UOL Notícias Internacional
 

04/12/2009

Alavancagem e ambição fazem com que Dubai entre em queda livre

The New York Times
Landon Thomas Jr. Em Dubai (Emirados Árabes Unidos)
Qual é a diferença entre Dubai e Dubai World? A espetacular ascensão de Dubai, da vila de pescadores de pérolas de 50 anos atrás ao centro comercial e financeiro do Golfo Pérsico de hoje, escorou-se na ideia de que o Estado e os seus interesses econômicos seriam inseparáveis.
  • Steve Crisp/Reuters

    Reação O pedido de moratória da dívida de Dubai provocou profunda preocupação por todo
    o mundo financeiro. Os preços das ações nas bolsas europeias e asiáticas despencaram

Assim, quando uma autoridade graduada do governo afirmou nesta semana que o governo não honraria a dívida do Dubai World, o veículo de investimento de propriedade integral de Dubai, investidores e credores ficaram chocados.

Estaria Dubai abandonando o Dubai World, ou a medida seria simplesmente uma tática de negociação?

Dubai está se preparando para semanas de árduas negociações com credores a respeito da reestruturação da dívida do Dubai World. Apesar das tentativas dos governantes dos emirados de acalmar a tormenta, indivíduos de fora ainda não estão entendendo a situação.

Segundo banqueiros de investimento envolvidos nas discussões sobre reestruturação, dificilmente haverá vendas rápidas de ativos do Dubai World.

Um dos motivos para isso é o fato de não ser provável que nenhuma propriedade da instituição - um conjunto de imóveis, instalações de lazer e instituições financeiras dentro e fora de Dubai, incluindo investimentos problemáticos como as ações da loja de departamentos Barneys nos Estados Unidos e o City Center em Las Vegas - gere a quantia de US$ 4 bilhões a US$ 5 bilhões (R$ 6,8 bilhões a R$ 8,5 bilhões) necessária para garantir aos banqueiros que existe seriedade por detrás da proposta que está sendo discutida de reestruturar a dívida de US$ 26 bilhões (R$ 44,4 bilhões).

Cobertura completa da crise

  • UOL


Já a venda da cobiçada companhia aérea de Dubai, ou das suas companhias de alumínio e infraestrutura - a maioria delas de propriedade da Investment Corporation of Dubai, uma das duas holdings estatais; a outra é o Dubai World - poderia provavelmente gerar dinheiro suficiente para satisfazer os banqueiros e ajudar o Dubai World a cumprir as suas obrigações.

Mas tal medida é altamente improvável, já que isso significaria uma grande humilhação para Dubai e o seu governante, o xeque Mohammed bin Rashid al-Maktoum, que elaborou o modelo corporativo altamente inter-relacionado e, conforme se verificou, de alto risco, que é a Dubai Incorporation.

Desde o início da ascensão de Dubai, a alavancagem foi a força propulsora do processo: o xeque Rashid bin Saeed al-Maktoum, o pai do atual líder, contraiu um empréstimo de 400 mil libras esterlinas do Kuait para drenar a baía de Dubai em 1954 e criar o aterro no qual seriam construídos edifícios de escritórios e apartamentos no valor de bilhões de dólares, muitos dos quais estão atualmente vazios.

O desenvolvimento recente de Dubai baseou-se em uma série de entidades corporativas que, apesar de controladas pelo governo de Dubai e o seu líder, também assumiram as armadilhas das operações do setor privado.

Ocidentais foram contratados para administrar várias dessas companhias: os diretores-executivos de duas das principais holdings do Dubai World, a Nakheel e a Istithmar, são, respectivamente, australiana e norte-americana. Algumas buscaram ofertas públicas limitadas e todas, sem exceção, contraíram grandes empréstimos junto a bancos locais e estrangeiros.

"Tudo é muito ambíguo, e deliberado", afirma Jim Krane, autor do livro "City of Gold: Dubai and the Dream of Capitalism" ("Cidade de Ouro: Dubai e o Sonho de Capitalismo"). "Quando essas companhias tornaram-se demasiadamente capitalistas, elas foram separadas da burocracia e transformaram-se em companhais estatais com processo autônomo de decisão e liberdade de ação".

Como resultado, a mão condutora do xeque Mohammed tem sido altamente visível, atuando por meio de três principais holdings: a Dubai Holding, uma companhia que ele controla diretamente; o Dubai World e a Investment Corporation of Dubai, ambas de propriedade integral do governo, que é efetivamente administrado pelo xeque.

Essas três entidades controlam as finanças das companhias semi-estatais de Dubai. Todas estas companhias engajam-se em atividades empresariais que deveriam buscar a meta do setor público de crescimento econômico contínuo, gerando, ao mesmo tempo, lucros para satisfazer os investidores do setor privado.

