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02/12/2009

Com tropas adicionais, Obama faz exigências aos afegãos e seu presidente

The New York Times
Dexter Filkins*
O compromisso do presidente Barack Obama, na noite de terça-feira, de redobrar a campanha americana no Afeganistão, deixou sem resposta aquela que talvez seja a questão mais decisiva de todas: os afegãos também aumentarão seus esforços?
  • Julie Jacobson/AP

    Barack Obama acena antes de discursar sobre sua nova estratégia para a guerra no Afeganistão

Ao ordenar o envio acelerado de 30 mil soldados americanos adicionais ao país, Obama deixou claro que exigirá um maior esforço por parte do presidente Hamid Karzai para combater a corrupção em seu governo, e por parte dos soldados e policiais afegãos no combate aos insurgentes do Taleban.

Os soldados americanos adicionais, disse o presidente, só permanecerão em solo por um tempo limitado, para assegurar que os afegãos façam sua parte.

Mas esse é o coração do problema: ao desafiar os afegãos, Obama está estabelecendo um critério para o sucesso que ele e seus comandantes de campo poderão influenciar, mas que no final não poderão controlar.

O desafio mais imediato é o próprio Karzai, um ex-favorito do Ocidente que preside aquele que é amplamente considerado um dos governos mais corruptos do mundo. O pagamento de propina que permeia o governo afegão é tão vasto que, para os afegãos comuns, passou a colocar em dúvida a própria legitimidade do governo Karzai - e para os americanos, a sabedoria de lutar e morrer para apoiá-lo.
  • Carlos Barria/Reuters

    Soldados americanos descansam durante missão noturna na província de Kunar, em 12 de agosto



Apenas no mês passado, Karzai foi declarado vencedor da eleição nacional que foi manchada por níveis extraordinários de fraude - quase todos os observadores eleitorais independentes apontaram que ela foi manipulada a seu favor. O próprio irmão de Karzai, Ahmed Wali Karzai, é suspeito de ser uma figura central no comércio de ópio do país, a principal fonte de dinheiro para os insurgentes do Taleban.

"Nós temos que ter um melhor governo, porque todos esses soldados serão enviados para beneficiar este governo corrupto", disse Noorulhaq Uloomi, um membro do Parlamento afegão. "Este governo é corrupto de cima a baixo."

Obama parece esperar que um prazo preciso para o início da retirada americana -18 meses a partir de agora- estimulará Karzai a agir. Desta forma, Obama está tentando resolver um quebra-cabeça central da política americana: como forçar Karzai a combater a corrupção em seu governo sem enfraquecê-lo substancialmente se ele fracassar.

Uma dica para a abordagem de Obama é que ele pretende reduzir a quantidade de dinheiro americano destinada diretamente a Karzai e ao governo central em Cabul. Em vez disso, o presidente pretende canalizar mais dinheiro americano diretamente às autoridades locais nas províncias.

Mas fora isso, Obama não especificou o que faria se Karzai fracassasse em promover as mudanças pedidas pelo presidente.

Karzai, atualmente em seu nono ano como presidente, tem resistido consistentemente às exigências americanas de limpar seu governo. Apenas no mês passado, Karzai teria rejeitado a mais recente exigência americana, feita pelo embaixador Karl Eikenberr, para remoção de Ahmed Wali Karzai de sua base em Kandahar.

"Obama faz escalada financeira com guerra do Afeganistão", diz Sérgio Dávila, nos EUA



Além disso, grande parte da corrupção no governo Karzai envolve nem tanto as autoridades afegãs roubarem o dinheiro americano, mas principalmente o enriquecimento delas com o próspero comércio de ópio do país. Os policiais afegãos dizem que os cargos mais altos na força, por exemplo, são frequentemente leiloados por dezenas, até mesmo centenas, de milhares de dólares; os afegãos que conseguem esses cargos então os usam frequentemente para colher ainda mais dinheiro, ao facilitar o movimento dos narcóticos.

