UOL Notícias Internacional
 

24/11/2009

Irã amplia esforço para conter a oposição

The New York Times
Robert F. Worth Em Damasco (Síria)
Após a contestada eleição presidencial de meados do ano, o governo do Irã tem recorrido em grande parte à força bruta - espancamentos, prisões e julgamentos em massa- para conter o movimento de oposição do país. Agora, irritado com a força e persistência dos protestos, o governo parece estar iniciando um esforço bem mais ambicioso para desacreditar seus oponentes e reeducar a população de maioria jovem e irrequieta do Irã. Nas últimas semanas, o governo anunciou uma série de novas ofensivas ideológicas.

Ele está implantando 6 mil centros da milícia Basij em escolas primárias por todo o Irã, para promover os ideais da Revolução Islâmica, e criando uma nova unidade policial para promover varreduras na Internet à procura de vozes dissidentes. Uma empresa afiliada à Guarda Revolucionária adquiriu uma participação acionária majoritária no monopólio de telecomunicações do país neste ano, dando à Guarda controle de fato sobre as linhas telefônicas, provedores de Internet e duas operadoras de celular. E no próximo ano, a Guarda Revolucionária planeja abrir uma agência de notícias com elementos impressos, de foto e televisão.
  • AP - 04.nov.2009

    Mulher corre da polícia iraniana durante um protesto em Teerã. Após as violentas manifestações, o governo do Irã passou a encampar uma guerra ideológica: está implantando 6 mil centros da milícia Basij em escolas primárias, para promover os ideais da Revolução Islâmica, e criando uma nova unidade policial para promover varreduras na Internet à procura de vozes dissidentes

O governo a chama de guerra "soft" (macia) e os líderes do Irã parecem levá-la mais a sério do que um verdadeiro confronto militar. Ela está enraizada em uma velha acusação: a de que os males domésticos do Irã são resultado da subversão cultural ocidental e pedem por uma resposta igualmente vigorosa. A extensão da nova campanha ressalta o quanto ficaram abaladas as elites religiosa e militar do país devido aos protestos, que provocaram a pior dissensão interna desde a Revolução Islâmica do país, em 1979.

O líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, vem usando a expressão "guerra soft" regularmente desde setembro, quando ele alertou um grupo de artistas e professores de que estavam vivendo em uma "atmosfera de sedição", na qual todos os fenômenos culturais devem ser vistos no contexto de uma vasta batalha entre o Irã e o Ocidente. Ele e outras autoridades invocaram a frase ao descrever nossos esforços para reislamizar o sistema educacional, purgar as influências seculares e professores, além de purificar a mídia de ideias subversivas.

A nova ênfase na guerra cultural pode também refletir a crescente influência da Guarda Revolucionária, cujo líder, Mohammad Ali Jafari, há muito é um dos principais defensores de uma estratégia de guerra soft, dizem os analistas.

Em outubro, Masud Jazayeri, o principal ideólogo dentro do Comando das Forças Conjuntas das forças armadas, publicou uma carta no jornal conservador "Kayhan", na qual pedia por uma campanha mais agressiva de contra subversão. "Se tivéssemos um melhor entendimento do inimigo, e se tivéssemos determinação e motivação suficientes para definir as linhas defensivas", ele escreveu, "nós nunca teríamos permitido ao inimigo penetrar em nossa sociedade islâmica".

Ocorreram campanhas periódicas anteriores para reforçar a mensagem islâmica do governo por toda a sociedade. Alguns analistas dizem que os novos esforços dificilmente serão mais eficazes do que os do passado e podem até mesmo surtir efeito contrário.

As polêmicas de Mahmoud Ahmadinejad

  • AP

    Antes de sua surpreendente vitória nas eleições presidenciais de 2005, Mahmoud Ahmadinejad foi prefeito da capital Teerã.

    Filho de um ferreiro, mudou-se do norte do Irã para a capital com sua família durante a infância; mais tarde, doutorou-se em engenharia civil.

    Durante a corrida eleitoral de quatro anos atrás, Ahmadinejad prometeu dedicar aos pobres o dinheiro que o país consegue com o petróleo, mas durante seu governo o país encontrou graves problemas econômicos, em parte devido a sanções internacionais.

    Ahmadinejad, 52, casado, pai de três filhos, ficou conhecido por seus comentários polêmicos, entre os quais a negação do Holocausto, o desejo de "tirar Israel do mapa" e declarações homofóbicas.

