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13/12/2009

Crescimento do poder econômico da China preocupa países vizinhos

The New York Times
Michael Wines
Em Pasarkemis(Indonésia)
No fundo da empobrecida fábrica de pregos Dunia Metal Works, tudo é cacofonia: o "bam-bam-bam" das máquinas besuntadas de graxa; o tinir ritmado dos cabos de aço; o barulho dos pregos novos e brilhantes caindo em cascata numa ampla mesa de metal para serem embalados.

Mas apesar de todo o barulho industrial, a Dunia está passando por uma queda dolorosa. Hoje ela funciona a 40% de sua capacidade, suas vendas de pregos no país estão em risco - e suas exportações foram aniquiladas - por concorrentes chineses mais baratos.
"Nós competíamos com os japoneses e os coreanos", disse Juniarto Suhandinata, diretor da fábrica. "Mas contra os chineses - não temos chance".
  • AP

    O crescimento desenfreado da China tem gerado o fechamento de fábricas em vários países como Tailândia, Indonésia e Vietnã. A Índia resolveu acionar o Fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico e acusa o gigante asiático de comércio injusto em vários segmentos.


Os chineses são concorrentes duros, e a Dunia não é a primeira a descobrir isso. Mas o lamento de Suhandinata revela algo diferente: uma certa inquietação, até mesmo nos países em desenvolvimento da Ásia que vivem na órbita de Beijing, em relação ao crescimento econômico rápido e aparentemente sem fronteiras da China.

Há muito a China alega ser apenas mais um país em desenvolvimento, mesmo quando seu poder econômico ultrapassa de longe o de qualquer outro país emergente.

Agora, ela está encontrando mais dificuldade para se colocar no papel de uma alternativa amigável à superpotência autoritária norte-americana. Para muitos na Ásia, ela é o novo colosso.

"Há dez anos a China era totalmente diferente da China de agora", diz Ansari Bukhari, que supervisiona os setores de metais, maquinário e outros para o Ministério da Indústria da Indonésia. "Eles são maiores e mais fortes do que os outros países. Por que nós temos que dar preferência a eles?"

Em diferentes graus, outros países também estão expressando a mesma queixa. Tome como exemplo as dez nações do Sudeste Asiático que fazem parte da Associação de Nações do Sudeste Asiático, conhecida como Asean, um bloco econômico regional que representa cerca de 600 milhões de pessoas. Durante o mês de setembro, elas acumularam um déficit comercial de US$ 74 bilhões (R$ 130 bilhões) com a China. Esta é uma reversão drástica em relação ao superávit de que esses países desfrutaram nos anos mais recentes, e está fazendo com que eles reavaliem a crença de que a ascensão da China seria benéfica para toda a vizinhança.

O Vietnã acabou de desvalorizar sua moeda em 5% para mantê-la competitiva em relação à China. Na Tailândia, as indústrias estão reclamando abertamente que são incapazes de competir com os preços chineses. A Índia entrou com uma série de queixas contra a China, por causa de comércio injusto, que cobriam de tudo, desde barras de aço até papel.

No mês passado, o Fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico, o maior grupo regional, pediu a adoção de "taxas de câmbio orientadas pelo mercado" para as moedas asiáticas, sem mencionar - ou sem precisar mencionar - a moeda da China, que, segundo muitos economistas, é mantida artificialmente desvalorizada para promover as exportações do país.

No Sudeste Asiático, a Indonésia está reconsiderando um pacto de comércio livre que a China negociou com as seis principais nações da Asean.

Sob forte pressão das indústrias de todos os setores, desde a produção de aço até fabricantes de motocicletas, o Ministério do Comércio disse na semana passada que procurará renegociar parte das cerca de 350 reduções de tarifas que foram planejadas no primeiro ano do acordo, que deverá entrar em vigor em janeiro.

Jong-Wha Lee, economista-chefe do Banco de Desenvolvimento Asiático, observou que o Japão e a Coreia do Sul também foram vistos como potências - e foram criticados - quando suas indústrias apoiadas pelo Estado rapidamente aumentaram as exportações. Mas o desafio da China parece diferente.

"Não é apenas o tamanho, mas a velocidade com que o poder da China está emergindo que não tem precedentes na região", disse Lee. "Então isso cria uma série de problemas - não só de comércio e políticas de taxa de câmbio. Mas no futuro, qual será o papel da China?" A China tem tomado algumas medidas para amolecer os críticos. Em abril, ela propôs um fundo de investimento de US$ 10 bilhões (R$ 17,58 bilhões) para ajudar a construir estradas, ferrovias e portos extremamente necessários no Sudeste Asiático, e um fundo de US$ 15 bilhões (R$ 26,3 bilhões) para conceder empréstimos de desenvolvimento a juros baixos para as nações asiáticas.

