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01/12/2009

Exploradora de árvores se oferece para salvar floresta indonésia

The New York Times
Noimitsu Onishi Em Teluk Meranti (Indonésia)
A península de Kampar na Indonésia se estende por quilômetros de densas florestas de árvores e arbustos. Uma das maiores florestas de turfa também é um dos maiores depósitos de dióxido de carbono, uma moeda potencialmente lucrativa enquanto governos mundiais tentam traçar um tratado climático global. O depósito, porém, está vazando.

Canais - legais e ilegais - vão dos rios em volta até quase o centro impenetrável da península. Drenando e secando a turfa lentamente, eles contribuem para tornar a Indonésia a terceira maior emissora de gases de efeito estufa, após a China e os EUA.
  • Kemal Jufri/The New York Times

    A península de Kampar possui das maiores florestas de turfa do mundo, que também é um
    dos maiores depósitos de dióxido de carbono, um trunfo diante de um tratado climático global

Os vazamentos eram evidentes para uma família de pescadores desta aldeia ao sul da península, enquanto remavam em uma canoa.

"Posso dizer que a turfeira está vazando porque a água aqui está ficando mais barrenta e ácida", disse Amiruddin, 31, que como muitos indonésios usa apenas um nome, enquanto sua mulher, Delima, 29, pegava da água cor de café do riacho para beber.

Florestas como a da península de Kampar estão no centro de uma batalha crescente sobre o formato do novo tratado do clima e dos esforços para deter a destruição e a degradação das florestas.

Na reunião de cúpula em Copenhague do mês que vem, espera-se apenas acordos vagos e amplos entre os países. Contudo, governos, cientistas, empresas e ambientalistas já estão discutindo quais tipos de florestas devem se qualificar como redutoras de carbono e quais tipos de projetos devem ser recompensados financeiramente.

As discussões sobre Kampar se tornaram particularmente acaloradas não apenas por sua importância ecológica, mas porque, até agora, o plano mais detalhado para impedir os vazamentos de turfa vem de uma fonte improvável: uma enorme empresa de papel e celulose que, de acordo com seus críticos, tem sido uma das forças motoras do desmatamento na Indonésia. A empresa, Asia Pacific Resources International Limited, April, quer criar um anel de plantações de árvores industriais em torno da península para preservá-la.

E mais, ela espera receber créditos de carbono para isso, sob um programa da ONU para recompensar nações por conservarem florestas e reflorestarem áreas degradadas. O programa, chamado Reduzir Emissões de Desmatamento e Degradação Florestal, Redd, deve fazer parte do novo tratado do clima. Diferentemente do protocolo de Kyoto, o novo tratado deve lidar com o desmatamento, que por si só é responsável por 20% das emissões de gás de efeito estufa. A contenção do desmatamento em nações com florestas tropicais como Indonésia e Brasil, o quarto maior emissor mundial, é considerada crucial na restrição do aquecimento global.

A ideia é que nações em desenvolvimento que preservam florestas receberiam créditos de carbono que poderiam vender às nações industrializadas que buscam atingir metas de redução de emissões. Apesar dos detalhes do programa ainda precisarem de meses ou anos para serem definidos, mais de uma dúzia de projetos do Redd já estão em andamento na Indonésia, patrocinados por entidades tão diversas quanto grupos de conservação, o governo australiano e Merrill Lynch, além de empresas de papel e celulose. Grupos ambientais dizem que estas últimas, após anos degradando a Indonésia, não devem ser recompensadas pelo programa.

"Foram elas que causaram os danos", disse Michael Stuewe, especialista em Indonésia do World Wildlife Fund. "Agora estão dizendo: 'Éramos os malvados, agora somos os bonzinhos. Então nos deem dinheiro'."

As empresas argumentam que o programa da ONU pode lhes dar os incentivos financeiros para preservar florestas, mesmo enquanto aumentam suas operações, um objetivo apoiado pelo governo indonésio, que vê a indústria de papel e celulose como suporte para o desenvolvimento econômico do país.
  • Kemal Jufri/The New York Times

    Habitat em perigo "Posso dizer que a turfeira
    está vazando porque a água aqui está ficando
    mais barrenta e ácida", afirmou o pescador Amiruddin, 31, enquanto sua mulher, Delima, 29, pegava da água cor de café do riacho para beber



"Talvez seja possível reduzir as emissões anuais da Indonésia em 5% com apenas este projeto", disse Jouko Virta, presidente do fornecimento de fibra da April, referindo-se ao projeto da empresa de cercar o centro da península. "É tão significativo. Um único projeto."

