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17/12/2009

Investidores de carne migram da Argentina para o Uruguai

The New York Times
Alexei Barrionuevo Em Montevidéu (Uruguai)
Durante décadas, a família de Gabriel Pintos, composta de pecuaristas, olhou para o outro lado do Rio da Prata com respeito e inveja diante da lendária tradição argentina de produção de carne bovina. Porém, ao olhar recentemente para a vastidão da sua fazenda de 78 hectares, onde patos grasnavam em um lago, enquanto 120 vacas pastavam o capim verde, Pintos transpirava um novo vigor competitivo.

"Hoje em dia o Uruguai tem maturidade para competir com qualquer parte do mundo com a sua carne bovina", diz Pintos, 51, um homem bronzeado e de fala rápida. "Esta é uma oportunidade histórica para nós".

Durante mais de um século a Argentina apresentou a sua carne como sendo mais saudável e natural do que a da maioria dos outros países. As vacas argentinas vagavam preguiçosamente pelos pastos de solos ricos do Pampa Úmido, mastigando a grama verde, e não os grãos que são oferecidos em estábulos lotados nas fazendas de gado de corte norte-americanas, onde o ritmo do trabalho é mais veloz.

Mas essa imagem poderá virar uma memória de uma era passada. Decisões políticas do governo da Argentina estão modificando o sabor da afamada carne argentina e ameaçam abalar a fama da indústria de carne do país, que tem renome mundial.

As mudanças têm afastado os investidores, reduzido o tamanho do rebanho da Argentina e proporcionado ao vizinho menor do país, o Uruguai, uma chance de aproveitar-se dos problemas da Argentina, apresentando-se como "a última grande fazenda" para a produção de carne mais saudável, derivada de animais alimentados em pastagens.

De certa forma, a Argentina é vítima do seu próprio sucesso. As exportações aumentaram depois que uma drástica desvalorização do peso argentino em 2001 tornou a carne do país mais competitiva mundialmente. Mas a oferta começou a diminuir para os consumidores argentinos - que comem mais carne do que qualquer outro povo, segundo empresários dessa indústria -, o que fez com que os preços aumentassem e elevou o descontentamento social.

Assim, em 2006, Nestor Kirchner, que à época era o presidente da Argentina, respondeu com uma proibição de 180 dias das exportações para reduzir os preços. Mais tarde, ele instituiu um controle dos preços de certos cortes populares, o que fez com que os argentinos comessem ainda mais carne.

Mas, devido a uma seca prolongada neste ano e a preocupações quanto aos lucros, muitos fazendeiros estão transformando as pastagens em campos para o cultivo da soja. E agora os incentivos governamentais para a engorda mais rápida do gado estão fazendo com que aumente a tendência de se alimentar mais bois argentinos com grãos como milho e aveia em estábulos cheios de animais, o que dá ao Uruguai a oportunidade de se tornar o novo grande produtor de carne de boi alimentado em pastagens.
Os espanhóis introduziram o gado bovino no Uruguai há mais de 400 anos, e há muito tempo a carne bovina é o mais importante produto de exportação do país. Há mais de três cabeças de gado para cada pessoa neste país de 3,4 milhões de habitantes, onde cerca de 80% das terras são utilizadas como pastagens.

O Uruguai fica imprensado entre o Brasil, o maior exportador de carne do mundo, e a Argentina, que conta com um rebanho cinco vezes maior do que o uruguaio. O gado da Argentina e o do Uruguai sempre foram relativamente similares - ambos são alimentados com capim e criados soltos em pastagens, e os dois possuem características genéticas britânicas similares. Como na Argentina, aqui também os "gaúchos" de bigode cavalgam pelas planícies com os seus chapéus pretos inclinados sobre as faces castigadas pelo vento.

Apesar dos problemas do seu vizinho, o Uruguai tem procurado competir com a reputação global da Argentina.

