UOL Notícias Internacional
 

07/12/2009

Para crianças africanas, ajuda às famílias é uma alternativa aos orfanatos

The New York Times
Celia W. Dugger
Em Mchinji District (Maláui)
O orfanato Home of Hope oferece a Chikodano Lupanga, 15, três refeições por dia, novos uniformes escolares, sapatos pretos discretos e uma boa educação.

Sua prima Jean, 11, também órfã, que recusou-se a ficar no orfanato e mora com sua irmã mais velha, não tem sapatos, usa roupas velhas e com frequência está de barriga vazia. Tendo repetido a terceira série pela terceira vez, Jean diz que se arrepende amargamente de não ter crescido no orfanato em que Madonna adotou um menino. Se tivesse ficado, ela sussurrou: "teria aprendido a escrever".

Num país tão desesperadamente pobre quanto o Maláui, as crianças colocadas em instituições são normalmente vistas como sortudas. Mas mesmo que os orfanatos tenham se espalhado por toda a África com doações de igrejas e associações beneficentes ocidentais, as famílias que cuidam da maioria dos órfãos do continente não receberam nenhuma ajuda, mostram as pesquisas domiciliares.
  • Moises Saman/The New York Times

    Garotas brincam no orfanato Home of Hope, onde vivem 653 crianças e adolescentes


Os pesquisadores agora dizem que a melhor forma de ajudar essas crianças sem recursos é com doações simples de dinheiro - US$ 4 a US$ 20 por mês num programa experimental em andamento no Maláui - dadas diretamente para as famílias pobres que pegaram as crianças. Este programa poderia fornecer doaçõess para oito famílias que cuidam de cerca de duas dúzias de crianças com os cerca de US$ 1.500 por ano que custa cuidar de uma só criança no orfanato Home of Hope, estima Candance M. Miller, professor da Universidade de Boston e um dos pesquisadores líderes do projeto.

Especialistas e defensores das crianças sustentam que os orfanatos são caros e com frequência são prejudiciais às crianças por separá-las de suas famílias. A maioria das crianças que vivem em instituições no mundo todo tem um dos pais vivos ou algum parente próximo, e elas normalmente entram nos orfanatos por causa da pobreza, de acordo com novos relatórios da Unicef e da organização Save the Children.

"Como há dinheiro nos orfanatos, as pessoas criam mais orfanatos e colocam as crianças lá dentro", diz o Dr. Biziwick Mwale, diretor-executivo da Comissão Nacional para Aids do Maláui.

O fundador do Home of Hope, reverendo Thomson Chipeta, 80, diz que as crianças precisavam do orfanato porque suas famílias eram muito pobres. "Se as crianças podem ter o privilégio de viver numa casa como esta, é muito melhor", disse ele.

A organização beneficente de Madonna, Raising Malawi, paga a maior parte do orçamento operacional do Home of Hope e também apoia centros comunitários onde órfãos que continuam com suas famílias podem ir para se alimentar e obter serviços, disse o diretor-executivo da organização, Philippe van den Bossche. Ele disse que os orfanatos não são a melhor solução, mas que são necessários quando as famílias não podem ou não querem cuidar das crianças.

No vídeo de Madonna sobre os órfãos da Aids no Maláui, "I Am Because We Are", ela diz que se sentiu atraída pelo país quando ficou sabendo que essas crianças "estavam por todos os lados, morando nas ruas, dormindo sob pontes, escondendo-se em prédios abandonados, sendo raptadas e estupradas."

Mas em toda a África, os dados demográficos mostram que mesmo as famílias mais pobres normalmente assumem a criação das crianças cujos pais morreram. E embora a Aids tenha piorado a crise dos órfãos na África, a Organização das Nações Unidas recentemente estimou que entre as 55,3 milhões de crianças da África subsaariana que perderam pelo menos um dos pais, 14,7 milhões foram por causa da Aids.

A Joint Learning Initiative on Children and HIV/AIDS, que reuniu dezenas de especialistas internacionais para rever centenas de estudos, endossou fortemente este ano os programas que dão um apoio financeiro modesto às famílias mais pobres, incluindo programas de transferência de dinheiro com o do Maláui.

Mais de um bilhão de dólares em ajuda internacional foi gasto durante os últimos cinco anos com órfãos e crianças vulneráveis, mas alguns dos principais doadores não podem especificar como suas contribuições foram gastas. Os pesquisadores dizem que os doadores precisam eliminar os programas ineficazes e mal concebidos, examinando aqueles que são administrados por organizações não governamentais internacionais e que dependem de voluntários nos vilarejos para fazerem o trabalho.

"Uma quantidade enorme de dinheiro vai para esses esforços, com muito pouco retorno", diz Linda Richter, que administra programas voltados para as crianças no Conselho de Pesquisa em Ciências Humanas da África do Sul.

Aqui em Maláui, centenas de grupos comunitários receberam pequenas doações para abrir pequenas empresas e devem doar todo o lucro para órfãos. Pauline Peters, antropóloga da Universidade de Harvard, e Susan Watkins, socióloga da Universidade da Pensilvânia, que fez anos de trabalho de campo independente nos vilarejos de Maláui, diz que os órfãos receberam poucos benefícios em relação aos milhões que foram gastos.