Por que a moratória de Dubai causa tanta preocupação?

Um artigo do "Financial Times" destaca que os problemas de Dubai podem ter impacto sobre um ou outro banco, mas os ganhos corporativos agregados mal serão afetados. Os consumidores em todo o mundo não podiam se preocupar menos. Então qual seria a razão de tanta preocupação? Para o jornal britânico, há algumas explicações razoáveis. A primeira é que depois de uma recuperação rápida, após a maior crise das últimas gerações, Dubai serve como lembrete de que o mundo não está fora de perigo. Uma grave inadimplência num país distante reforça a sensação de que outro choque pode vir de qualquer lugar.



Durante algum tempo esse sistema funcionou sem problemas, transformando a próspera cidade-Estado em um paraíso bancário enquanto companhias aéreas, corretores imobiliários, empresas públicas de luz e água e operadoras portuárias tomavam dinheiro emprestado furiosamente para financiar as suas metas de crescimento.

Mas agora está claro que alguns dos investimentos não geraram dinheiro suficiente para a amortização dos empréstimos, e os banqueiros locais e estrangeiros não estão entendendo bem o que se passa.

Segundo um relatório emitido no ano passado pela Moody's, a agência de notas de crédito, a renda total das companhias de Dubai foi de US$ 30 bilhões (R$ 51,3 bilhões) em 2006, eclipsando a receita do governo central naquele ano, que foi de US$ 5,4 bilhões (R$ 9,2 bilhões).

À medida que Dubai voltava-se para o Ocidente, em contraste com Abu Dhabi, rico em petróleo, mas bem mais conservador, a Dubai Holding e especialmente o Dubai World passaram a operar como se fossem companhias de crescimento dinâmico, em vez de pesadas companhias estatais.

A Nakheel, a principal empresa imobiliária do Dubai World, passou a definir essa atitude ousada, com blitzes de marketing de estilo ocidental e a sua capacidade de captar mais de US$ 6 bilhões (R$ 10,3 bilhões) de investidores estrangeiros e locais.

E, ainda que Dubai não contasse com nenhum rendimento consistente para promover um fundo soberano, o Dubai World deu início à sua própria versão de uma entidade estatal de investimento com a Istithmar. Ao contrários do fundos repletos de capital da região, o Istithmar utilizou dívidas e uma grande auto-confiança para transformar a sua participação acionária inicial de US$ 2 bilhões (R$ 3,4 bilhões) no Dubai World em uma entidade de US$ 15 bilhões (R$ 25,6 bilhões) que, na aparência e abordagem, constituía-se mais em um fundo de private equity do que em um fundo soberano. O problema foi que todas essas entidades corporativas começaram a superar a escala do governo que as criou.

Não obstante, a maioria dos investidores sentiu-se tranquilizada pelos vínculos estreitos entre Estado e negócios. Por exemplo, o sultão Ahmed bin Sulayem, que administra o Dubai World, e Mohammad al-Gergawi, diretor da Dubai Holding, fazem parte do Conselho Executivo de Dubai, o que confere a eles o status efetivo de ministros de Estado.

Assim, quando Abdulrahman al-Saleh, o diretor-geral do Departamento de Finanças de Dubai, afirmou que o governo do país não era responsável pelas dívidas do Dubai World, ele pode ter simplesmente reafirmado aquilo que todos os documentos legais referentes a ofertas de títulos corporativas da Nakheel e outras empresas diziam claramente.

Talvez nenhum edifício simbolize melhor o sonho corporativo de Dubai do que o Burj Dubai, erguido pela rival da Nakheel, a Emaar, que faz parte da Investiment Corporation of Dubai. Construído a um custo de US$ 4,1 bilhões (R$ 7 bilhões), o seu pináculo delgado ergue-se a 818 metros - quase um quilômetro - de altura. Uma visão impressionante. Desejando visitar o topo do edifício, Mohammed Ali, um funcionário público aposentado de Abu Dhabi, aproveitou um feriado nacional daqui na última quarta-feira e trouxe a sua família a Dubai, apenas para descobrir que a inauguração da torre havia sido novamente adiada, desta vez para o início de janeiro.

"É uma coisa muito bonita", disse ele, enquanto uma música marcial era tocada por alto-falantes e as fontes do lago artificial lançavam sprays de água sobre a multidão que observava extasiada. "Mas isso é um desperdício de dinheiro. Milhões de apartamentos. Mas, para quem? Agora os investidores foram embora e deixaram tudo isso para trás".

Tradução: UOL

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    17h00

    0,40
    3,279
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    0,95
    63.257,36
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host