) em Nasiriya, que funciona a uma fração de sua capacidade total porque é muito sofisticada para os trabalhadores iraquianos operarem, passando por um mercado para produtores agrícolas em que os mesmos não foram capazes de decidir como dividir o espaço, até um grande hospital fechado logo depois de ter sido entregue porque o governo não foi capaz de fornecer equipamentos, equipe médica ou eletricidade.

A preocupação quanto à sustentabilidade dos projetos surge à medida que o Iraque se prepara para eleições nacionais cruciais em janeiro e à medida que a reconstrução emerge como um imperativo político no país, sobrepujando a segurança em algumas partes como principal preocupação de um eleitorado frustrado com a falta de progresso social, econômico e político. As forças dos EUA devem começar a se retirar em grande número no ano que vem.

Em centenas de casos durante os últimos dois anos, o governo iraquiano recusou ou postergou a transferência dos projetos realizados pelos EUA porque não foi capaz de fornecer pessoal capacitado para geri-los, dizem funcionários do governo iraquiano e norte-americano.

Outros projetos, incluindo hospitais, escolas e prisões construídas com fundos dos EUA, continuaram vazios muito tempo depois de sua conclusão porque não havia iraquianos suficientemente treinados para tocá-los.

"À medida que projetos de construção de grande escala foram concluídos - estações de energia, sistemas de tratamento de água e indústrias de petróleo -, cresceu a preocupação quanto à habilidade dos iraquianos para mantê-los e como será financiado seu funcionamento quando eles forem entregues às autoridades iraquianas", informou uma análise recente preparada pelo Serviço de Pesquisa do Congresso.

O escritório de Responsabilidade do governo e o inspetor-geral para a reconstrução do Iraque também divulgaram relatórios nos últimos meses sobre o potencial fracasso dos projetos financiados pelos EUA uma vez que estes forem transferidos para o Iraque.

Stuart W. Bowen Jr., inspetor-geral para a reconstrução do Iraque, disse que sua agência havia "regularmente levantado questões sobre o potencial desperdício de dinheiro dos contribuintes norte-americanos resultante dos projetos de reconstrução que foram mal planejados, mal transferidos, ou insuficientemente sustentados pelo governo iraquiano".

A culpa é de ambos os países, dizem os oficiais. Enquanto o Iraque tem sido frequentemente culpado pelo mau gerenciamento, as autoridades norte-americanas falharam repetidamente em perguntar aos iraquianos que tipo de projetos eles precisavam e não deram seguimento ao treinamento adequado. E quer os centros de saúde e estações de energia construídas pelos EUA sejam ou não utilizados como o previsto, as companhias dos EUA que ficaram com a maior parte dos contratos de reconstrução do governo federal foram pagas.

O governo iraquiano, pressionado por autoridades norte-americanas, prometeu começar a gastar mais de seu próprio dinheiro na reconstrução, mas o país está enfrentando um déficit orçamentário substancial por causa da queda nos preços internacionais do petróleo.

O primeiro-ministro Nouri Kamal al-Maliki insistiu que a reconstrução é a próxima tarefa. O que não está claro é de onde virão os US$ 400 bilhões (R$ 693 bilhões) que o governo diz que precisa.

"Usaremos os rendimentos que temos com o petróleo, mas o governo sente que precisa fazer mais do que isso para reconstruir o país", disse Ali al-Alak, conselheiro de al-Maliki.

No meio tempo, os norte-americanos - especialistas civis e militares em reconstrução - continuam a deixar o país em grandes números, levando com eles seu dinheiro, equipamento e conhecimento.

Apesar dos US$ 53 bilhões (R$ 91,8 bilhões) gastos pelos Estados Unidos, muitos iraquianos consideram o esforço de reconstrução um desperdício. Ali Ghalib Baban, ministro iraquiano do planejamento, disse que ele não teve um impacto discernível. "Talvez eles tenham investido", disse, "mas o Iraque não percebe".

Os iraquianos, para quem os edifícios bombardeados são parte corriqueira da vida urbana, também dizem que viram poucas provas da reconstrução.

"Onde está a reconstrução?", perguntou Sahar Kadhum, morador de Kut, a cerca de 160 quilômetros a sudeste de Bagdá. "A cidade está descansando sobre montanhas de lixo."

De fato, apesar dos bilhões em fundos norte-americanos, mais de 40% dos iraquianos ainda não têm acesso à água limpa, de acordo com o governo do país. Dos 180 hospitais iraquianos, 90% não têm suprimentos médicos e cirúrgicos básicos, de acordo com a organização de ajuda Oxfam. Os iraquianos também têm taxas desproporcionalmente altas de mortalidade infantil, paralisia cerebral e câncer.

Exacerbando o problema, funcionários iraquianos e norte-americanos dizem que centenas de milhares de profissionais iraquianos fugiram ou foram mortos durante a guerra, deixando para trás uma população com muitos poucos médicos, enfermeiras, engenheiros, cientistas e outros.

Em Hilla, 96 quilômetros ao sul de Bagdá, uma maternidade recentemente construída pelos EUA no valor de US$ 4 milhões (R$ 6,9 milhões) já está aberta, mas a equipe é incapaz de operar a maior parte do equipamento.

"O prédio é razoavelmente bom e os norte-americanos equiparam o hospital com equipamentos médicos de alta tecnologia, mas não deram atenção ao treinamento dos médicos para eles saberem como utilizá-los", disse Jawad al-Jabouri, funcionário do distrito.

Em Fallujah, oeste de Bagdá, uma estação de tratamento de esgoto de US$ 98 milhões (R$ 170 milhões) construída pelos Estados Unidos serve a apenas um terço dos lares para os quais foi planejada porque o governo iraquiano não forneceu combustível suficiente a ela, "aumentando as chances de que o esforço dos EUA seja desperdiçado", de acordo com o relatório de um inspetor-geral especial.

No Hospital Ibn Sina, em Bagdá, que é o maior centro médico militar norte-americano no país, as forças de segurança do Iraque assumiram os postos de guarda antes mesmo de sua transferência oficial para o governo iraquiano no mês passado. O hospital, entretanto, está fechado porque o Ministério da Saúde não tem equipe e equipamentos para reabri-lo, embora os militares norte-americanos digam que deixaram US$ 7,9 milhões (R$ 13,6 milhões) em equipamentos lá.

Talvez o projeto de reconstrução mais notório do Iraque seja o do Hospital Infantil de Basra, de US$ 165 milhões (R$ 286 milhões), no sul do Iraque. Defendido por Laura Bush quando ela era primeira-dama, sua conclusão foi postergada em mais de quatro anos, e o projeto está US$ 115 milhões (R$ 200 milhões) acima do orçamento.

Uma vez que o hospital abrir - talvez no ano que vem - haverá muitos poucos médicos e outros membros de equipe para utilizar a maior parte de seu moderno equipamento.

"Ele deveria abrir em março, mas não acho que estará pronto", disse Ahmed Qassim, diretor do hospital. E acrescentou: "Talvez julho, mas não sabemos. Talvez depois de julho".

Tradução: Eloise De Vylder

Duraid Adnan contribuiu com a reportagem em Basra, John Leland em Bagdá e funcionários iraquianos do The New York Times em Basra, Hilla e Kut

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