"Os doadores têm fantasias sobre como as coisas funcionam - acreditam que podem mobilizar os moradores para cuidar de crianças que não são deles, sem pagar para que eles o façam", disse Watkins.
  • Moises Saman/The New York Times

    Crianças almoçam no orfanato Home of Hope, onde recebem três refeições por dia


Em Kandikiti, onde a mora a família de Jean Lupanga, um grupo de 20 moradores recebeu uma doação de US$ 4 mil no ano passado para aplicar numa fazenda de porcos para ajudar os órfãos. O grupo comprou nove porcos de raça, construiu para eles uma moradia melhor do que a da maioria da população e colocou voluntários para vigiá-la vinte e quatro horas por dia. Eles também compraram 10 bicicletas, vacinas para os porcos, pagaram seus membros e fizeram treinamentos.

Mais de um ano depois, eles não venderam nenhum dos porcos brancos, de orelhas caídas, de origem europeia. Num vilarejo em que os porcos locais imundos passeiam livremente entre as cabanas, a líder do grupo fez silêncio quando questionada sobre quem poderia pagar por um porco tão caro.

"Nós nunca fizemos isso antes", disse Selina Sakala, 47, presidente da Mmasomuyere Orphan Care.

O experimento de transferência de dinheiro de Maláui, financiado pelo Fundo Global de Luta contra a Aids, Tuberculose e Malária e apoiado pela Unicef, ajuda diretamente as famílias pobres que cuidam de muitas crianças ou que não têm nenhuma adulto em condições físicas de trabalhar. As crianças cujas famílias receberam as doações estavam saudáveis, melhor nutridas e tinham mais chances de ir à escola do que as crianças de famílias que não receberam as doações, de acordo com uma pesquisa randômica feita na comunidade pela Universidade de Boston e a Universidade do Maláui e financiada pela Unicef e o governo dos EUA.

Miller disse que o programa teve "inúmeros benefícios", mas alertou que o país precisa de mais salvaguardas para evitar a corrupção e a fraude no futuro.

Multidões de malauianos se reuniram recentemente sob a sombra de algumas árvores para receber o dinheiro. Muitos avós haviam caminhado quilômetros de pés descalços, tão rachados e ressecados quanto a terra. Funcionários sentados em cadeiras de plástico checavam as carteiras de identidade com foto. Os que não sabiam ler ou escrever deixavam sua digital, e então colocavam as cédulas preciosas na costura da saia ou as enfiavam no bolso.

Famílias que coletam as doações há um ano ou dois dizem que elas fizeram uma diferença. Velenasi Jackson gasta os US$ 20 que recebe todos os meses em alimentos básicos e roupas para os dez netos órfãos que compartilham seu casebre de barro de dois cômodos no vilarejo de Nyoka. Eles não passam mais dias sem ter nada para comer, disse ela.

"Uma doação nunca é pequena demais", disse.
  • Moises Saman/The New York Times

    Mulheres que cuidam de órfãos em suas famílias aguardam para receber sua ajuda financeira mensal na vila de Pinda, Maláui. A experiência é financiada pelo Fundo Global de Combate à AIDS, Tuberculose e Malária, e apoiada pelo Unicef


Aqui no Distrito Mchinji, o Home of Hope cuida de 653 crianças, de bebês a adolescentes. Seu fundador, Chipeta, apoiando-se numa bengala de madeira entalhada à mão, mostrou todas as construções numa visita à propriedade e citou com orgulho os nomes dos doadores que pagaram por elas. Entre eles, estavam igrejas e indivíduos dos Estados Unidos, Canadá, Grã-Bretanha, Holanda, Coreia do Sul e Alemanha.

Numa carta que Chipeta entrega aos visitantes, ele diz que o orfanato precisa das orações, do amor e do apoio destes - com a frase "Veja Nosso Orçamento" entre parênteses.

Chikodano Lupanga mora no orfanato desde os seis anos. Enelesi Chiduka, 59, que toma conta da casa onde vive Chikodano, diz que é responsável por cuidar de 80 meninas, certificando-se que elas tomem banho duas vezes ao dia, compareçam às orações diárias e façam suas tarefas.

Quieta e séria, Chikodano diz que sua família jamais poderia pagar para mandá-la para o colegial ou para oferecer uma dieta que inclui frango e peixe. "Tenho muitos amigos, e as coisas que eu não teria em casa, tenho aqui - mensalidades escolares, roupas, sapatos", diz ela.

Há nove anos, a prima de Chikodano, Alice, agora com 31 anos, levou ela e Jean para o Home of Hope. Chikodano ficou quieta, mas Jena, com apenas dois ou três anos de idade e profundamente ligada à irmã mais velha, chorou inconsolável e ficou com Alice. A família começou a receber recentemente a doação em dinheiro, mas é muito cedo para perceber uma grande mudança.

Jean, uma menina tímida e expressiva com o rosto em forma de coração, vive a vida comum árdua das crianças pobres da África rural. Ela busca água, mói o milho e cozinha em fogueiras fumacentas. Da última vez que a vi, ela estava esfregando o filhinho de Alice com a água ensaboada do poço, derramada por um balde de plástico.

Tradução: Eloise De Vylder

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