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11/12/2009

Ao aceitar o Nobel da Paz, Obama oferece 'dura verdade'

The New York Times
Jeff Zeleny* Em Oslo (Noruega)
O presidente Barack Obama usou seu discurso ao aceitar o Prêmio Nobel da Paz, na quinta-feira, para defender a ideia de que algumas guerras são necessárias e justas, para lembrar ao mundo do fardo que os Estados Unidos carregaram na luta contra a opressão e para apelar para maiores esforços internacionais pela paz.
  • Kevin Lamarque/Reuters

    O presidente dos EUA, Barack Obama, exibe medalha e certificado do prêmio Nobel da Paz ao lado do presidente do comitê do Nobel, Thorbjorn Jagland, durante cerimônia em Oslo (Noruega)

"Nós temos que começar a reconhecer a dura verdade: nós não erradicaremos os conflitos violentos em nossa existência", disse Obama, ao abordar o paradoxo de receber um prêmio pela paz na condição de um comandante-em-chefe de um país envolvido na escalada da guerra no Afeganistão, e que também continua lutando no Iraque. "Haverá momentos em que as nações - agindo de forma individual ou orquestrada - considerarão o uso da força não apenas necessário, mas moralmente justificado."

Ele apresentou uma mistura de realismo e idealismo, criticando implicitamente tanto o reverendo Martin Luther King como ingênuo a respeito de um mundo perigoso quanto o ex-presidente George W. Bush como rápido demais em abandonar valores americanos fundamentais na busca pela segurança. E abraçou o conceito do excepcionalismo americano, a ideia de que os Estados Unidos têm um papel especial como defensores da liberdade, mesmo enquanto ele promove o multilateralismo.

Dessa forma, ele deu continuidade ao padrão evidente por toda sua carreira pública, de favorecer o pragmatismo acima de absolutos.

O discurso - feito para uma plateia europeia que está se tornando cética a respeito do poder americano e para uma plateia doméstica que observava atentamente para ver como ele lidaria com a aceitação de um prêmio que mesmo ele reconheceu que ainda não merecia - representou uma das declarações mais amplas de sua doutrina de política externa. Ele disse que outros mereciam mais o prêmio, notando que suas "realizações são mínimas", mas aceitou o prêmio como sendo um forte endosso à posição dos Estados Unidos no mundo.

Outros seriam mais qualificados para ganhar o Nobel da Paz, diz Barack Obama



"Sejam quais forem os erros que cometemos, o fato é este", disse Obama. "Os Estados Unidos da América ajudaram a manter a segurança global por mais de seis décadas com o sangue de nossos cidadãos e com a força de nossas armas."

O discurso de 36 minutos, que o presidente e seus assessores concluíram no voo de Washington, apresentou ecos de vários presidentes americanos, de Jimmy Carter a Bush, mas ele destacou um acima de todos: John F. Kennedy.

Obama citou o foco de Kennedy "não em uma revolução repentina da natureza humana, mas em uma evolução gradual nas instituições humanas". Ele pediu por sanções internacionais mais robustas contra países como o Irã e a Coreia do Norte, que desafiam as exigências para que restrinjam seus programas nucleares.

Semanas após ser criticado por não falar mais publicamente em defesa dos direitos humanos enquanto estava na China, ele sugeriu que a diplomacia discreta às vezes é o caminho mais produtivo, mesmo quando "carece da pureza satisfatória da indignação".

A cerimônia foi o ponto central de uma série de eventos celebrando o ingresso de Obama nas fileiras dos ganhadores do Nobel.

Na noite de quinta-feira, o presidente e sua esposa, Michelle, apareceram em uma janela do Grand Hotel, acenando para milhares de pessoas abaixo reunidas para uma parada à luz de tochas.

Trombetas soaram quando Obama caminhou pelo longo corredor do auditório para fazer seu discurso. O presidente estava acompanhado de sua esposa, que tomou seu assento na primeira fila, antes dele assumir sua posição no palco, diante do rei e rainha da Noruega.

O presidente do Nobel, Thorbjorn Jagland, abriu a cerimônia explicando como o comitê chegou à decisão dois meses atrás. Ele disse que a liderança de Obama foi "um chamado à ação para todos nós". Ao invocar a história de King, o ganhador do prêmio em 1964, ele se voltou para Obama, dizendo: "O sonho do dr. King se realizou".

Obama apertou os lábios e agradeceu gentilmente com a cabeça enquanto a plateia aplaudia. Quando lhe foram entregues sua medalha de ouro e o diploma Nobel, ele foi aplaudido de pé por mais de um minuto. A plateia não se levantou novamente até a conclusão de seus comentários.

O discurso de Obama foi sóbrio, com seus comentários interrompidos apenas ocasionalmente por aplausos. Ele foi aplaudido quando renovou seu apelo à proibição da tortura e fechamento da prisão na base americana em Guantánamo, Cuba.

"Nós nos perdemos quando comprometemos os próprios ideais que lutávamos para defender", disse Obama. "E honramos esses ideais ao mantê-los não quando é fácil, mas sim quando é difícil."

Para a plateia europeia de acadêmicos, diplomatas e ganhadores do Nobel, Obama disse que havia "uma profunda ambivalência atualmente a respeito da ação militar", que ele disse suspeitar que ela está enraizada na "suspeita automática em relação à América". Mas ele ofereceu uma forte defesa dos Estados Unidos, dizendo que as lições da história devem aliviar essas suspeitas.

O presidente não entrou em detalhes específicos a respeito de seu anúncio na semana passada de que enviaria mais 30 mil soldados americanos ao Afeganistão. Mas essa decisão, que atraiu muitos manifestantes pacíficos para cá, fez com que Obama retornasse ao assunto repetidas vezes, ao buscar explicar sua política como uma extensão do sistema pós-Segunda Guerra Mundial que conteve a guerra fria.

"Uma década após o início do novo século, esta velha arquitetura está cedendo com o peso de novas ameaças", disse Obama. "O mundo pode não mais temer a perspectiva de uma guerra entre duas superpotências nucleares, mas a proliferação pode aumentar o risco de uma catástrofe. O terrorismo há muito é uma tática, mas a tecnologia moderna permite que alguns poucos homens com uma fúria exagerada assassinem inocentes em uma escala horrível."

Obama, cuja agenda previa uma permanência em Oslo por cerca de 26 horas, irritou alguns noruegueses ao não participar de alguns dos eventos tradicionais que cercam a cerimônia do Nobel da Paz, incluindo um almoço e um concerto na noite de sexta-feira.

O presidente americano, sensível às críticas, explicou a brevidade de sua visita. "Eu gostaria que minha família pudesse permanecer mais tempo neste país maravilhoso", ele disse aos repórteres, "mas eu ainda tenho muito trabalho a fazer em Washington, D.C., antes do fim do ano".

O presidente deve voltar a Washington na sexta-feira.

*Walter Gibbs contribuiu com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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