UOL Notícias Internacional
 

14/12/2009

Derrota no futebol diminui orgulho nacional dos egípcios

The New York Times
Michael Slackman
Em Cairo (Egito)
De todos os eventos da história contemporânea, é a terrível derrota militar de 1967, em que os exércitos árabes perderam terras para Israel, que alguns egípcios citaram como comparação ao sofrimento que o país está passando para lidar com a devastação produzida pela derrota para a Argélia num jogo de futebol.

Derrota no futebol

  • Khaled Desouki/AFP - 17.nov.2009

    Torcedores agitam bandeira do Egito em frente a Embaixada Egípcia no Sudão. A derrota para a Argélia pelas Eliminatórias da Copa do Mundo, em 18 de novembro, gerou diversos protestos no país.


Perder, no mês passado, o jogo crítico que garantiria uma vaga na Copa do Mundo já foi ruim o bastante. Mas as consequências, primeiro tumultos antiargelinos e depois um longo período de tensão, revelaram um país que tem dificuldade para entrar em termos com sua queda de reputação, dizem os analistas políticos, escritores e acadêmicos, assim como os egípcios que compareceram ao jogo em Cartum, no Sudão.

"A comparação com 1967 tem um significado específico, a derrota de 67 enfraqueceu o Egito enquanto país e também dentro do mundo árabe", disse Hassan Nafa, cientista político na Universidade do Cairo. "Ela destruiu o Egito".

Com todos os desafios que o Egito enfrenta - mais da metade da população vive com menos de US$ 2 por dia (R$ 3,51) - nada mobilizou tanto a opinião pública na história recente quanto os eventos que aconteceram no Sudão. O Egito pensou que venceria a Argélia e ganharia uma vaga na Copa do Mundo pela primeira vez em 20 anos. O país entrou na competição como se fosse uma nação indo para a guerra, e não a um jogo de futebol.

Quando perdeu e os torcedores egípcios deixaram o estádio, muitos disseram que foram perseguidos e humilhados pelos argelinos, e alguns sofreram ferimentos leves. Mas, acima de tudo, disseram que estavam profundamente ofendidos e saíram de lá desolados.

"Como o Egito, o símbolo da força árabe, pode ser humilhado assim nas ruas de Cartum?", perguntou Ahmed Tarek, 33, que administra uma agência de propaganda egípcia no Sudão. "E se de fato somos um país forte, por que não estamos fazendo nada a respeito? Ninguém nunca insultou os egípcios nesse nível. Esse assunto revelou tantas coisas, acordou as pessoas."

O governo entrou com tudo no assunto, chegando até o topo com direito a um discurso emocionado do presidente Hosni Mubarak no parlamento. "Quero dizer claramente que a dignidade dos egípcios faz parte da dignidade do Egito", disse ele.

As ruas do Cairo hoje estão repletas de luminosos com bandeiras egípcias e sinais que dizem "orgulho de ser egípcio". Os talk shows da TV e os jornais diários estiveram ocupados com as discussões sobre a identidade egípcia, enquanto comentaristas lamentaram o colapso final da unidade pan-árabe. Os ministérios da Informação e de Assuntos Exteriores criticaram publicamente um ao outro em relação à crise do futebol. As relações entre a Argélia e o Egito ficaram tão desgastadas que a Liga Árabe pediu que o líder da Líbia, Moammar Gadhafi, atue como mediador.

Mas o trauma nacional é tão profundo e tão antigo, que a discussão começou a mudar, e não para o rumo que o governo tentou guiá-la: reunindo as pessoas em torno da bandeira e da liderança. "Um líder que usa o poder e oprime seus cidadãos e engana o povo nas eleições não convence ninguém quando fala sobre a dignidade dos cidadãos", escreveu Alaa al-Aswani, autor de best-sellers e crítico social, na edição de 24 de novembro do jornal Shorouk.

Em vez disso, as pessoas se concentraram nos problemas internos que até agora eram em grande parte tolerados: uma balsa que afundou deixando mil egípcios no mar; universidades classificadas entre as piores do mundo; um guarda de fronteira egípcio morto por israelenses; o ministro da cultura do Egito, que está no cargo há tempos, perdeu para um búlgaro como novo líder da Unesco; e agora os argelinos estão profanando a bandeira egípcia.

"O Verdadeiro Significado da Dignidade Egípcia", era a manchete de uma coluna crítica publicada na edição de 1º de dezembro do jornal diário independente Al Masry Al Youm. "Nossa dignidade", escreveu Amar Ali Hassan no artigo, "está aqui e não em Cartum e nós precisamos assumi-la agora, antes de nos despedirmos dela para sempre."

Com o tempo, o objeto da ira da maioria das pessoas mudou dos argelinos para o governo, que muitos começaram a acusar de explorar a derrota por motivos políticos, embora continuem sofrendo com as dores da perda do orgulho.

Nas semanas seguintes à derrota no futebol, as pessoas continuaram a escrever agressivamente sobre o evento. Algumas colunas de jornal atacaram a incapacidade do governo de administrar esta e qualquer outra crise, outras atacaram a forma como os países árabes trataram os egípcios, outras ainda pediram a unidade árabe, e algumas colunas examinaram a história das relações árabes e a história das relações egípcio-argelinas.

O governo há muito vem buscando um ponto de aglutinação para ganhar a lealdade dos cidadãos para com o Estado, e pensou que o tinha encontrado no jogo contra a Argélia, dizem os comentaristas.

Mas o que surgiu dali, em vez disso, foi um aumento do nacionalismo revestido pela raiva - e desespero. "Se nós estamos furiosos, não é por causa do futebol, que o jogo vá para o inferno, estamos furiosos quanto à nossa dignidade", disse Hamada Abdullah, que mora em Daqahalya, a nordeste do Cairo. "Amamos este país e não queremos ser humilhados, seja pelas autoridades internas ou pelas pessoas de fora. Nos sentimos oprimidos, confinados e incapazes de fazer qualquer coisa."

Há dois grandes luminosos com a bandeira egípcia colocados ao longo da movimentada ponte 6 de outubro, um nome que, por si só, diz muito sobre a antiga busca do Egito pelo orgulho nacional. A ponte recebeu esse nome por causa da data, em 1973, em que o Egito, a Síria e outras nações árabes atacaram Israel enquanto os judeus observavam o Yom Kippur, a celebração mais sagrada do ano judaico. O Egito cruzou o Canal de Suez e, durante quatro dias, teve o controle da situação antes que Israel pressionasse os militares egípcios de volta.

O sucesso inicial foi suficiente para ser visto como uma vitória, uma redenção da humilhação de 1967, quando Israel ocupou a Península de Sinai. Os egípcios esperam poder encontrar seu caminho mais uma vez, escreveu Ibrahim el-Bahrawi na edição de 1º de dezembro do Al Masry Al Youm.

Comparando a derrota em 1967, com os eventos em Cartum, ele escreveu: "A dignidade egípcia, que foi ferida pelo comportamento dos argelinos que perseguiram torcedores egípcios pacíficos nas ruas de Cartum, crescerá novamente em todo o país."

Mona El-Naggar contribuiu com a reportagem.

Tradução: Eloise De Vylder

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