UOL Notícias Internacional
 

30/11/2009

Tentando vencer o inimigo afegão sem balas

The New York Times
Dexter Filkins
Em Jalalabad (Afeganistão)
A campanha apoiada pelos EUA para persuadir legiões de guerrilheiros do Talebã a pararem de lutar foi colocada em andamento recentemente, numa mansão ornamentada repleta de líderes tribais afegãos e com um obeso ex-chefe militar liderando o caminho.

"Então, quero que vocês saiam por aí e convençam o Taleban a sentar e conversar", disse Gul Agha Shirzai, governador de Jalalabad, a um grupo de 25 líderes tribais de quatro províncias do leste. No passado, Shirzai foi o governador escolhido pelos EUA para a província de Kandahar depois da queda do Talebã em 2001.

"Façam tudo o que tiverem que fazer", disse o rotundo Shirzai ao grupo de anciãos. "Eu darei apoio a vocês".

Depois de cerca de duas horas conversando, Shirzai e os anciãos tribais se levantaram, e partiram para suas respectivas províncias, prometendo começar a converter o inimigo.

A reunião faz parte de uma iniciativa para convencer os guerrilheiros locais e comandantes a deixarem o Talebã, oferecendo-lhes empregos em projetos de desenvolvimento que os líderes tribais afegãos ajudarão a escolher, financiados pelos militares norte-americanos e pelo governo do Afeganistão.

Ao convocar os líderes tribais para ajudar a escolher os projetos de desenvolvimento, os norte-americanos também esperam fortalecer o governo afegão e as redes tribais Pashtun.

Essa tentativa tem como alvo os guerrilheiros Talebãs comuns; e embora haja alguns esforços em andamento para negociar com os líderes dos principais grupos insurgentes, nem os oficiais norte-americanos nem os afegãos têm muita esperança de que essas conversações tenham sucesso a curto prazo.

O Afeganistão tem um longo histórico de mudança de lado por parte dos guerrilheiros - em alguns casos, eles mudam de lado mais de uma vez. Ainda assim, os esforços para persuadir grandes números de guerrilheiros talebãs a desistirem não tiveram muito sucesso até agora.

Cerca de 9 mil insurgentes entregaram as armas e concordaram em obedecer à constituição afegã, disse Muhammad Akram Khapalwak, administrador-chefe para a Comissão de Paz e Reconciliação em Cabul.

Mas num país empobrecido e arruinado por 30 anos de guerra, os líderes tribais dizem que muitos outros insurgentes entregariam suas armas com satisfação se tivessem algo que valesse mais a pena fazer.

"A maioria dos integrantes do Talebã na minha região são jovens que precisam de emprego", disse Hajji Fazul Rahim, líder da tribo Abdulrahimzai, que engloba três províncias do leste. "Nós precisamos apenas deixá-los ocupados. Se lhes dermos trabalho, podemos enfraquecer o Talebã."

De acordo com o plano de Jalalabad, os anciãos tribais buscariam os comandantes do Talebã para pressioná-los a mudar de lado. Os comandantes e seus guerrilheiros então receberiam ofertas de trabalho criadas por programas de desenvolvimento local.

Os Pashtuns, que formam a base do Talebã, constituem uma sociedade em grande parte tribal, com famílias conectadas umas às outras por laços de sangue e lideradas por grupos de anciãos.

Ao longo dos anos, as tribos Pashtun foram substancialmente enfraquecidas, com os anciãos divididos por três grupos: guerrilheiros do Talebã, rebeldes que lutaram contra a ex-União Soviética e os próprios soldados da antiga União Soviética. A dizimação das tribos deixou a sociedade afegã em grande parte atomizada.

Oficiais afegãos e norte-americanos esperam que o plano para fazer a paz com grupos de guerrilheiros talebãs complemente o esforço liderado pelos EUA de estabelecer milícias anti-Talebã em muitas partes do país: as tribos Pashtun ajudarão a lutar contra o Talebã e negociarão com ele. E, ao fazerem isso, a sociedade tribal afegã poderá ser revigorada.

"Estamos tentando colocar pressão sobre os líderes, e ao mesmo tempo retirar os jovens guerrilheiros", disse um oficial militar norte-americano em Cabul, envolvido com o esforço de reconciliação. "Isso não quer dizer que daremos sacos de dinheiro para os insurgentes."

O plano de reconciliação afegão tem a intenção de imitar o movimento de Conscientização no Iraque, onde os líderes tribais sunitas, muitos deles insurgentes, concordaram em parar de lutar e em muitos casos receberam dinheiro para fazê-lo. A Conscientização contribuiu para o notável declínio da violência no Iraque.

No outono de 2001, durante o início da guerra liderada pelos EUA no Afeganistão, dezenas de chefes militares que lutavam para o Talebã concordaram em mudar de lado e se unir aos rebeldes apoiados pelos oficiais das Forças Armadas Especiais dos EUA.

Numa cerimônia no começo deste mês em Cabul, cerca de 70 insurgentes entregaram as armas frente aos comissários e concordaram em aceitar a constituição afegã. Alguns deles haviam lutado pelo Talebã, outros para o grupo rebelde Hezb-i-Islami. Os motivos dos guerrilheiros variavam, da desilusão à exaustão.

"Por quanto tempo devemos lutar contra o governo? Por quantos anos mais?", disse Molawi Fazullah, tentente Talebã que se rendeu junto com outros nove. "Nossos líderes nos guiaram mal e destruíram nosso país."

Como muitos dos guerrilheiros que se renderam na cerimônia, Fazullah escondeu o rosto com um cachecol e óculos escuros, com medo de ser identificado por antigos colegas.

Os norte-americanos dizem que não têm planos para dar dinheiro aos comandantes locais do Talebã. Eles dizem que preferem oferecer-lhes empregos.

Numa lei de fundos para defesa aprovada pelo Congresso, os legisladores destinaram US$ 1,3 bilhão (R$ 2,26 bi) para o programa conhecido pela sigla Cerp, um fundo destinado a oficiais norte-americanos.

Normalmente, o dinheiro do Cerp é usado para projetos de desenvolvimento, mas o texto da lei diz que os oficiais poderão usá-lo para apoiar a "reintegração à sociedade afegã" daqueles que desistirem de lutar.

Apesar de todos os esforços em andamento para convencer os guerrilheiros do Talebã a mudarem de lado, sempre existe a abordagem às antigas: a força bruta. Os comandantes dos EUA querem pressioná-los; esta é a lógica por trás do pedido do general Stanley A. McChrystal de mais dezenas de milhares de soldados norte-americanos.

De fato, às vezes a força sozinha resolve. Em 9 de outubro, soldados das Forças Especiais dos EUA mataram Ghulam Yahia, um comandante insurgente que teria sido responsável por, entre outras coisas, enviar vários homens-bomba para a cidade de Herat, no oeste.

O próprio Yahia havia mudado de lado no passado: no começo da década, ele foi prefeito de Herat.

Quando os americanos mataram Yahia, no vilarejo montanhoso de Bedak, 120 de seus guerrilheiros se renderam ao governo afegão. Outros se esconderam. Abdul Wahab, um ex-tenente de Yahia que liderava os desertores, disse que o governo afegão até agora não tinha feito nada para protegê-los ou oferecer-lhes empregos.

Mas ele disse que estava feliz de ter tomado a decisão de qualquer forma.

"Estamos cansados da guerra", disse ele. "Não queremos mais isso".

Tradução: Eloise De Vylder

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