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10/12/2009

Paquistão detém cinco americanos ligados a militantes terroristas

The New York Times
Scott Shane* Em Washington (EUA)
Cinco jovens muçulmanos americanos dos subúrbios de Washington, que desapareceram no final do mês passado, foram detidos no Paquistão na quarta-feira, durante uma batida policial em uma casa ligada a um grupo militante, disseram autoridades americanas e paquistanesas.

Um dos jovens deixou para trás um vídeo de 11 minutos convocando a defesa dos muçulmanos em conflitos com o Ocidente e sugerindo que "os jovens muçulmanos precisam fazer algo", disse uma pessoa que assistiu ao vídeo, o descrevendo como uma espécie de despedida. Outra autoridade que assistiu ao vídeo o chamou de "perturbador", apesar de ter dito que não era um vídeo de martírio, do tipo às vezes feito pelos extremistas que planejam ataques suicidas.

Os cinco jovens foram detidos em uma casa em Sargodha, na província do Punjab, que era ocupada por Khalid Farooq, o pai de um dos cinco jovens, Umer Farooq, segundo uma autoridade familiarizada com o caso. O Farooq mais velho supostamente tem laços com o Jaish-e-Muhammad, um grupo militante paquistanês fora-da-lei, disse a autoridade. Relatos na imprensa paquistanesa também diziam que as autoridades ligaram a casa ao grupo militante.

Os jovens, variando em idade de adolescentes a 20 e poucos anos, não foram acusados de nenhum crime; a intenção deles permanece misteriosa e tanto as autoridades americanas quanto paquistanesas enfatizaram que ainda estão reunindo os fatos. Um dos jovens, Ramy Zamzam, 22 anos, é um estudante de odontologia da Universidade Howard, onde ele recebeu grau universitário neste ano em biologia e química, segundo sua página no Facebook.

Mas o desaparecimento deles e reaparecimento no Paquistão ocorreu em meio à crescente preocupação nos Estados Unidos com um surto de casos de terrorismo que parecem ser de origem doméstica.

Nihad Awad, diretor executivo nacional do Conselho de Relações Americanas-Islâmicas, um grupo de defesa que está trabalhando com as famílias dos jovens, alertou contra conclusões apressadas a respeito do episódio durante uma coletiva de imprensa em Washington, juntamente com outros líderes muçulmanos.

Mas Awad, que disse ter visto o vídeo, e os outros líderes disseram que o caso - juntamente com o recente recrutamento de jovens somalis-americanos em Minnesota por um grupo violento na Somália - sugere que pelo menos um pequeno número de jovens americanos muçulmanos estão sendo atraídos pelas posições extremistas. Eles prometeram iniciar uma campanha nacional para combater essas posturas.

Os cinco jovens, cuja maioria se conhecia de sua mesquita em Alexandria, Virgínia, desapareceram de seus lares no final de novembro, disseram as autoridades. Parentes preocupados contataram os imãs locais e o Conselho de Relações Americanas-Islâmicas (CRAI).

Representantes do grupo se encontraram com as famílias em 1º de dezembro e os colocaram em contato com o FBI no mesmo dia, disse Ibrahim Hooper, um porta-voz do grupo.

Hooper disse que nem a mesquita - o Centro ICNA (sigla em inglês para Círculo Islâmica da América do Norte, ao qual é associado) - e nem as famílias na Virgínia apoiam o extremismo ou a violência. "A comunidade muçulmana tomou a iniciativa de apresentar este caso às autoridades", disse Hooper.

O Departamento de Justiça, em uma declaração, disse que o FBI "está trabalhando com as famílias e as autoridades locais para investigar os estudantes desaparecidos e está ciente dos indivíduos presos no Paquistão".

Ele prosseguiu: "Nós estamos trabalhando com as autoridades no Paquistão para determinar suas identidades e a natureza de seus negócios lá, se de fato estes são os estudantes desaparecidos".

