UOL Notícias Internacional
 

14/12/2009

Uma lição de frugalidade, direto dos cortiços

The New York Times
Damon Darlin
No final de semana depois do Dia de Ação de Graças, quando tradicionalmente começa a temporada de compras para o Natal, eu pulei as lojas de departamento e, em vez disso, fui para o Lower East Side Tenement Museum (algo como o Museu dos Cortiços de Lower East Side), na rua Orchard em Manhattan. Centenas de pessoas tiveram a mesma ideia. Os passeios estavam lotados.
  • Librado Romero / The New York Times

    Cortiço de 1869, onde 5 pessoas viviam, em exibição no Lower East Side Tenement Museum

Cada um de nós pagou US$ 20 (R$ 35,16) para subir escadas decrépitas dentro de um poço escuro e estreito de um cortiço restaurado, onde aprendemos sobre as famílias que haviam morado ali com salários de menos de um dólar por dia. Nos quartos escuros, sem ar e cheios de gente, a poucos passos de Ellis Island, os pobres que viviam aqui de certa forma conseguiam economizar dinheiro e acumular capital. Eles não tinham outra opção a não ser praticar a frugalidade.

Quando saímos de lá, na luz do dia do século 21, a atmosfera era radicalmente diferente: comerciantes de todo o país faziam o que podiam para encorajar os consumidores a gastar --esperando ansiosamente que os americanos contemporâneos também não tenham entrado numa era de frugalidade. Na verdade, os rendimentos do comércio sofreram um golpe com a crise financeira. Com o desemprego em alta e um futuro incerto, as pessoas têm comprado com cautela --sugerindo que talvez, mas apenas talvez, exista algum fundo de verdade em toda a conversa sobre a mudança de mentalidade dos consumidores.

Entretanto, há motivo para ceticismo. Os consumidores podem estar esperando até que os bons tempos retornem ou até que os descontos fiquem maiores, o que quer que aconteça primeiro. Isso é muito diferente do hábito de economizar, tão arraigado entre os imigrantes ou na geração que cresceu durante a Grande Depressão.

A questão pode ser colocada dessa forma: será que os consumidores da classe média norte-americana são capazes de economizar como os imigrantes de mais de um século atrás? Eles são capazes de mudar suas mentalidades e estilos de vida para acumular capital e reduzir suas dívidas?

Dificilmente, para muitos de nós. Isto seria um desafio para mudar radicalmente hábitos enraizados por pais indulgentes, promoções do mercado e a crença de que vence quem tem mais coisas. E poderia parecer que se está adotando uma visão um tanto pessimista sobre a vida, uma visão de privação e negação. Você teria que reduzir os gastos até economizar a maior parte de seu salário. Você precisa de todo esse espaço e de todas essas coisas --carros novos, relógios caros ou telefones inteligentes? Ou um celular pré-pago pode resolver.

Você poderia fazer um esforço para viver com dinheiro vivo, sem cartões de crédito. Quando você vir as notas de papel desaparecendo, seus gastos parecerão mais reais do que parecem quando você passa o cartão de crédito. E para economizar dinheiro de verdade, você teria que maximizar seu salário, não apenas cortar os gastos. Algumas abordagens, como trabalhar por dinheiro vivo --uma forma de evitar os impostos, para ser educado, para os que não têm contas no banco Bahamanian--, são impossíveis para qualquer um que esteja numa folha de pagamento. Mas você poderia simplesmente trabalhar mais.

Se você quiser mergulhar de cabeça na frugalidade, uma nova mentalidade é de fato necessária. Em vários sites de economia doméstica que surgiram na internet desde o começo da recessão, você verá conselhos que, na melhor das hipóteses, parecem tapar o sol com a peneira. Use cupons nos restaurantes. Não peça tanta comida fora. Tudo bem, mas não passa disso. Mas se você de fato quer ser frugal, você nem sairia para comer.

Não, a frugalidade não é fácil, não só porque ela exige o sacrifício de bens materiais, apesar de isso já ser muito difícil por si só. Em vez disso, o problema é que ela demanda muitas mudanças nas crenças que temos sobre a vida e às quais damos muito valor. Primeiro, abandone a ideia de que nós devemos viver melhor do que nossos pais viveram. Esta é uma boa motivação quando seus pais viveram num cortiço em Lower East Side com um banheiro compartilhado no quintal para 20 famílias e um bar no porão. Mas será que é necessário para quem já tem uma casa, um carro e um padrão de vida invejável para a maioria das pessoas no mundo?

O Pew Research Center descobriu em abril de 2008 que quase dois terços dos norte-americanos dizem ter um padrão de vida um pouco mais alto do que seus pais tinham com a mesma idade. A maioria das pessoas espera que seus filhos tenham uma vida melhor que a delas.

Essa pesquisa sobre atitudes econômicas, publicada antes que os problemas financeiros do mundo ficassem aparentes para a maioria das pessoas, também descobriu um "hiato nas percepções de posse". Tendemos a superestimar o que as outras famílias têm. Por exemplo, 62% dos entrevistados disseram acreditar que a maioria das famílias tinha uma TV de alta definição, embora apenas 42% disseram que sua família tem uma.

Uma pesquisa Pew de abril, durante a crise econômica, sugeriu que os norte-americanos em ascensão social podem postergar a gratificação, outra mudança de mentalidade necessária. A pesquisa descobriu que durante os três anos anteriores, a porcentagem de norte-americanos que pensam, por exemplo, que um microondas é uma necessidade caiu de 68% para 47%. Isso também foi verdade para o ar condicionado (que caiu 16 pontos percentuais para 54%), secadoras de roupas (caiu 17 pontos para 66%) e TV a cabo (caiu 10 pontos para 23%). A maioria das pessoas, entretanto, diz que não conseguiria viver sem um telefone celular.

Nada de ar condicionado? Pendurar as roupas na saída de incêndio? Isso tudo soa um pouco como um retorno àquele sombrio cortiço. O engraçado é que, apesar disso, alguns economistas que estudam os gastos dos consumidores ao longo dos ciclos da vida dizem que a frugalidade pode na verdade ser a prática de um otimista. Se você espera que o futuro seja bom, você tem uma tendência a guardar dinheiro para aquela ocasião.

Se você é um pessimista, você pode muito bem gastar tudo agora.

Tradução: Eloise De Vylder

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h09

    -0,57
    3,264
    Outras moedas
  • Bovespa

    16h16

    1,13
    63.941,75
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host