    Ele reivindica o direito de enriquecer urânio no Irã para gerar energia elétrica, um programa que Israel e os Estados Unidos acusam de ter fins bélicos.

    Foi reeleito em 12 de junho deste ano para seu segundo mandato presidencial, com quase 63% dos votos.



"Ao tentar ganhar um maior controle da mídia, ao reislamizar as escolas, eles acham que poderão conseguir um retorno", disse Mehrzad Boroujerdi, um especialista em Irã e professor da Universidade de Syracuse. "Mas o inimigo aqui no Irã é a demografia. A população iraniana é esmagadoramente jovem e alfabetizada, e os esforços anteriores para reinstalar a ortodoxia apenas exarceberam a separação entre os cidadãos e o Estado."

Ainda assim, a ideia retornou com nova força nos meses desde a contestada eleição presidencial de junho, que levou milhões de iranianos às ruas para denunciar como fraude a vitória do presidente Mahmoud Ahmadinejad.

Nas semanas que se seguiram, a aura de autoridade sagrada do governo pareceu ruir ainda mais, com muitos manifestantes condenando o líder supremo do Irã como ditador pela primeira vez.

Os líderes militares e religiosos do Irã deixaram claro, logo depois, que viram naqueles ataques a assinatura de um plano estrangeiro, talvez um mais sutil e insidioso do que aqueles do passado. Era, de certa forma, a única forma da liderança iraniana conciliar os desafios internos que estavam enfrentando com os pedidos brandos do presidente Barack Obama para reconciliação e diálogo.

No início de setembro, o general Muhammad Bagher-Zolghadr, o ex-vice-chefe da Guarda Revolucionária, traçou o conceito de guerra soft em um discurso: "Na guerra 'hard', a linha entre você e o inimigo é clara, mas na guerra 'soft' não há nada tão sólido. O inimigo está em toda parte". Zolghadr disse que uma guerra soft era travada em grande parte na mídia e que o Ocidente estava "melhor equipado" para travá-la do que o Irã.

Logo após seu discurso, as autoridades apresentaram uma série de medidas aparentemente visando tratar desse desequilíbrio. Neste mês, o general Mohammad Reza Naqdi, o chefe da milícia Basij, anunciou uma nova era de cooperação de um "super poder de mídia" entre a mídia e a Guarda Revolucionária, segundo a imprensa oficial estatal.

A Guarda Revolucionária planeja lançar uma agência de notícias chamada "Atlas" no próximo ano, baseada em serviços com os da "BCC" e "The Associated Press", segundo os sites de notícias semioficiais iranianos.

A Guarda Revolucionária já controla em grande parte a agência de notícias "Fars", que reflete o ponto de vista do campo dos linhas-duras do Irã. Há duas semanas o Irã formou uma unidade de 12 pessoas para monitorar a Internet à procura de "insultos e disseminação de mentiras", uma frase usada para descrever as atividades da oposição, noticiou a mídia semioficial. E o governo se aliou a empresas privadas para começar a distribuir gratuitamente software de filtragem de conteúdo, como noticiou na segunda-feira a agência de notícias semioficial "ILNA".

As autoridades também estão reprimindo a dissensão dentro do sistema educacional, indicando que os professores que não promoverem a versão oficial serão purgados. Vários clérigos linhas-duras pedem para que os currículos universitários da área de humanas sejam ainda mais islamizados.

Mohammad-Saleh Jokar, o chefe da seção estudantil e cultural do Basij, disse que o grupo estava abrindo os centros nas escolas primárias porque "estudantes desta idade são mais abertos a serem influenciados por estudantes mais velhos, por este motivo nós queremos promover e estabelecer as ideias da revolução e do Basij", segundo a agência de notícias estatal oficial do Irã.

Mas o tamanho e a complexidade burocrática do sistema escolar tornam essas metas profundamente difíceis, dizem ex-professores.

Da mesma forma, os novos esforços do Estado para inocular pela mídia os iranianos contra ideias dissidentes poderá ser difícil - ou mesmo contraproducente, disseram analistas. Neste mês, um alto diretor da IRIB, a empresa estatal de radiodifusão, pareceu reconhecer isso não intencionalmente quando anunciou que 40% dos iranianos - o dobro em comparação ao ano passado- têm acesso a televisão por satélite em seus lares.

"O inimigo não mais investe em forças armadas para promover suas metas", disse o diretor, Ali Daraei. "O investimento principal deles é na guerra de mídia, pelos canais por satélite."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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