Mas apesar de toda a preocupação com a corrupção, a maior aposta de Obama é o plano para treinar a polícia e o exército afegão para que assuma o lugar das forças americanas - e assim permitir a volta delas para casa. Até mesmo pelo número, as forças afegãs são terrivelmente inadequadas: existem atualmente cerca de 93 mil soldados afegãos e cerca de 93 mil policiais afegãos. Em um país de cerca de 35 milhões, isto está longe do número necessário para promover a ordem em uma terra tão dividida (as forças de segurança no Iraque, que possui uma população menor, agora totalizam cerca de 600 mil).

Obama e seus comandantes de campo pretendem expandir rapidamente o número de afegãos sob armas para cerca de 240 mil soldados e 160 mil policiais.

Eles também pretendem aumentar essas forças ao defenderem forças de defesa locais - milícias afegãs - nas aldeias e cidades. Transformar grupos de ex-insurgentes em forças de defesa do bairro foi um fator decisivo para a redução da violência no Iraque.

Mas uma perspectiva mais preocupante é a qualidade das tropas e oficiais afegãos. Apesar de muitos afegãos terem demonstrado disposição em combater o Taleban, o exército e a polícia afegãos se mostraram incapazes de se manterem em campo, de purgar a corrupção em suas fileiras, de realizar operações à noite ou operar qualquer arma mais complicada que um rifle.

Um exemplo citado frequentemente pelos treinadores americanos: a habilidade burocrática e o nível de alfabetização necessário para administração de uma grande força ainda não se materializaram, mesmo após anos de treinamento. Quando se trata de pagar seus soldados, mantê-los alimentados, fornecer a eles munição e equipamento, monitorar quem está de licença e quem está ferido, a maioria das unidades afegãs apresenta um desempenho ruim. Essas tarefas - essenciais para a prontidão de qualquer exército - são quase invariavelmente realizadas pelos soldados americanos ou da Otan.

De fato, os treinadores americanos frequentemente perdem muito tempo verificando se as listas afegãs estão corretas - que não estejam repletas de "fantasmas" sendo "pagos" pelos comandantes afegãos, que discretamente embolsam os salários falsos.

"O foco do programa de treinamento sempre foi 'mais soldados' às custas de um treinamento de qualidade", disse um americano envolvido no treinamento das forças afegãs, que exigiu que seu nome não fosse citado por ainda estar trabalhando com os soldados afegãos. "Não há 'testes'. Um soldado não precisa dominar uma tarefa antes de se formar. Basta a frequência para a graduação."

Diante dessas avaliações pessimistas, a luta no Afeganistão passa a lembrar a outra guerra americana, a no Iraque. Naquele país, por quase quatro anos, a guerra ia terrivelmente mal -e então, de repente, as condições melhoraram acentuadamente. Muitos fatores contribuíram para a mudança, como o afluxo rápido e temporário das forças americanas adicionais.

Veja trecho do discurso de Obama sobre o envio de tropas ao Afeganistão (em inglês)



Obama espera agora uma mudança semelhante. Mas o Afeganistão é um país diferente do Iraque, um que transforma em aposta o aumento temporário do número de soldados.

No Iraque, tanto a população quanto a insurreição estão concentradas nas cidades. O Afeganistão, em comparação, é um país em grande parte rural, com a população espalhada por um terreno montanhoso e remoto. Além disso, a insurreição afegã é bem mais difícil de ser identificada.

No final, o treinamento dos soldados afegãos e a pressão sobre as autoridades afegãs só terá sucesso se a guerra liderada pelos americanos contar com o apoio dos afegãos comuns. É entre eles - nas ruas - que a guerra será vencida ou perdida no final.

"Nós estamos em uma batalha para conseguir o que o afegão comum quer para seu país", disse um oficial militar americano, "e fazer com que ele tenha mais fé em seu próprio governo".

Carlotta Gall e Richard A. Oppel Jr., em Cabul, e C.J. Chivers, contribuíram com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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