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15/12/2009

Na Bolívia, água e gelo contam uma história de mudança climática

The New York Times
Elisabeth Rosenthal Em El Alto (Bolívia)
Quando a água secou na torneira em frente à sua casa de paredes de barro, em setembro último, Celia Cruz deixou de fazer sopas e reduziu a lavagem da roupa da sua família de cinco pessoas. Ela passou a fazer peregrinações diárias aos bairros mais ricos, em busca de água.

Embora more aqui há uma década e o seu marido, que é trabalhador da construção civil, ganhe um salário decente, Celia não consegue comprar água.

"Estou cogitando voltar para o interior, o que mais posso fazer?", diz Celia, 33, que usa tranças tradicionais e uma longa saia, enquanto examina um pátio no qual podem-se ver leitões, sacos de batatas e um automóvel velho Datsun de cor vermelha. "Dois anos atrás isso não era um problema. Mas se não houver água, não dá para viver".

As geleiras que há muito fornecem água e eletricidade para esta parte da Bolívia estão derretendo e desaparecendo, vítimas do aquecimento global, segundo a opinião da maioria dos cientistas.
  • Angel Franco/The New York Times

    Desde El Alto, vista em direção a La Paz. As duas cidades bolivianas tiveram falta de água, em parte por causa da diminuição das geleiras, que desaparecem com o aquecimento global


Se o problema da água não for resolvido, El Alto, uma cidade pobre vizinha a La Paz, poderá talvez transformar-se na primeira grande baixa urbana causada pelo aquecimento global. Um relatório do Banco Mundial concluiu no ano passado que a mudança climática acabaria com várias geleiras nos Andes dentro de 20 anos, ameaçando a existência de quase 100 milhões de pessoas.

Para quase 200 nações que procuram chegar a um acordo climático internacional em Copenhague, o problema de atender às necessidades de dezenas de países como a Bolívia é um dos focos centrais das negociações e um grande obstáculo para que se firme um tratado.

Os líderes mundiais há muito concordam que os países ricos precisam fornecer dinheiro e tecnologia para ajudar as nações em desenvolvimento a adaptarem-se a problemas que, em grande parte, foram criados por chaminés de fábricas e canos de descargas de veículos em lugares muito distantes. Mas os detalhes dessa transferência - que países arcarão com as despesas, quanto será pago e para que tipos de projetos - ainda continuam sendo fonte de polêmica.

  • Angel Franco/The New York Times

    Edson Ramirez, glaciologista, há duas décadas documenta e faz previsões sobre a redução do tamanho das geleiras. Ultimamente, essa redução tem superado as suas previsões mais pessimistas

Na semana passada, os integrantes de um grupo dos menores países pobres do mundo discutiram a possibilidade de se retirarem das negociações em Copenhague caso as nações ricas não fornecessem de fato dinheiro. Embora reiterasse que o seu país ajudaria a pagar a conta,Todd Stern, o principal negociador dos Estados Unidos, resistiu à ideia de que esse dinheiro seja uma "dívida climática". E, na última sexta-feira, a União Europeia fez uma promessa inicial de pagar US$ 3,5 bilhões (R$ 6,2 bilhões) anuais durante três anos para ajudar os países pobres a fazer frente à situação - embora os economistas acreditem que o custo total de tal ajuda será de pelo menos US$ 100 bilhões (R$ 174,5 bilhões).

Uma voz furiosa
Devido às recentes catástrofes que enfrenta provocadas pela mudança climática, a Bolívia está se transformando em uma voz furiosa entre as nações pobres, exigindo que todo financiamento seja pago de forma integral e rápida.

"Temos um grande problema, e nem mesmo dinheiro resolverá isso completamente", afirma Pablo Solon, o embaixador da Bolívia na Organização das Nações Unidas (ONU). "O que pode fazer um país se as suas geleiras desaparecerem ou, no caso de nações insulares, se ele ficar debaixo d'água?".

Cientistas dizem que dinheiro e projetos de engenharia poderiam resolver os problemas de falta d'água de La Paz e El Alto, com projetos que incluiriam um reservatório bem planejado. As geleiras em torno das cidades proporcionaram basicamente reservas naturais de baixa manutenção, coletando água na curta estação chuvosa e liberando-a durante a estação seca para o uso da população e a geração de energia elétrica. Mas, com a elevação das temperaturas e as alterações dos regimes pluviométricos, essas geleiras não suprem mais estas necessidades.