Mas até agora ela fez pouco para lidar com a ansiedade regional e global quanto ao valor de sua moeda, o yuan. Como a moeda, por decreto do governo, é atrelada ao dólar norte-americano em queda, as exportações da China ficaram significativamente mais baratas nos países cujas próprias moedas não compensaram a queda recente do dólar.

Na Ásia, o yuan é duplamente significativo. Durante a crise econômica asiática de 1997, os valores de muitas moedas regionais entraram em colapso, tornando seus bens baratos para os compradores estrangeiros. Os chineses então conquistaram a gratidão de seus vizinhos - e colocaram-se como uma potência responsável - ao manter o valor do yuan fixo. Isso evitou uma espiral competitiva de desvalorizações que muitas economias temiam que tornasse a crise ainda pior.

A última crise financeira conta uma história diferente: o controle da taxa de câmbio da China é citado como uma das principais causas dos imensos desequilíbrios globais que contribuíram para o colapso de 2008.

Desta vez, a China resistiu à pressão para desatrelar o yuan do dólar e deixar ele aumentar de valor. E todas as exportações dos países vizinhos sofreram por conta disso.

Michael Pettis, um economista e acadêmico do programa da China no Carnegie Endowment for International Peace, argumenta que a China não pode mais seguir o mesmo modelo de desenvolvimento voltado para exportação numa época em que os consumidores ocidentais não podem mais comprar qualquer coisa que ela e outros países asiáticos produzam.

Até 2008, disse Pettis, "a maioria dos países tinha superávits comerciais, e os EUA tinham todo o déficit comercial em contrapartida."

"Todo o modelo dependia da capacidade de um agente externo - os Estados Unidos - absorver os déficits comerciais", acrescentou.

A Indonésia é especificamente vulnerável à mudança. É o país mais populoso e com certeza a nação menos avançada economicamente entre os antes considerados Tigres Asiáticos, e talvez o menos capaz de acomodar a si mesmo numa nova ordem regional dominada pela China.

Didik J. Rachbini, professor e fundador de um instituto de pesquisa econômica aqui, disse que nos últimos quatro anos, a Indonésia deixou de ter uma certa paridade no comércio bilateral para assumir um déficit igual a um terço de suas exportações anuais para a China - e que está aumentando.

Os pregos são um foco de tensão. Produzir pregos não é difícil: começa com um pedaço de cabo de aço, que é escovado até o diâmetro apropriado, então colocado numa máquina que molda o prego, cortado e depois jogado numa cesta. O trabalho e a máquina respondem por 10% a 15% do custo do prego. O resto é o custo do cabo.

E é este o problema da Indonésia.

"Muitas fábricas de aço chinesas trabalham em supercapacidade, então elas vendem seus fios de aço muito baratos", disse Ario N. Setiantoro, que lidera a Associação das Indústrias de Pregos e Fios da Indonésia.

"Os pregos chineses entram no mercado aqui quase pelo mesmo preço que o nosso fio."

Ele está certo. A maior parte dos analistas diz que a China tem muitas usinas de aço. Sua capacidade de produção de aço em excesso equivale à produção anual do segundo maior produtor de aço do mundo, o Japão. Toda província chinesa quer uma indústria de aço, porque ela confere prestígio, cria empregos e atrai outros negócios.

Além da produção excessiva, os bancos estatais da China fornecem às indústrias empréstimos de construção tão baratos que o crédito pode ser recebido quase de graça, mantendo baixos os custos de operação. Os grandes pedidos de minério de ferro conseguem descontos por volume que os pequenos fabricantes de aço da Indonésia não têm como obter.

Os mercados de exportação secaram.

Assim como a Dunia Metal, a Surabaya Wire, uma fabricante de pregos no leste de Java, desistiu das exportações de uma vez por todas. "Eu costumava ter 450 funcionários", disse Sindu Prawire, diretor executivo da Surabaya. "Agora, temos 170. Quase todos estão assim."

Indústrias de todos os lugares tendem a acusar competidores de usarem truques sujos quando perdem sua fatia de mercado, é claro, e a anêmica indústria de aço da Indonésia carrega sua própria parcela de culpa pelos problemas de competitividade do país.

Mas à medida que as demissões crescem, o governo indonésio foi forçado a tentar resgatar seus produtores em má situação.

Em outubro, o Ministério do Comércio da Indonésia invocou as regras da Organização Mundial do Comércio e colocou uma tarifa de 145% de salvaguarda sobre as importações de pregos chineses, esperando negociações para acabar com as reclamações de que os chineses estavam competindo de forma injusta.

Irvan K. Hakim, co-presidente da Associação da Indústria de Ferro e Aço da Indonésia, disse que externou esse tipo de reclamações para os oficiais chineses há anos. Ele não pareceu otimista em relação a um consenso.

"A China é a China, sabe?", disse ele, dando de ombros. "Mesmo os EUA não podem falar com a China."

Tradução: Eloise De Vylder

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