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09/12/2009

Iraque marca data para eleição enquanto bombas em Bagdá matam mais de cem

The New York Times
Steven Lee Myers e Marc Santora* Em Bagdá (Iraque)
Uma série de carros-bomba devastou instituições públicas por toda a Bagdá na terça-feira, provocando condenações públicas e políticas ao primeiro-ministro do país e às forças de segurança que ele supervisiona. Os ataques ocorreram enquanto as autoridades finalmente chegavam a um acordo para a data da eleição nacional, que será em março.
  • Sabah Arar/AFP

    Coluna de fumaça é vista em Bagdá, onde ocorreu uma série de atentados na terça-feira (8)

Os atentados, um ataque coordenado contra a capital, acentuaram uma convergência preocupante de política e violência, que as autoridades americanas e iraquianas há muito alertavam que poderia manchar a eleição do país. A votação, originalmente marcada para janeiro, foi adiada pelas disputas étnicas e sectárias resolvidas há apenas dois dias.

Cinco bombas, pelo menos três detonadas por suicidas, atingiram um tribunal, duas escolas, uma mesquita e um banco. Elas criaram caos por toda a cidade, fechando bairros inteiros, sobrecarregando a polícia e as equipes de resgate, além de lotar os hospitais com os feridos. Em um, uma mulher com o cabelo queimado e o pescoço ensanguentado agonizava enquanto seu filho morria em um corredor.

Pelo menos 121 pessoas morreram e mais de 400 ficaram feridas, segundo a polícia e representantes dos hospitais.

A intenção dos ataques talvez fosse a de minar a capacidade básica do governo de funcionar e, ao menos em parte, foram bem sucedidos. Duas instituições do governo atingidas na terça-feira, o Ministério das Finanças e um tribunal de apelações, tinham sido transferidos recentemente para novos prédios, após ataques semelhantes terem destruído suas antigas sedes em agosto e outubro.

Muitas vítimas, em meio aos escombros e carnificina, culpavam o exército e a força policial do Iraque, que assumiram a responsabilidade pela segurança após a retirada das forças americanas das cidades. Elas também associaram os ataques à disputa política em torno da eleição. "Nós somos amaldiçoados?" gritava uma mulher jovem perto da mesquita que foi atingida em Qahira, no nordeste de Bagdá. Ela tinha queimaduras em seus braços e pernas. "Quando acabará esse assunto da eleição?" Os candidatos potenciais culparam as forças de segurança e o governo por novamente fracassarem em proteger o coração de Bagdá.

Os ataques foram os piores em Bagdá desde os atentados suicidas que destruíram três instituições do governo em 25 de outubro, matando pelo menos 155. Eles se encaixam em um padrão de ataques espetacularmente letais na capital, seguidos por semanas de relativa calma. Em agosto, dois carros-bomba atingiram os ministérios das Finanças e das Relações Exteriores do país, matando pelo menos 122. Esses ataques se tornaram conhecidos como Domingo Sangrento e Quarta-Feira Sangrenta, respectivamente. As autoridades e os iraquianos comuns prontamente adicionaram o adjetivo também à terça-feira. "Nós só podemos esperar que nem todos os dias se tornarão sangrentos", declarou Wathab Shakir, um legislador sunita, durante uma sessão tumultuada do Parlamento, convocada horas após o ataque.

Os atentados ressaltaram a incapacidade das forças de segurança do Iraque de deter ataques cuidadosamente orquestrados, apesar de grande presença de barreiras que pontuam cada grande rua em Bagdá.
  • Hadi Mizban/AP

    Policial observa carros atingidos por atentados, próximo ao Ministério das Finanças, em Bagdá



Nenhum dos dezenas de legisladores que criticavam no Parlamento expressou alguma confiança na segurança do Iraque, uma rara demonstração de unidade apesar de todas as divisões políticas e sectárias.