Todo mundo concorda, ao menos, com a importância de salvar a península de Kampar, 400.000 hectares de turfeira no equador, habitada por tigres da Sumatra, ursos, macacos, crocodilos e outros animais selvagens.

A maior parte da península continua livre de seres humanos, apesar de pequenos acampamentos de pescadores serem encontrados em seus riachos. Mais significativos são os madeireiros ilegais vistos operando em bases ao longo de alguns canais e rios. E a leste daqui, perto da aldeia de Pulau Muda, mais de uma dúzia de casas ladeiam um longo canal que vai dar na península, no que parece ser o maior assentamento em Kampar.

A terra encharcada de árvores e plantas decompostas algumas vezes tem até 15 metros de profundidade e armazena bilhões de toneladas de dióxido de carbono. Uma vez seca ou desmatada, a turfeira libera muito mais dióxido de carbono do que as florestas úmidas; o fogo em uma turfeira queima por semanas e é a principal causa da nuvem que periodicamente cobre partes da Indonésia. A maior parte dos especialistas acredita que, como as florestas úmidas, a proteção das florestas pantanosas de turfas será elegível para créditos de carbono pelo programa da ONU.

A península de Kampar é um dos últimos trechos de verde na Sumatra central, onde as florestas foram derrubadas para dar lugar a plantações de dendê e de árvores para fins industriais, especialmente as da April e de sua principal rival, Asia Pulp and Paper, ambas de propriedade de conglomerados indonésios. De acordo com o World Wildlife Fund, aqui em Riau, a província onde as duas empresas têm seus principais moinhos e plantações, dois terços das florestas desapareceram nos últimos 25 anos.

Madeireiros ilegais também derrubaram amplos trechos de floresta. Muitas vezes, migrantes queimam florestas para cultivar a terra, até dentro de parques nacionais; como em outras partes da Indonésia, muitas vezes são estimulados pelos governos locais que buscam ocupar áreas para razões econômicas ou políticas, desafiando as autoridades do Ministério Florestal que tem pouco pessoal para fiscalização.

A April, que, com suas parcerias, tem concessões do governo para explorar um terço de Kampar, diz que seu anel de plantações de acácias em torno do centro vai impedir maior devastação, mas diz que precisa adquirir mais terra para completar o círculo. Nas plantações já em operação, a empresa usa uma rede sofisticada de canais e represas que minimiza o vazamento da turfa, admitem grupos ambientalistas.

Se a April adquirisse o controle do centro da península, poderia ser paga para protegê-lo. A empresa acredita que pode, no mínimo, ser compensada pelo anel, metade do qual seria de plantações de acácias e metade ficaria como floresta natural ou "área de conservação".

"O carbono que estamos armazenando nas áreas de conservação poderia ser financiado pelo Redd", disse Virta em uma entrevista no moinho de 1.700 hectares da April, cerca de duas horas a oeste daqui de carro.

Agus Purnomo, que dirige o Conselho Nacional de Mudança Climática do governo, disse que seriam necessários meses ou anos de negociações após a conferência do clima do próximo mês para determinar se o anel da April poderia receber créditos de carbono.

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Muito vai depender da inclusão no acordo de estipulações contra a conversão de florestas naturais em plantações industriais. A Indonésia, como outros países com indústria de papel e celulose, contabiliza plantações de árvores para fins industriais como florestas.

Grupos ambientais são contra qualquer projeto Redd envolver a conversão de florestas naturais em plantações industriais. Bill Barclay, diretor da Rainforest Action Network, disse que a prioridade na Indonésia deveria ser "deter a conversão de florestas naturais" e "maior drenagem da turfa".

Esse tipo de argumento, porém, tem pouca força em uma nação com uma economia ainda em desenvolvimento. Purnomo, do conselho de mudança climática do país, disse que membros do governo temiam que a posição da Indonésia como terceiro maior emissor de gases de efeito estufa fosse aumentar a pressão para reduzir emissões.

"Vamos continuar subdesenvolvidos por causa disso?" perguntou.

Desde o início das operações de uma nova concessão aqui perto em setembro, a April trouxe empregos para Teluk Meranti. Como parte do apoio à comunidade, instalou um novo gerador para aumentar o fornecimento de eletricidade e doou material de construção para renovar duas mesquitas. Teluk Meranti ainda assim não adotou a visão de futuro da April. A maior parte dos aldeões continuava se opondo à presença da empresa, segundo opositores e defensores da empresa. "Não sabemos o que vamos receber. Que direitos temos?", disse Firdaus, 39, que administra uma venda.

Ele não sabia do projeto do anel da April. Mas sim, tinha ouvido falar da importância da turfa por grupos ambientais. "Disseram-nos para proteger a turfa por causa do clima."

Tradução: Deborah Weinberg

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