UOL Notícias Internacional
 

08/12/2009

Suspeito de Chicago é indiciado pelos ataques em Mumbai de 2008

The New York Times
Ginger Thompson e David Johnston Em Washington (EUA)
Um americano no centro de uma investigação internacional de terrorismo foi indiciado por ajudar a tramar os ataques em Mumbai, Índia, em 2008, que resultaram em 173 mortos, segundo o indiciamento feito pelo Departamento de Justiça e divulgado na segunda-feira.

David C. Headley, de Chicago, é acusado de ajudar a identificar alvos para um grupo terrorista paquistanês chamado Lashkar-e-Taiba, cujos dois dias de ataques contra hotéis de luxo, um restaurante popular, um centro comunitário judaico e uma estação de trem lotada pararam a capital financeira da Índia e chocaram o mundo. O indiciamento descreve as repetidas visitas de Headley para reconhecimento dos locais.

As acusações, incluindo seis por conspiração para atentados a bomba contra locais públicos e assassinato, expandiram significativamente o caso do governo contra Headley, 49 anos. E seu perfil -ele tem raízes nos Estados Unidos e elos com o alto escalão do governo e forças armadas do Paquistão- o tornam um suspeito de terror altamente incomum.

Headley foi preso em outubro, juntamente com outro morador de Chicago, Tahawwur Rana, e acusados de tramar um ataque contra o jornal dinamarquês que, em 2005, publicou charges do Profeta Maomé, que ultrajaram grande parte do mundo muçulmano. As autoridades alegam que entre os conspiradores estava Ilyas Kashmiri, considerado pelas autoridades ocidentais como sendo um dos mais perigosos militantes islâmicos que operam nas rebeldes áreas tribais do Paquistão.

Desde sua prisão, Headley tem cooperado com as autoridades. Essa assistência, juntamente com novas pistas das autoridades no Paquistão e na Índia, além de um exame das mensagens de e-mail entre Headley e outros suspeitos nos planos, levou a novos indiciamentos envolvendo os ataques em Mumbai, disseram as autoridades.

Funcionários do Departamento de Justiça também anunciaram na segunda-feira o indiciamento de um major aposentado das forças armadas paquistanesas, Abdur Rehman Hashim Syed, no plano de ataque ao jornal. Mas os documentos apresentados à Justiça alegam que Rana, um cidadão canadense que opera várias empresas em Chicago e Toronto, ajudou Headley a obter os documentos e álibi que precisava para viajar à Índia sem levantar suspeita.

Um advogado de Headley se recusou a comentar. O advogado de Rana não pôde ser contatado. As autoridades se recusaram a dizer se Rehman estava em custódia no Paquistão, citando as tensões diplomáticas causadas pelo caso nos Estados Unidos, Índia e Paquistão.

No indiciamento, os promotores dizem que Headley recebeu treinamento do Lashkar-e-Taiba, que se dedica a por fim ao domínio indiano sobre a Caxemira, em várias ocasiões de fevereiro de 2002 a dezembro de 2003. Após ser instruído pelo grupo a conduzir um levantamento em Mumbai, diz o indiciamento, ele fez cinco viagens para lá, de 2006 a 2008. Em todas as ocasiões ele tirou fotos e gravou vídeos de vários alvos, incluindo o Taj Mahal Hotel, o Oberoi Hotel, o Leopold Cafe, a Nariman House e uma estação de trem em Mumbai.

Em abril de 2008, Headley também realizou um levantamento de locais no porto de Mumbai e arredores, à procura de um local seguro para o desembarque dos agentes do Lashkar. Após as visitas, ele viajou ao Paquistão e entregou suas fotos e outros materiais para seus contatos.

Sete meses depois, pelo menos 10 homens desembarcaram no porto em dois botes infláveis e atacaram a cidade com granadas e rifles de assalto. Cerca de 170 pessoas morreram, incluindo seis americanos. Centenas ficaram feridas.

As autoridades federais disseram que o caso contra Headley ressalta a ameaça potencial de cidadãos americanos poderem usar sua capacidade de viajar facilmente para apoiar essas tramas.

O secretário-assistente de Justiça para segurança nacional, David Kris, disse: "Este caso serve como um lembrete de que a ameaça terrorista é global em sua natureza e exige vigilância constante em casa e no exterior".

William Headley, o tio do suspeito, reagiu com choque às acusações na segunda-feira. "É como se você estivesse me dizendo que meu sobrinho está sendo acusado pelo 11 de Setembro", disse Headley em uma entrevista. "É como despejar água fria dentro de mim. Ele já esteve em apuros antes, mas pensávamos que algo assim estava longe de seu caráter."

David Headley, o filho de um ex-diplomata paquistanês e de uma socialite americana da Filadélfia, nasceu em Washington e foi criado entre a elite no Paquistão, onde frequentou um rígido colégio militar. Seus pais se divorciaram quando ele era pequeno.

Aos 17 anos, ele chegou aos Estados Unidos para viver com sua mãe de espírito livre, cujo estilo de vida entrou em choque com sua disciplinada criação muçulmana.

Amigos e um parente disseram que Headley abandonou a faculdade e se envolveu em problemas. Em 1998, ele foi condenado por contrabando de heroína para os Estados Unidos, mas evitou uma longa pena de prisão ao cooperar com as autoridades. Ele posteriormente participou de operações secretas da Drug Enforcement Administration, a agência americana de combate às drogas, no Paquistão.

Em 2006 ele se mudou para Chicago, onde ele tem uma esposa e filhos. Mas ele perdeu contato com a maioria dos membros da família, disseram os parentes. Não se sabe se ele tem contato com um meio-irmão, Daniel Gilani, que é um porta-voz do primeiro-ministro do Paquistão.

Nos últimos meses, Headley enviou mensagens de e-mail para antigos colegas de classe de sua escola militar defendendo o terrorismo.

As autoridades disseram que Headley usou seu nome de nascença, Daood Gilani, até 2005, quando o Lashkar-e-Taiba o recrutou para procurar alvos para o ataque em Mumbai. Foi aí que ele mudou seu nome -David é Daood em inglês- para retratá-lo de forma mais convincente como americano para facilitar suas viagens ao exterior, disseram as autoridades.

Headley não comparece ao tribunal desde sua prisão. Rana compareceu para uma audiência de fiança na semana passada, onde seu advogado apresentou testemunhas para ajudar a sustentar seu argumento de que Rana era um empresário inocente que foi enganado.

O advogado de Rana, Patrick Blegen, disse que seu cliente não tinha conhecimento de nenhum plano terrorista e não usou sua firma de consultoria de imigração, como alegam os promotores, como fachada para a conspiração.

Ele disse que Rana sabia que Headley tinha recebido treinamento do Lashkar-e-Taiba, mas não que estava envolvido nos ataques em Mumbai. Ele disse que os DVDs e outros materiais de propaganda encontrados na casa de Rana, exigindo vingança contra o jornal dinamarquês, pertenciam a Headley.

Blegen argumenta que Rana não defende a violência, dizendo que ele foi membro da Sociedade Iqbal, que promove a mudança por meios legais e não-violentos.

"É como ser membro de um sociedade de Gandhi", disse Blegen. Então, referindo-se às acusações contra Rana, ele acrescentou: "São completamente inconsistentes".

*Emma Graves Fitzsimmons, em Chicago, contribuiu com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    12h29

    1,65
    3,311
    Outras moedas
  • Bovespa

    12h31

    -2,55
    61.041,80
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host