"Os efeitos estão aparecendo muito mais rapidamente do que nós podemos responder a eles, e são necessários de cinco a sete anos para a construção de um reservatório. Não sei se temos tanto tempo", adverte Edson Ramirez, um glaciologista que há duas décadas documenta e faz previsões sobre a redução do tamanho das geleiras. Ultimamente, essa redução tem superado as suas previsões mais pessimistas. Por exemplo, ele previu que uma da geleiras, a Chacaltaya, duraria até 2020, mas ela desapareceu completamente neste ano. Em 2006, ele afirmou que a demanda por água em El Alto superaria a oferta até 2009. Isso de fato aconteceu.

Mas o aquecimento global não é o único culpado pelos problemas crônicos deste país sem litoral, exótico, mas extremamente pobre, cuja renda per capita é de cerca de US$ 1.000 (R$ 1.745). As reservas de água são também ameaçadas pelo crescimento populacional e pelo mau gerenciamento desses suprimentos, em parte porque há pouco dinheiro para que se gerencie qualquer coisa, mas também porque o governo nacionalizou a companhia de fornecimento de água há alguns anos, declarando que a água é um direito humano. El Alto ainda não possui nenhum técnico em tratamento e distribuição de água contratado pelo governo.
  • Angel Franco/The New York Times

    Mario Ariquipa Laso, 55, e sua esposa. O agricultor de aparência envelhecida planta batatas e milho nas terras inclinadas à sombra da geleira. Dez anos atrás, a geleira fornecia durantes os meses secos uma torrente de água contínua e calma que possibilitava a irrigação das lavoras. Atualmente, com a retração da Illimani, a água mal brota da geleira, em uma mistura amarelada


Populações no limite
"Estas populações já se encontravam no limite da sobrevivência, e agora existem as dificuldades extras provocadas pela mudança climática, bem como os grandes problemas sociais", afirma Dirk Hoffmann, diretor do programa sobre mudança climática da Universidad Mayor de San Andres, em La Paz. "Estamos falando de conflito - não nos referimos exatamente a uma guerra civil. Mas haverá convulsão social".

Na verdade, quando as torneiras secaram no bairro de Celia Cruz, no distrito Solidariedade de El Alto, os moradores ricos de La Paz ainda tinham água. Em um país que abraçou a retórica socialista e os direitos indígenas, houve reclamações. "A sensação de injustiça é palpável", diz Edwin Chuquimia Velez, um funcionário de El Alto que já foi responsável pelo fornecimento de água.

Embora admita que há preocupações quanto ao fornecimento, Victor Hugo Rico, diretor da companhia estatal de água, a Epsas, negou que tivesse havido racionamento intencional e afirmou que três poços estão sendo perfurados para aumentar a quantidade de água disponível para El Alto, e que há projetos para a perfuração de outros poços.

As geleiras são o cenário mais majestoso daqui, sendo visíveis de quase todos o locais das cidades vizinhas de La Paz e El Alto, cada uma com um milhão de habitantes. O desaparecimento dessas geleiras das paisagens é tão chocante para os bolivianos quanto foi para os novaiorquinos ver Lower Manhattan sem as Torres Gêmeas.

"Ver esta mudança me enche de tristeza e dor", afirma Gonzalo Jaimes, um guia de escaladas de La Paz.

No Chacaltaya, com 5,300 metros de altitude, ficava o maior centro de esquiação do mundo de 1939 a 2005, quando a geleira encolheu para além das escarpas. A estação de esqui, ainda dotada de equipamento para aluguel, e decorada com pôsteres de esquiadores, está praticamente abandonada.

Embora todas as geleiras aumentem e encolham no decorrer do tempo, pesquisas recentes revelaram que geleiras pequenas e localizadas em altitudes relativamente baixas, como as da Bolívia, são particularmente vulneráveis ao aumento de temperatura, um fenômeno que os glaciologistas comparam àquilo que ocorre com pequenos cubos de gelo imersos na água.

Para os moradores do local, a falta de água é o maior problema. Embora a eletricidade da região seja gerada por usinas hidroelétricas, estas dependem bastante das chuvas e da água da Amazônia, de forma que até o momento não houve problema de falta de energia.

Em Khapi, uma vila a duas horas de carro de La Paz, as pessoas chamam a geleira Illimani de "Nosso Deus, Nosso Grande Protetor", diz Mario Ariquipa Laso, 55, um agricultor de aparência envelhecida que planta batatas e milho nas terras inclinadas à sombra da geleira. Dez anos atrás, a geleira fornecia durantes os meses secos uma torrente de água contínua e calma que possibilitava a irrigação das lavoras. Mas, atualmente, com a retração da Illimani, a água mal brota da geleira, em uma mistura amarelada.