As autoridades americanas e paquistanesas disseram que os cinco jovens voaram do Aeroporto Internacional de Dulles, nos arredores de Washington, e pousaram em Karachi, Paquistão, em 1º de dezembro, o dia em que suas famílias contataram o FBI. Eles viajaram para Hyderabad, Paquistão, e então para Lahore, onde passaram cinco dias antes de seguirem para Sargodha.

Após o pedido de assistência pelo FBI, as autoridades de segurança paquistanesas rastrearam os jovens até a casa de Farooq, onde foram levados sob custódia na quarta-feira, disseram as autoridades. Além de Umer Farooq, dois outros jovens -citados pela imprensa paquistanesa como sendo Ahmed Abdullah e Wakar Khan- foram descritos pelas autoridades como sendo de descendência paquistanesa. A família de Zamzam é egípcia, e um quinto jovem, Aman Yasser, é de descendência iemenita, segundo uma autoridade. Alguns deles nasceram no exterior, mas todos agora são cidadãos americanos, disseram autoridades americanas.

Velhos amigos de Zamzam pareciam incrédulos com a notícia de que ele tinha sido detido no Paquistão. Zohra Alnoor, uma estudante da Faculdade Comunitária do Norte da Virgínia, conheceu Zamzam há dois anos por meio da Associação dos Estudantes Islâmicos do Conselho do Distrito de Colúmbia, uma organização que une as faculdades da área de Washington. Zamzam ajudou a organizar e competiu em um concurso anual de perguntas e respostas sobre textos e assuntos islâmicos, ela disse.

"Ele era muito devoto, ele não saía com mulheres", ela disse. Mas ela disse que não se recordava dele expressando fortes crenças políticas.

Zamzam mora com seus pais e um irmão mais novo em um apartamento de porão em Alexandria, Virgínia. O irmão, que disse que ele atende pelo apelido de Zam, disse em uma entrevista que Zamzam "é um cara legal. Uma pessoa comum". Ele disse que seu irmão tinha boa notas e queria se tornar um dentista.

Um vizinho do andar de cima, Peter Max-Jones, 16 anos, disse que Zamzam é "muito inteligente, muito gentil, muito prestativo. Um bom cidadão em todos os sentidos". Ele disse que a família de Zamzam é "muito patriótica, muito discreta".

Ele acrescentou: "Eles nunca saem. Estão sempre em casa, estudando".

Há um ano, em uma mensagem no Facebook para uma mulher que questionava a necessidade das mulheres cobrirem suas cabeças e rostos, uma pessoa que se identificava como Zamzam respondeu dizendo que o Alcorão "instrui claramente as mulheres crentes a se cobrirem", acrescentando que "ai daquelas que não, no dia do juízo".

No Centro ICNA em Alexandria, que ocupa um modesto prédio de tijolos sem placa, no limite de um bairro residencial, a maioria das pessoas que chegavam para orar na noite de quarta-feira se recusava a comentar.

Um homem que não quis dizer seu nome reconheceu que conhecia alguns dos jovens e os descreveu como não sofisticados.

"Eles nem mesmo sabem quanto custa uma cerveja", disse o homem.

Segundo documentos postados na Internet, Zamzam liderou um esforço no ano passado de jovens muçulmanos, associados ao Centro ICNA, para arrecadar dinheiro para a construção de uma nova mesquita. O plano era persuadir 500 mesquitas por todos os Estados Unidos a doarem US$ 500 cada, com Zamzam e 16 outros ativistas batizando o esforço de Projeto 500.

"Nós esperamos inspirar os jovens muçulmanos por toda a América a agirem e como nós podemos fazer com que as coisas aconteçam, provando que somos o futuro desta Ummah (comunidade) muçulmana", dizia a declaração no agora desativado site do Projeto 500. O site não exibe nenhum indício de radicalismo.

*David Johnston, Mark Mazzetti, Eric Lichtblau, Jodi Kantor, Ashley Parker, Ashley Southall, Bernie Becker e Barclay Walsh, em Washington, contribuíram com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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