UOL Notícias Internacional
 

17/12/2009

Diplomatas americanos enfrentam reação negativa em Islamabad

The New York Times
Jane Perlez e Eric Schmitt Em Islamabad (Paquistão)
Partes das forças armadas e serviços de inteligência paquistaneses estão montando, como descrevem as autoridades americanas aqui, uma campanha para molestar os diplomatas americanos, desgastando as relações no momento crítico em que o governo Obama está exigindo mais ajuda para combater o Taleban e a Al Qaeda.

A campanha inclui a recusa em renovar ou aprovar os vistos para mais de 100 funcionários americanos e a realização de revistas frequentes nos veículos diplomáticos americano nas grandes cidades, disse um funcionário americano informado sobre os casos.
  • Rizwan Tabassum/AFP

    Ativista paquistanês do partido fundamentalista islâmico Jamaat-i-Islami participa de um protesto em Karachi contra a presença americana no país e os ataques com mísseis em áreas tribais

Os problemas afetaram adidos militares, agentes da CIA, especialistas em desenvolvimento, diplomatas e outros, disse um alto diplomata americano. Como resultado, alguns programas de ajuda americana ao Paquistão, que o presidente Barack Obama chamou de um aliado fundamental, estão "parando", disse o diplomata.

Os helicópteros americanos usados pelo Paquistão para combater os militantes não podem mais passar por manutenção, porque os vistos para os 14 mecânicos americanos não foram aprovados, disse o diplomata. Os reembolsos ao Paquistão de quase US$ 1 bilhão por ano, por suas operações de contraterrorismo, foram suspensos, porque os contadores da embaixada tiveram que deixar o país.

"Há uma incrível desconexão entre o que eles desejam de nós e o fato de não recebermos os vistos", disse o diplomata.

As autoridades paquistanesas reconheceram a situação, mas disseram que o clima ameaçador é resultado da arrogância e das provocações americanas, como tirar fotos em áreas sensíveis, além da falta de compreensão a respeito de quão divididos os paquistaneses estão em relação à aliança com os Estados Unidos.

Autoridades americanas e paquistanesas se recusaram a ser identificadas enquanto falavam sobre os vistos, por causa de seus altos cargos e o desejo de não inflamar ainda mais as tensões.

A campanha ocorre após meses de aumento do sentimento antiamericano aqui e de queixas por parte das forças armadas de que o governo do presidente Asif Ali Zardari se tornou dependente demais do novo plano de ajuda de cinco anos, no valor de US$ 7,5 bilhões, de Washington.

Também parece ser uma tentativa de impedir a ampliação planejada da embaixada americana de 500 funcionários para 800 nos próximos 18 meses, um crescimento que as autoridades americanas dizem ser necessário para canalizar o aumento da assistência americana.

Eles não querem mais americanos aqui", disse outro diplomata americano. "Eles não sabem ao certo o que os americanos estão fazendo. O sentimento está por toda parte."

O molestamento se tornou tão frequente que as autoridades americanas disseram que o consideram um esforço orquestrado por parte dos militares e dos serviços de inteligência, que estão cada vez mais ressentidos com as exigências americanas de aumentar a guerra contra o Taleban e a Al Qaeda nas áreas tribais do Paquistão.

Apesar dos Estados Unidos estarem enviando grandes somas de assistência militar ao exército paquistanês, além de ajudar sua principal agência de espionagem, os Interserviços de Inteligência, a campanha mostra a ambivalência, até mesmo o "ódio" em relação aos Estados Unidos, disse o funcionário americano.

Um oficial de segurança paquistanês, que está registrando os muitos incidentes, não se mostrou solidário, dizendo que os americanos atraíram os problemas para si mesmos.

"Infelizmente, os americanos são arrogantes", disse o oficial de segurança paquistanês. "Eles se consideram onipotentes. É a imagem que passam."

Por exemplo, ele disse, a polícia paquistanesa não estava importunando os diplomatas americanos ao passarem pelas barreiras de fiscalização, mas sim respondendo às provocações dos funcionários americanos.