A sessão incluiu pedidos de renúncia de altos comandantes militares e policiais, particularmente do chefe do Comando de Operações de Bagdá, o general Aboud Qanbar, nomeado pelo primeiro-ministro Nouri Kamal al Maliki. "O governo iraquiano tem grande parte de responsabilidade pelos atentados de hoje e os do passado, por causa de sua negligência", disse Hassan al Shimary, um membro do Parlamento do Fadhila, um partido que formou uma coalizão xiita para desafiar Al Maliki na próxima eleição.

As explosões começaram logo após as 10h da manhã e reverberaram por toda a cidade nos 50 minutos que se seguiram, lançando enormes nuvens de fumaça preta ao céu. A primeira ocorreu em Dora, no sul de Bagdá, quando um terrorista suicida detonou seu carro enquanto passava por uma patrulha policial perto da entrada de uma escola profissionalizante.

Pelo menos nove pessoas morreram lá, incluindo três policiais. Pelo menos 31 outras foram hospitalizadas, muitas delas estudantes. Vidro quebrado, pedaços de corpos, sangue e esgoto cobriam a rua.

Um dos ataques mais mortais atingiu a sede do banco Rafaidyan no centro, para onde muitos funcionários do Ministério das Finanças tinham sido transferidos após a destruição do prédio do ministério em um atentado em agosto. Dezenas morreram ali, apesar das autoridades não terem um número exato.

"O responsável queria números", disse o capitão Saif al Dairi, da Polícia Federal, no local em Dora. "Ele queria matar o máximo de pessoas possível."

Helicópteros americanos e aeronaves não-tripuladas de vigilância circulavam pela cidade logo após, quando ocorreram disparos esporádicos de armas de fogo. Os soldados americanos, incluindo especialistas em explosivos, se juntaram às forças de segurança iraquianas na resposta aos ataques, disse um porta-voz das forças armadas, o major Joseph E. Scrocca, em uma declaração.

Nos ataques em agosto e outubro, as forças iraquianas mantiveram os americanos a certa distância, permitindo que exercessem um papel mínimo e tardio.

Outra bomba atingiu uma instalação no oeste de Bagdá, que incluía as novas repartições do tribunal federal de apelações. Um terrorista suicida lançou seu carro contra a principal barreira de fiscalização que levava à instalação e detonou os explosivos escondidos em seu interior. O Instituto de Arte da cidade, vizinho do tribunal, também foi atingido; os estudantes de arte que deixavam o prédio estavam cobertos em poeira e sangue.

"Eles pareciam como se tivessem acabado de se erguerem do túmulo", disse Haydar Mohsin, um transeunte.

O escritório de um ex-primeiro-ministro, Ayad Allawi, fica localizado a menos 300 metros da explosão. Suas janelas foram quebradas e suas portas arrancadas das dobradiças.

Uma porta-voz de Allawi, que anunciou uma coalizão política com um importante líder secular sunita, Saleh al Mutlaq, divulgou uma declaração condenando o fracasso do governo de Al Maliki de deter esses ataques. "O governo sempre forma comitês de investigação após cada explosão, mas que não dão em nada", disse a porta-voz.

Maliki culpou o Partido Baath e a Al Qaeda na Mesopotâmia, como fez após os atentados em agosto e outubro.

"O momento desses ataques terroristas covardes que ocorreram hoje em Bagdá, após o Parlamento ter superado com sucesso o último obstáculo para a realização das eleições, confirma que os inimigos do Iraque e de seu povo desejam criar o caos no país, bloqueando o progresso político e adiando as eleições", disse Al Maliki em uma declaração.

As eleições, amplamente vistas como um teste do progresso político do país, será apenas a segunda desde a invasão americana em 2003 que derrubou Saddam Hussein. Mas até mesmo na decisão da data ocorreu certa discórdia. O governo disse inicialmente que a votação seria realizada em 6 de março, então mudou para 7 de março, após uma queixa dos curdos.

*Anwar J. Ali, Saad al Izzi, Mohammed Hussein, Riyadh Mohammed, Mohammed al Obeidi e funcionários do "New York Times" contribuíram com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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