"Esta água é completamente inútil", reclama Hector Hugo Chura Chuque, vice-prefeito desta vila que não conta com água encanada e que só recebe eletricidade de forma intermitente.

"Muitos de nós estão pensando em não ter mais filhos", diz Margarita Limachi Alvarez, 46, que usa uma boina andina azul com proteção para as orelhas. "Sem água ou comida, como nós sobreviveremos? Por que trazer filhos ao mundo para sofrerem?".

As torneiras estão secando
A 150 quilômetros dali, em um bairro de classe média de El Alto, a água também tornou-se objeto de preocupação crescente. De setembro a novembro, as torneiras só contam com água durante no máximo oito horas diárias. E esta água frequentemente sai em um filete sem pressão.

"Às vezes não temos água de manhã. E às vezes falta água à noite - nunca se sabe", diz Julia Torrez, de 31 anos e grávida de oito meses, em uma sala bem arrumada com sofás coloridos e decorada com quadros. Julia recorda-se que, quando as torneiras começaram a secar, ela correu a encher baldes, em uma rotina incomum para esta família de profissionais que usam calças jeans e têm diplomas universitários.

Em outubro último, as autoridades de La Paz passaram a fechar as empresas de lavagem de automóveis na Avenida Kollasuyo, e só cederam quando a chuva chegou ao final de novembro. "Esta foi a primeira vez que nos disseram que não havia água suficiente para que funcionássemos", conta Omar Mamaru, 25, dono do lavajato Auto-Stop, usando luvas e um macacão laranja, enquanto esfrega um veículo utilitário esportivo azul.

Nos últimos anos, a vida dos bolivianos tem sido castigada por uma série quase bíblica de fenômenos climáticos rigorosos, muitos dos quais, segundo os cientistas, estariam vinculados à alteração climática - embora atualmente seja difícil provar isso, já que países pobres como a Bolívia contam com poucos dados científicos de longo prazo. Neste ano o sol foi tão intenso e as temperaturas foram tão elevadas que que as mães indígenas viram os filhos de pele escura sofrer queimaduras solares. Uma seca matou 7.000 animais e deixou quase 100 mil doentes.
  • Angel Franco/The New York Times

    Reservatório de Milluni com baixo nível de água com a menor alimentação que vem das geleiras


Tempestades severas
Tempestades severas normalmente associadas aos períodos do El Niño, a cada sete anos, agora ocorrem regularmente. Temperaturas mais altas significam novas pragas das lavouras - como grilos e lagartas - bem como a disseminação de doenças como a malária e a dengue.

Em uma manhã recente em Huaricana, uma vila a uma hora de La Paz, a população usou pedras e pedaços de madeira para consertar uma estrada que foi cortada por um rio de lama de 12 metros de largura criado por um forte temporal. Um vendedor vendia sorvetes às crianças que observavam esta cena, que atualmente é familiar.

"Isto só tem acontecido nos últimos três anos", diz Oswaldo Vargas, 55, enquanto reboca pela lama um ônibus com o seu trator Fiat.

Os países desenvolvidos concordam que têm a obrigação de ajudar a aliviar esses problemas, mas muitos deles hesitam em fornecer verbas, em parte porque os países pobres têm poucos planos concretos para enfrentar os problemas climáticos. Por exemplo, os efeitos das alterações climáticas ainda não foram analisados nem quantificados pela Epsas, a companhia de água.

Mas com pouco dinheiro e conhecimento técnico, é difícil projetar um novo reservatório gigante ou um sistema para a transferência de água para diferentes partes do país.

"Os pobres da Bolívia não são responsáveis por aquilo que está ocorrendo com a geleira, mas são eles os que sofrem mais, e infelizmente o governo não tem um plano concreto", opina Edwin Torrez Soria, um engenheiro da Aqua Sustentable, que trabalha nas vilas próximas à geleira Illimani.

Neste ano, os últimos dias de novembro proporcionaram um pouco de alívio e a estação chuvosa começou, embora com um atraso de um mês. A torneira em frente à casa de Celia Cruz voltou a fornecer água.

Mas a chuva que costumava suprir as geleiras de gelo, agora, com frequência, só faz com que aumentem as enxurradas, já que a temperatura está muito elevada para que a água congele.

"Neste momento estamos vivendo com uma quantidade de água adicional, proveniente do derretimento da geleira, que daqui a alguns anos não estará mais disponível", diz Hoffmann, do programa de mudança climática. "Isto não é irônico?".

Jean Friedman-Rudovsky, em El Alto, Bolívia, contribuiu para esta matéria

Tradução: UOL

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