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26/11/2009

Após suicídios, famílias de militares aguardam por carta que nunca chega

The New York Times
James Dao*
Desde pelo menos a época de Abraham Lincoln, os presidentes enviam cartas de condolências às famílias dos militares mortos em ação, independente das mortes terem ocorrido por fogo inimigo ou por acidente.

Assim, após o filho de Gregg Keesling ter se matado no Iraque em junho, ele achou que sua família receberia uma carta do presidente Barack Obama. Mas o que recebeu foi um telefonema de um oficial do Exército, dizendo que eles não receberiam porque o filho deles tinha cometido suicídio. "Nós ficamos chocados", disse Keesling, 52 anos, de Indianápolis.
  • Romeo Gacad/AFP

    Soldados americanos vigiam base militar ao sul do Afeganistão, próximo à fronteira com o Paquistão



Segundo uma política não escrita que existe pelo menos desde o governo Clinton, os presidentes não enviam cartas aos parentes de soldados que tiraram suas próprias vidas, mesmo que tenha ocorrido no fronte de guerra, dizem os oficiais. As raízes dessa política, que tem passado de governo a governo via funcionários de protocolo da Casa Branca, são obscuras e provavelmente baseadas na visão de que o suicídio não é uma forma honrada de morrer, dizem funcionários do governo e oficiais militares.

Mas em um momento em que o Pentágono está tentando retirar o estigma do atendimento de saúde mental, na esperança de conter uma quase epidemia de suicídios entre os membros das forças armadas, a questão sobre se os familiares dos militares suicidas merecem o reconhecimento presidencial ganhou um novo significado.

"Essas famílias já se sentem envergonhadas e alienadas pelos militares e pelo país, de forma que uma carta do presidente poderia lhes dar algum conforto, algum senso de reconhecimento pelo seu sacrifício", disse Kim Ruocco, diretora de apoio a suicidas do Programa de Apoio a Tragédias para os Sobreviventes, ou Taps (na sigla em inglês), um grupo militar de apoio. "Que melhor forma de eliminar o estigma?"

Enquanto o suicídio deixa as sombras e se transforma em um grande problema para as forças armadas, o Taps, membros do Congresso e indivíduos como Keesling começaram a levantar a questão espinhosa da honra igual para os familiares de militares suicidas. Tommy Vietor, um porta-voz da Casa Branca, disse que o governo iniciou uma revisão dessa política para cartas de condolências. "Os pensamentos e orações do presidente estão com todas as famílias de militares que perderam um ente querido a serviço de nosso país", disse Vietor.

Cartas presidenciais de condolências são enviadas para soldados que morreram em ação em guerra. Apesar da maioria dos suicídios ocorrer em postos nos Estados Unidos, um número significativo ocorre no Iraque e no Afeganistão: pelo menos 184 desde 2001, como mostram estatísticas revisadas pelo "The New York Times".

Até outubro, o Exército, que lidera com folga em casos de suicídio entre as forças armadas, relatou 133 entre soldados no serviço ativo, o colocando a caminho de superar o recorde do ano passado, 140. O Corpo de Marines dos Estados Unidos, que apresenta o segundo maior número, também terá provavelmente mais suicídios do que no ano passado, 42.

O aumento dos suicídios levou o Pentágono a tomar uma série de medidas. O Exército está colaborando com o Instituto Nacional de Saúde Mental no estudo de doenças mentais e suicídio. Ele criou uma força-tarefa de prevenção ao suicídio liderada por um general. Ele instituiu programas de prevenção de suicídio na maioria dos postos e exigirá que todos os soldados passem por treinamento intensivo de resistência emocional, para ajudá-los a lidar com o estresse da guerra e do envio ao fronte.

Mas o Exército está tentando atenuar o antigo senso de que problemas psicológicos são um sinal de fragilidade. "Nós temos que reduzir o estigma que cerca a procura por ajuda em saúde mental", disse o general Peter Chiarelli, o vice-chefe do Estado Maior do Exército, neste ano. "Obter ajuda para problemas emocionais deve ser tão natural quanto procurar ajuda para um entorse de tornozelo."

