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05/12/2009

Apesar de algumas questões, a política afegã de Obama é sólida

The New York Times
Max Boot
A política do presidente Barack Obama para o Afeganistão provoca algumas questões sérias. Para ver se tem alguma chance decente de funcionar, vale visitar a cidade de Nawa no vale do rio Helmand, no sul do Afeganistão. Eu estive lá em outubro e vi que os 1.000 marines que chegaram durante verão já tinham feito avanços substanciais.

Quando os marines chegaram, Nawa era praticamente uma cidade fantasma.

"Estava estrangulada pelo Taleban. Todo mundo era intimidado, agredido, cobrado", disse o jovial coronel William McCollough, comandante do primeiro Batalhão do 5º regimento dos Marines.

Os marines forneceram segurança e a cidade voltou à vida, com a reabertura de escolas, movimento nas lojas e caminhões fazendo entregas. Os moradores de Nawa, como a maior parte dos afegãos, ficaram felizes em se verem livres do Taleban e de seus decretos teocráticos.

McCollough, contudo, advertiu que o progresso era tão frágil quanto uma casca de ovo. Em particular, ele se preocupa com a força negativa exercida por Marjah, a menos de 15km de distância. Uma cidade de 50.000 habitantes, Marjah há muito é um centro de contrabandistas de ópio e insurgentes que aterrorizam a região.
  • Banaras Khan/AFP

    Veículo militar americano faz patrulha pelas ruas na província de Candahar, no Afeganistão


Os comandantes do campo Leatherneck, quartel dos 10.000 marines que operam na província de Helmand, entendem que é essencial tomar Marjah, assim como era essencial dominar Fallujah e Ramadi no Iraque. Contudo, eles também sabem - ou sabiam na ocasião da minha visita - que não tinham suficiente infantaria para alcançar esse objetivo. Eles tinham que se desdobrar apenas para consolidar as conquistas em cidades como Nawa.

A decisão do presidente Obama de enviar 30.000 soldados a mais para o Afeganistão muda a equação. Os primeiros reforços serão marines para Helmand - com um provável confronto em Marjah. Haverá batalhas difíceis à frente, assim como houve no último verão quando eles entraram em Nawa e em outros redutos do Taleban. Porém, com recursos e paciência suficientes, há poucas dúvidas que as tropas norte-americanas e seus aliados afegãos serão capazes de dominar áreas importantes do sul do Afeganistão que escaparam das mãos do governo.

A partir daí poderão começar o duro trabalho de construir a capacidade de administração do governo afegão - um processo que já começou em Nawa, onde o governador do distrito está trabalhando de perto com marines para fornecer serviços essenciais à população. Mercadores locais estão até tomando a iniciativa de puxar cabos de energia, antes inexistentes nesta comunidade empobrecida.

As questões que continuam sem resposta após a declaração do presidente na Academia Militar dos EUA em West Point: as tropas terão o tempo e os recursos necessários para vencer? Vencer foi uma palavra que Obama evitou. Ele citou seu antigo objetivo de "inutilizar, desmantelar e derrotar a Al Qaeda e seus aliados extremistas", mas disse que queria "quebrar o movimento do Taleban", em vez de derrotá-lo terminantemente. Ele quer "pôr fim a essa guerra com sucesso", mas não disse nada sobre vencer a guerra.

Tampouco ele endossou a construção da nação, apesar da única forma que o Afeganistão poderá ficar seguro é se construirmos um Estado capaz de policiar seu próprio território. Ele disse que "precisamos reforçar a capacidade das forças de segurança e o governo do Afeganistão", o que parece um pouco com construir a nação, mas ele também prometeu que não ia comprometer soldados sem data para voltar porque, disse: "A nação que estou mais interessado em construir é a nossa".

A parte mais problemática da política de Obama é sua promessa de começar uma retirada em julho de 2011. Levar 30.000 soldados para o Afeganistão é um desafio logístico difícil. Será uma grande conquista se todos eles estiverem lá até julho de 2010. Isso lhes dará apenas um ano para reverter muitos anos de ganhos do Taleban antes de seu próprio número voltar a cair. Isso pode ou não ser suficiente. O aumento do número de soldados no Iraque teve um grande impacto em um ano, mas os EUA tinham tido um engajamento anterior muito maior no Iraque do que no Afeganistão.

O bom de ter um prazo para terminar é que isso presumivelmente significa que vão nos poupar de mais uma agonizante análise da Casa Branca por pelo menos um ano. Isso não é pouco, dado que Obama revelou pela primeira vez uma estratégia para o Afeganistão no dia 27 de março e menos de seis meses depois lançou outra avaliação longa e pública.

A parte preocupante do prazo é que pode assinalar uma falta de resolução que dê força a nossos inimigos. Se o Afeganistão de fato é um "interesse nacional vital", como disse Obama, porque anunciar uma estratégia de saída? Talvez estivesse tentando evitar críticas de seus partidários liberais. Neste caso, não funcionou, mas preocupou quem defende o esforço de guerra, que deve continuar se perguntando qual é o nível de comprometimento do presidente.

Obama tentou tratar dessa preocupação dizendo: "Vamos executar essa transição com responsabilidade, levando em conta as condições em terra", sugerindo assim que talvez o prazo de julho de 2011 não seja tão firme afinal. Mas se não é um prazo real, porque mencioná-lo?

Essa é apenas uma de várias ambiguidades que Obama deve abordar nos próximos meses. Ele precisa manter o esforço de guerra diante dele, no centro de suas atenções, o que ele não fez após revelar sua anterior política para o Afeganistão, em março. Ele deve falar da importância de vencer - essa palavra ausente até agora - para animar as pessoas e romper a resistência do inimigo.

Apesar de todos os problemas do discurso em West Point, a política que anunciou é sólida. É essencialmente a estratégia que o general Stanely A. McChrystal e sua equipe de assessores desenvolveu neste verão para a contra-insurgência - outra palavra que Obama evitou, estranhamente. O presidente não está fornecendo tantos soldados quanto gostaria McChrystal, mas, com as contribuições de aliados, provavelmente haverá pessoal suficiente para garantir os principais centros populacionais.

Ao mesmo tempo, nossos soldados devem trabalhar para reforçar as forças de segurança afegãs. Outro elemento ausente no discurso de Obama foi a falta de comprometimento específico com a expansão das forças de segurança afegãs, mas ninguém duvida que essa é nossa única estratégia de saída responsável. Antes que os afegãos possam assumir a liderança, contudo, nossos soldados precisam conquistar os redutos mais fortes do inimigo. Esse processo começa em Marjah.

(Max Boot é professor de estudos de segurança nacional do Conselho de Relações Exteriores e editor do "The Weekly Standard". Ele é autor de "War Made New: Technology, Warfare, and the Course of History, 1500 to Today", ou "A guerra renovada: tecnologia, estratégias e o curso da história de 1500 até hoje". Atualmente está escrevendo uma história sobre guerrilhas.)

Tradução: Deborah Weinberg

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