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04/12/2009

Exames de HIV trocam sangue por dinheiro na China

The New York Times
Andrew Jacobs e Zhan Jing Em Tianjin (China)
Uma multidão jovem e barulhenta reuniu-se diante da boate Purple Tribe em recente noite de sexta-feira, mas quase ninguém estava interessado em entrar. Em vez disso os homens, na maior parte homossexuais, esperavam sua vez para entrarem em um armazém sujo perto da boate.

Uma agulhada e uma contração depois, eles saíam com sorrisos triunfantes, tendo trocado um tubo de sangue por um punhado de dinheiro. "Esta é a terceira vez em duas semanas", vangloriava-se Zhang Haoyun, 18, que trabalha em uma loja, enquanto se afastava segurando um algodão na dobra do braço.
  • Goh Chai Him/AFP - 10.mai.2004

    Homem passa em frente a um cartaz da campanha estatal de combate à Aids no centro de Pequim



Todas as noites, em 14 cidades em torno do país, centenas de pessoas buscam centros improvisados de coleta de sangue em bares, casas de banho e apartamentos, onde fazem exame de sífilis e HIV, o vírus que causa a AIDS. A iniciativa ambiciosa começou em 2007, é financiada pela Fundação Bill & Melinda Gates, que investirá US$ 50 milhões (em torno de R$ 100 milhões) nos próximos cinco anos em um esforço para diminuir a disseminação da AIDS na China. Até agora, mais de 110.000 pessoas foram testadas.

O programa de prevenção do HIV de Gates na China é incomum porque oferece um incentivo econômico para os que tiram sangue e para os que se prestam ao exame - cerca de US$ 9 (R$ 18) por amostra e outros US$ 44 (R$ 88) para quem recebe resultado positivo. O programa provocou uma onda de críticas de algumas organizações de AIDS bem estabelecidas que dizem que o dinheiro gerou uma rede de grupos instantâneos cujo único interesse é coletar o dinheiro.

Aqui em Tianjin, uma cidade de 11 milhões de habitantes ao Norte, duas dúzias de organizações brotaram no último ano, muitas delas dirigidas por proprietários de bares ou burocratas afiliados ao governo.

Alguns grupos não fornecem aconselhamento para os que doam sangue e fazem poucos esforços para ajudar os que recebem resultado positivo a receberem tratamento médico. "Gates criou uma enorme operação de compra de sangue que só se importa com dinheiro, não com as pessoas", disse Ma Tiecheng, que dirige uma organização de AIDS de sete anos na cidade de Shenyang, no Noroeste. "Vi pessoas fazendo quatro testes de HIV por dia."

Com mais de US$ 3 bilhões (aproximadamente R$ 6 bilhões) em orçamento anual, a Fundação Gates tende a gerar uma onda aonde quer que dirija sua atenção. É amplamente respeitada por enfrentar a malária, a tuberculose e a AIDS, que estão entre as doenças que mais matam no mundo em desenvolvimento, mas criticada pela resistência a opiniões de fora quando traça seus programas.

Outros reclamam que o orçamento exagerado altera o cenário de saúde local criando feudos entre os que têm e os que não têm dinheiro nas organizações de base.

Aqui na China, a missão da fundação é identificar pessoas infectadas com o HIV como primeiro passo em seu tratamento. Os que conhecem sua situação têm maior chance de modificar um comportamento que possa colocar outros em risco, dizem os arquitetos do programa. Segundo eles, os pagamentos são cruciais para trazer as pessoas cara a cara com os atendentes.

Apesar de não promovido em seus materiais promocionais, outro objetivo da fundação é mais amplo: dar maior poder ao número pequeno, mas crescente de grupos não governamentais que têm maior chance de lidar com a epidemia de AIDS do que a burocracia chinesa.
  • Bill & Melinda Gates Foundation

    Campanha incomum Caixa com mensagens
    de conscientização sobre os riscos e formas de prevenção da Aids, distribuída pela Fundação Bill
    & Melinda Gates na China. O programa de prevenção do HIV de Gates na China é incomum porque oferece um incentivo econômico para os que tiram sangue e para os que se prestam ao exame - cerca de US$ 9 (R$ 18) por amostra e outros US$ 44 (R$ 88) para quem recebe resultado positivo



Para executar sua missão, a fundação se associou ao Ministério da Saúde, que envia US$ 20 milhões (em torno de R$ 40 milhões) para cerca de 200 organizações sem fins lucrativos, muitas das quais existem em uma zona burocrática cinzenta e são vistas com suspeita pelo governo autoritário chinês.

