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06/12/2009

Com forte apoio popular, Morales mantém a Bolívia no rumo da transformação

The New York Times
Simon Romero e Andres Schipani
Em La Paz (Bolívia)
Apesar das frases e pôsteres de Che Guevara, isto aqui não é a Havana de 1969, nem a Manágua de 1979. Em vez disso, o fervor nos escritórios do Vice-Ministério de Descolonização só poderia ser sentido na Bolívia do presidente Evo Morales, que parece rumar tranquilamente para uma vitória eleitoral neste domingo.

Os dizeres nas paredes daqui estão em duas línguas indígenas - quéchua e aimará - sinais inconfundíveis do movimento político que abalou as instituições deste empobrecido país.

"Jisk'a Achasiw Tuq Saykat Taqi Jach'a P'iqincha", diz a saudação no escritório de Monica Rey, que explica que este é o nome, em aimará, da nova unidade que ela chefia, o Diretorado para a Luta Contra o Racismo.

"Estamos no processo de conquistar as mentes de nosso país, e ainda mais desafiador que isso, os seus medos", disse Rey, listando uma variedade de novos projetos, incluindo a troca dos retratos nas cédulas do país. Saem os homens brancos que por muito tempo governaram o país, e entram heróis indígenas como Tupac Katari e Bartolina Sisa, líderes de uma revolta contra o domínio espanhol no século 18.

Evo Morales, presidente da Bolívia

  • Aizar Raldes/AFP

Com uma oposição bastante enfraquecida e sua conexão visceral com a maioria indígena - que corresponde a mais de 60% da população - pode-se dizer que Morales, 50, é o líder mais forte que o país tem em décadas.

Este ano, ele venceu facilmente uma reforma constitucional que o permitiu concorrer a outro mandato de cinco anos. Agora, enquanto os bolivianos se preparam para votar neste domingo, as pesquisas mostram que ele e seus aliados estão bem na frente. Morales tem a seu alcance sólidas maiorias legislativas que o permitiram moldar ainda mais o país na qualidade de presidente indígena aimará.

Mas esta mesma liderença rendeu a Morales alguns rivais que não esperava, além da oposição que ele enfrenta por parte das elites tradicionais nas planícies rebeldes do leste. A ampliação de sua influência também é sentida como opressiva por uma variedade de políticos indígenas que lutam para sair de sua sombra.

"Este governo exite para gastar dinheiro nas campanhas de Evo às custas de todos nós", disse Felipe Quispe, 67, índio aimará que entrou na política depois de liderar uma guerrilha nos anos 80 e ser preso nos 90. "Evo é um índio vestido com roupas elegantes, cercado por homens brancos e mestiços."

O icônico Quispe, que comanda um partido radical com uma pequena porcentagem de eleitores, disse que os aimará, que são cerca de um quarto da população de 9,8 milhões da Bolívia, deveriam rejeitar a própria ideia de Bolívia e formar uma terra natal com o povo que fala a língua aimará nos altiplanos do Peru. "Precisamos nos desbolivianizar", disse ele.

Ricardo Calla, antropólogo e ministro de assuntos indígenas em um governo anterior, disse que da mesma forma que Quispe ficou à esquerda do presidente, outros políticos indígenas emergiram em todo o campo ideológico, sugerindo uma classe política mais variada do que a apresentada pela mídia estatal daqui.

No centro, por exemplo, está Savina Cuellar, governadora de uma província no sul da Bolívia. À direita está Vyctor Hugo Cardenas, ex-vice-presidente cuja casa foi atacada por um grupo pró-Morales este ano. Mais à direita ainda, está Fernando Untoja, um intelectual aimará que concorre ao Congresso na coligação de Mandred Reyes Villa, um ex-capitão do exército que está em segundo lugar, bem distante de Morales.

"O próprio Evo", disse o antropólogo Calla, "poderia ser considerado como esquerda autoritária". Contribuindo para essa classificação, ele argumentou, está a resistência de Morales em cooperar com outros partidos, ameaças de prender oponentes e o elogio à sua administração numa propaganda paga pelo governo. Calla chamou a ostentação do governo quanto às conquistas de Morales de "um culto de personalidade" em formação.

O "Cambio", um jornal diário controlado pelo Estado criado por Morales este ano e semelhante ao Granma de Cuba, oferece um exemplo desse exibicionismo. Sua principal matéria do último domingo descrevia a localidade de Puerto Evo Morales, um assentamento pioneiro no norte. Um encarte de história em quadrinhos, "Evo: Do Povo Para o Povo", contava como Morales saiu da pobreza.

Há motivos concretos para a popularidade de Morales. O principal pode ser o crescimento sustentado da economia da Bolívia, que conseguiu aplausos dos economistas, impressionados com seu acúmulo de mais de US$ 7 bilhões (US$ 12 bilhões) de reservas em moeda, mesmo embora o país continue sofrendo com níveis persistentes de pobreza extrema.

Apesar da crise financeira e de uma queda nos rendimentos com a exportação de gás natural, estima-se que a economia da Bolívia tenha crescido até 4% este ano, uma das maiores taxas da região, ajudada pelo estímulo aos programas de bem-estar para crianças, mulheres grávidas e idosos.

"Até o FMI está feliz com a economia da Bolívia; imagine a ironia disso", disse Gonzalo Chavez, um economista boliviano formado em Harvard, referindo-se à crítica frequente de Morales sobre as instituições multilaterais de Washington, como o Fundo Monetário Internacional.

Ainda assim, a tensa relação diplomática entre Washington e Morales é uma das piores no hemisfério, mesmo com a chegada do governo Obama. A embaixada dos EUA aqui continua sem embaixador desde a expulsão de Philip S. Goldberg no ano passado, e operações antidrogas conjuntas foram interrompidas depois que Morales acusou o Departamento Antidrogas de espioná-lo.

Esta semana, ele deu uma entrevista coletiva para jornalistas estrangeiros na qual passou a maior parte do tempo criticando o acordo militar do governo Obama com a Colômbia e o apoio dos EUA à eleição presidencial em Honduras. E ele pareceu cético quanto à uma reconciliação, dizendo que um encontro com o presidente Barack Obama seria "desejável mas não decisivo".

A influência de Morales sobre a sociedade é evidente na cidade de Warisata, onde outro projeto, a Universidade Indígena Tupac Katari, estende-se entre os altiplanos do país.

O campus, com uma visão estonteante do pico Illampu, com seu cume nevado, enfatiza a instrução em aimará e ecoa os sentimentos do partido de Morales, o Movimento para o Socialismo. Colado numa porta, um informe diz que alunos e funcionários são obrigados a comparecer a um curso intensivo sobre o "Capital" de Karl Marx; sanções ameaçam aqueles que não comparecerem.

"O que a invasão europeia e o sistema colonial nos trouxe?", perguntou David Quispe, 37, que ministra um curso sobre a visão de mundo andina.

"A exploração capitalista e racista!", um grupo de alunos respondeu em uníssono, segurando o livro "Indian Thesis" de Fausto Reinaga.

"Aqui os jovens índios estão acostumados a ficarem quietos", disse Quispe depois da aula. "Esse é o momento de eles começarem a falar."

Tradução: Eloise De Vylder

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