Ele citou o exemplo de uma recente reportagem em alguns jornais paquistaneses, de que um diplomata americano foi pego tirando fotos em uma área militar na cidade de Lahore.

As reportagens eram falsas, disse um porta-voz da embaixada americana. O diplomata suspeito, um funcionário de suporte técnico, não carregava uma câmera, disse o porta-voz.

Em outro caso, disse o oficial de segurança paquistanês, americanos em um utilitário esportivo fugiram na semana passada, após os policiais tentarem revistar seu carro em uma barreira nos arredores de Islamabad, a capital.

O porta-voz da embaixada negou que os americanos tinham fugido da barreira. "Tolice, diplomatas não fogem", ele disse.

As revistas nos veículos diplomáticos americanos, no grande número de barreiras montadas nas cidades, se transformaram em um dos maiores incômodos.

Como as placas diplomáticas registradas à embaixada fornecem um alvo fácil aos militantes, os americanos chegaram a um acordo há algum tempo com o governo paquistanês para que suas placas oficiais ficassem no interior do carro, disse o porta-voz.
  • Romeo Gacad/AFP

    Soldados americanos vigiam base militar ao sul do Afeganistão, próximo à fronteira com o Paquistão



Mas a ausência das placas deixa os carros americanos vulneráveis às revistas nas barreiras, ele disse. Segundo as convenções diplomáticas internacionais, veículos diplomáticos não estão sujeitos a buscas e os diplomatas americanos foram instruídos a não permitirem buscas além da abertura do porta-malas, disse o porta-voz.

O oficial de segurança paquistanês disse: "Nós estamos em um estado de guerra que exige medidas extraordinárias". Seu veículo é revistado toda manhã em que ele vai ao gabinete em Islamabad, e os americanos devem esperar o mesmo, ele disse.

Ele também disse que os americanos não deveriam se surpreender com o problema dos vistos. Mas o problema agora está afetando os próprios interesses do Paquistão, disseram funcionários americanos.

Pelo menos 135 diplomatas americanos tiveram a renovação de seus vistos rejeitada, disse alto diplomata americano, deixando alguns setores da embaixada operando a 60% da capacidade.

Uma das consequências mais danosas, disse o diplomata, é a redução do número de missões com helicóptero das tropas paramilitares da Corporação da Fronteira, que combatem o Taleban nas áreas tribais, devido à falta de mecânicos americanos treinados.

O último dos cinco contadores da embaixada americana deixou o Paquistão nesta semana, porque seu visto expirou, resultando na suspensão dos reembolsos americanos, disse o diplomata.

Grande parte da suspeita em relação aos diplomatas americanos parece girar em torno das histórias persistentes na imprensa paquistanesa a respeito da presença da empresa de segurança americana Blackwater, atualmente chamada de Xe Services, no Paquistão.

A embaixada negou que a Xe opere no Paquistão. Mas essas declarações entram em conflito com os relatos de Washington de que agentes da Xe foram contratados pela CIA para carregarem os mísseis nas aeronaves não tripuladas, que são utilizados para matar os militantes da Al Qaeda nas áreas tribais.

A desconfiança pública em relação às autoridades americanas levou muitos diplomatas americanos a se manterem discretos, e adotarem uma mentalidade de bunker, reconheceram diplomatas americanos. Os americanos raramente são vistos nos restaurantes ou áreas de compras, sendo de fato alertados pelos assessores de segurança a se manterem longe desses lugares.

A tensão entre os lados foi deixada de lado na quarta-feira, quando o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas americanas, o almirante Mike Mullen, foi levado em uma visita por helicóptero à área tribal do Waziristão do Sul pelo chefe do exército paquistanês, o general Ashfaq Parvez Kayani, para mostrar o que os paquistaneses conseguiram contra o Taleban.

Nenhum jornalista paquistanês ou americano acompanhou a visita, um sinal de que os paquistaneses preferem manter em silêncio a ajuda americana no Waziristão do Sul.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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