Alejandro Berrutti, um comerciante de carnes de Montevidéu, recorda-se das tentativas frustrantes de introduzir carne uruguaia no mercado dinamarquês no início deste ano. Em um supermercado de Copenhague, a carne argentina é classificada como a melhor do mundo, mas os funcionários nunca ouviram falar da equivalente uruguaia, diz ele. Em um restaurante, um garçom disse a ele que os pratos principais eram salmão dinamarquês e "bisteca argentina". Berrutti perguntou se havia algum outro prato.

"Senhor, nós temos este menu há 25 anos, e ele sempre funcionou", respondeu o garçom a Berrutti.

No Instituto Nacional da Carne do Uruguai, que promove a indústria da carne bovina, Silvana Bonsignore, a diretora de marketing, citou um estudo de 2004 realizado em quatro cidades dos Estados Unidos - Atlanta, Boston, Denver e Washington -, que revelou que muitos norte-americanos jamais ouviram falar do Uruguai, e muito menos da reputação da carne uruguaia.

"É muito difícil vender a carne uruguaia quando ninguém sabe que o Uruguai existe", explica a diretora.

Tendo isso em mente, Bonsignore e a sua equipe elaboraram em 2005 uma nova campanha de marketing para vender a imagem do Uruguai - os seus vinhos e as suas praias na badalada Punta del Este - e, ao mesmo tempo, promover a carne do país. Panfletos de páginas brilhantes mostram imagens do gado pastando e de pratos à base de carne bovina, bem como de vinícolas e calçadões à beira-mar.

Bonsignore organizou eventos para a degustação de carne na Espanha e em Portugal, nos quais brilharam os chefs uruguaios. Em abril de 2008, o instituto da carne organizou o "maior churrasco do mundo", com quase 1.500 metros de churrasqueiras e quase 12 toneladas de carne, o que garantiu ao Uruguai um lugar no Livro Guinness dos Recordes Mundiais.

O Uruguai está tentando mostrar ao mundo que o país se dedica à carne "natural" - por lei, o gado é alimentado com capim e não recebe hormônios. Uma campanha de marketing mostra um símbolo de um código de barras de supermercado emergindo de folhas de capim. Uma outra chama atenção para o fato de que cada boi uruguaio, em média, pasta em áreas do tamanho de dois campos de futebol.

Ao mesmo tempo, os grandes investidores no setor de carne começaram a apostar nas políticas do Uruguai, que são mais amigáveis em relação ao mercado. Terry Johnson, proprietário da BPU Meat, está investindo US$ 150 milhões no Uruguai, incluindo uma instalação que deverá ser inaugurada em janeiro e que será capaz de processar 1.500 cabeças de gado em um turno diário de oito horas.

Johnson, que é britânico, vendeu instalações semelhantes que possuía na Argentina e no Brasil em 2006 e passou a se concentrar no Uruguai.
"Por algum motivo, o governo argentino vem tentando colocar o setor de agronegócios do país de joelhos", afirma Johnson. "Os rebanhos estão encolhendo, o preço da terra caiu. Quem deseja trabalhar no setor pecuário quer sair da Argentina. O Uruguai proporciona uma chance de se fazer as coisas da maneira certa".

Na sua fazenda, onde também cria cavalos e ovelhas, Pintos, que é veterinário, diz que está procurando formas de aumentar a sua produção, preservando ao mesmo tempo a alimentação exclusiva dos animais em pastagens.

Ele vem de uma família de pecuaristas, e a sua mulher também. Agora eles estão ensinando o negócio aos filhos, e até enviaram o mais velho à Nova Zelândia para passar seis meses aprendendo sobre a pecuária naquele país.

"Os holandeses estão investindo bastante aqui, e também os argentinos, os franceses e os brasileiros", diz ele, entusiasmado. "Eu sou um trabalhador humilde que deseja melhorar de situação gradativamente, não apenas para o meu benefício e o da minha família, mas também para o benefício do meu país".

Charles Newbery, em Buenos Aires, contribuiu para esta matéria.

Tradução: UOL

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