Obama também já falou vigorosamente sobre a dor do suicídio nas forças armadas. Durante a campanha de 2008, ele disse: "Nós sabemos que a incidência de danos psicológicos aumenta a cada período de serviço adicional no Iraque e que nossos soldados não estão recebendo o apoio que precisam. Muitos estão caindo pelas frestas porque precisam de ajuda, mas sentem que não podem recebê-la".

Os defensores dos familiares dos suicidas dizem que as forças armadas avançaram muito na forma como lidam com os suicídios. Os benefícios por morte são em grande parte os mesmos para as famílias, independente de como um militar tenha morrido. E os suicidas têm direito a uma série de honras militares, como enterro em um cemitério federal ou guarda uniformizada nos funerais.

Mas permanece uma suspeita entre os familiares de que há diferenças. Ruocco, cujo marido, um marine, se matou após retornar do Iraque vários anos atrás, disse que vários membros do Taps disseram não ter recebido a bandeira dobrada pelos militares após seus familiares terem cometido suicídio. Ela disse que é possível que não tenham direito, mas o Pentágono não esclarece suas regras para os casos de suicídio.

Ela também disse que as estrelas de ouro que os pais dos militares suicidas receberam eram ligeiramente diferentes das estrelas de ouro dadas aos pais dos soldados mortos em ação. É uma diferença pequena, ela disse, mas uma que separa ainda mais os familiares dos suicidas das demais famílias de militares. O estresse da guerra e do envio é frequentemente uma causa de suicídio, ela argumentou, fazendo com que não seja diferente de um ferimento fatal de uma bomba à beira de estrada.

Mas oponentes das cartas de condolência presidenciais argumentam que tratar os suicidas da mesma forma que outras mortes em guerra poderia encorajar soldados mentalmente frágeis a tirar suas vidas, ao fazer o ato parecer honroso.

Após Chancellor, o filho de Gregg Keesling, ter atirado em si mesmo em uma latrina em 19 de junho, a família recebeu uma bandeira dobrada, uma carta do Exército elogiando seu filho, uma salva de 21 tiros em seu enterro e os benefícios financeiros por morte.

Mas ele considera a carta de condolências como um passo importante para redução da vergonha e culpa que muitos familiares sentem. Horas antes de Chancellor, um especialista de 25 anos, se matar, ele tinha discutido com sua namorada pelo telefone e então enviou um e-mail incoerente e melancólico para casa.
  • João Silva/The New York Times

    Rick Kell, do Troops First, conforta o sargento John Hyland, durante uma visita à Base Operacional Avançada Normandia, em 14 de outubro de 2009. Hyland retornou ao Iraque depois de perder uma perna em uma explosão dois anos antes



"Eu não posso explicar quão envergonhado estou eu disse algumas coisas por raiva", ele escreveu. "Eu não aguento sem cada um de vocês me apoiando o tempo todo. Eu me sinto sozinho e não apreciado por algum estranho motivo esse envio vai acabar como o último eu pensei em me matar eu carreguei uma bala na minha m4 mas decidi não puxar o gatilho. Eu sei que preciso de ajuda e colocar minha família em primeiro lugar. Por favor me perdoem e aceitem minhas desculpas."

Cerca de 17 horas depois, ele estava morto.

"Minhas últimas palavras para meu filho foram: 'Seja um homem e supere'", disse Keesling, lembrando de um dentre dezenas de telefonemas frenéticos ao Iraque horas antes da morte de Chancellor. "Eu fui um pai estúpido. Se meu filho tivesse dito: 'Pai, quebrei minha perna, não consigo seguir em frente', eu teria entendido. Mas eu não entendi o lado da saúde mental."

Andrew W. Lehren contribuiu com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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