A desconfiança flui nas duas direções.

Ao compelir o governo a trabalhar com organizações privadas, a fundação espera fomentar um relacionamento duradouro entre eles -e com o tempo contribuir para criar mudanças mais profundas na sociedade chinesa.

Ray Yip, que dirige o esforço da fundação na China, admite que o programa tem problemas, mas os compara com dores de crescimento.

"Estamos vivenciando alguns soluços de uma combinação que não é perfeita, mas esperávamos isso", disse ele. "Se você olhar historicamente em casamentos arranjados, alguns duram"

Yip, que é ex-diretor do Centro para Controle e Prevenção de Doenças na China, aprecia a estratégia da Fundação Gates de tomar iniciativas ousadas e assumir riscos - traços que frequentemente faltam aos gigantescos programas de saúde globais dirigidos pelos governos. Ele disse que, se parte do dinheiro terminasse nos bolsos de autoridades corruptas dirigindo organizações falsas, era o custo de fazer negócios na China, onde a malevolência do governo é endêmica.

"Não acreditamos que todas as bolsas em todas as cidades serão um sucesso espetacular", disse ele. "Seria como comprar 30 ações e esperar que todas subam."

Sun Jiangping, vice-diretor do Centro Nacional de controle e Prevenção de AIDS e DST da China, disse que o programa já tinha tido um impacto positivo na atitude do governo em relação a organizações privadas de AIDS, cujos números aumentaram de poucas dúzias, quando a iniciativa começou, para mais de 400. Ele disse que sua agência estava trabalhando para extirpar grupos ilegítimos.

Comparada com outros países em desenvolvimento, a prevalência de HIV na China é relativamente baixa, com pouco menos de um milhão de pessoas infectadas, de acordo com números do governo liberados na semana passada.

Contudo, especialistas em saúde pública estão alarmados com o índice de infecção entre homens homossexuais, que vem dobrando anualmente. Acredita-se que até o final de 2008, quase 5% de homens gays nas maiores cidades da China eram HIV positivos; em algumas cidades, esse número excede 10%. Membros da saúde dizem que os gays agora são um terço de todas as novas transmissões, quando eram 12% em 2007.

Grupos de defesa de portadores do vírus dizem que o governo tem sido econômico em seus esforços para prevenir a disseminação do HIV, em alguns casos proibindo preservativos em bares ou cerceando ativistas que fazem muito barulho.

Nos últimos anos, surgiram organizações para ajudar pessoas com AIDS que são recusadas em hospitais. Muitas, como a Deep Blue, que opera em um apartamento nos subúrbios de Tianjin, são financiadas por bolsas do exterior. Dois conselheiros da Deep Blue reúnem-se com 50 pessoas que aparecem por semana fazer o teste de HIV.

"Se você tiver qualquer dúvida, contate os voluntários com as faixas vermelhas", diz um cartaz. "Você pode parar o exame em qualquer momento", diz outro. Cerca de 65% dos que têm resultado positivo voltam para receber aconselhamento, disse o diretor do grupo, Yang Jie.

Tong Ge, ativista veterano de AIDS que assessorou a Fundação Gates em seu programa na China, disse que estava contente com o trabalho da fundação, apesar de dizer que desejava que houvesse maior ênfase no treino funcionários do governo e menos dinheiro gasto nos exames. Seu maior pesar foi a fundação ter escolhido transferir o dinheiro por meio do governo.

"Tanto do dinheiro de Gates terminou fomentando a corrupção em um lugar em que não existia antes", disse ele. Então, após uma pausa, acrescentou: "Mas a verdade é que não podemos culpá-los. O problema, na verdade, é da China."

Tradução: Deborah Weinberg

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