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19/12/2009

EUA e Rússia se aproximam de acordo para redução de arsenais nucleares

The New York Times
Peter Baker
Em Washington (EUA)
Oito meses, três encontros presidenciais, inúmeras sessões de negociação em Genebra e um prazo perdido depois, os Estados Unidos e a Rússia parecem próximos de um acordo a respeito de um novo tratado de controle de armas, que reduzirá seus arsenais nucleares estratégicos em pelo menos um quarto.

Mas mesmo se os dois lados conseguirem fechar um acordo nos próximos dias como eles esperam, essa será a parte fácil. Após o presidente Barack Obama e o presidente da Rússia, Dmitri A. Medvedev, assinarem o novo pacto, eles planejam enviar os negociadores de volta à mesa no próximo ano para buscar um acordo ainda mais ambicioso, envolvendo categorias inteiras de armas nucleares que nunca antes estiveram sujeitas a limites internacionais.

As negociações previstas para 2010 levariam a agenda de desarmamento de Obama seria uma tentativa de um próximo nível que nenhum presidente conseguiu desde os dias sombrios da Guerra Fria.

Além de uma maior redução das ogivas estratégicas posicionadas, as negociações tentariam esvaziar pelo menos alguns depósitos de ogivas reservas. E os dois lados visariam as milhares de bombas nucleares táticas mais vulneráveis a roubo ou proliferação, algumas ainda localizadas na Europa 20 anos após a queda do Muro de Berlim.

O esforço faz parte de uma iniciativa mais ampla de Obama para uma eventual eliminação de todas as armas nucleares e a transformação das forças armadas americanas para uma nova era. Uma revisão nuclear no próximo mês proporá uma revisão da doutrina estratégica do país e forçará a consideração de quantas armas os Estados Unidos realmente precisam sem uma superpotência rival, incluindo até mesmo se pode ser eliminada uma perna da "tríade" tradicional de submarinos, mísseis e bombardeiros.

O primeiro passo é a conclusão do tratado na mesa. Obama partiu de Washington na noite de quinta-feira com destino a Copenhague, onde se encontrará com Medvedev na conferência sobre mudança climática. Lá, eles esperam superar os obstáculos restantes ao acordo que substituirá o Tratado de Redução de Armas Estratégicas de 1991, conhecido como Start, que expirou em 5 de dezembro.

A nova versão do Start exigiria a redução por cada lado das ogivas nucleares estratégicas posicionadas, de 2.200 para aproximadamente 1.600, segundo um alto funcionário americano. Também forçaria cada lado a reduzir seus bombardeiros estratégicos e mísseis baseados em terra e mar para menos de 800, em comparação ao antigo limite de 1.600. Sergey L. Lavrov, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, disse na quinta-feira que há "um pouco de desaceleração" nas negociações pelo outro lado, mas os funcionários americanos negaram, dizendo que restam apenas três questões para serem resolvidas, principalmente na verificação.

Se as diferenças existentes puderem ser resolvidas, o governo Obama espera retomar imediatamente as negociações para um acordo mais amplo. Esse tratado mais amplo reduziria o número de ogivas estratégicas posicionadas ainda mais, talvez para cerca de 1.000 para cada país, número considerado o mais baixo que os dois poderiam ir sem a participação da China, Reino Unido, França e outras potências nucleares.

Além disso, os negociadores lidariam com as armas táticas e as armas estratégicas armazenadas, nenhuma das quais limitadas por algum tratado. Os Estados Unidos possuem cerca de 3 mil ogivas estratégicas em armazenamento, enquanto a Rússia possui cerca de 1.000, segundo o Centro para Informação de Defesa, um grupo de defesa privado em Washington.

O desequilíbrio é o oposto nas ogivas táticas, geralmente definidas como aquelas com alcances abaixo de 480 a 640 quilômetros. A Rússia possui 3 mil a 8 mil delas, segundo o Centro para Informação de Defesa. A Federação dos Cientistas Americanos estima que cerca de 2 mil delas estão posicionadas, enquanto a Associação para Controle de Armas diz que talvez apenas poucas centenas estejam realmente operacionais.

As estimativas sobre as armas nucleares táticas americanas variam de 500 a 1.200, com cerca de 150 a 240 ainda posicionadas na Bélgica, Alemanha, Itália, Holanda e Turquia, metade delas até cinco anos atrás. Os Estados Unidos retiraram nos últimos anos as armas nucleares táticas das bases no Reino Unido, Alemanha e Grécia.

"Hoje, essas armas são militarmente desnecessárias, e são mais um fardo do que um acréscimo, porque a Rússia e os Estados Unido precisam manter a segurança dessas ogivas, independente de estarem posicionadas ou não, além de serem mais difíceis de rastrear porque são menores", disse Daryl G. Kimball, diretor executivo da Associação para Controle de Armas.

Mas o desafio de se chegar a um acordo ofusca as dificuldades de esboçar o atual tratado, que supostamente deveria estar concluído assim que o Start expirasse há duas semanas. "Faz isso parecer um passeio pelo parque", disse Kimball.

A ideia da retirada de todas as armas nucleares táticas gerou debate na Europa. Em outubro, o novo ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Guido Westerwelle, pediu por um "país livre de armas nucleares", o que significava que era hora dos Estados Unidos removerem as armas táticas restantes. Mas outros aliados da Otan desconfiam de uma retirada completa, vendo a presença das armas como um sinal da manutenção do compromisso americano com a segurança europeia.

Debates semelhantes ocorreram dentro tanto do establishment militar americano quanto o russo. "Isso é o que ambos os presidentes disseram que querem, mas ambos terão que superar a resistência das burocracias nucleares conservadoras em seus países", disse Joseph Cirincione, presidente do Fundo Ploughshares, um grupo que defende o desarmamento. "Estas são forças pequenas, mas ainda poderosas."

As armas nucleares táticas foram desenvolvidas durante a Guerra Fria como explosivos de menor potência e alcance mais curto que poderiam ser usados no campo de batalha. Os Estados Unidos e seus aliados da Otan as empregaram para dissuasão a qualquer invasão à Europa Ocidental, pelo que presumiam ser forças terrestres superiores da União Soviética e do Pacto de Varsóvia. Mas desde o fim da União Soviética, o pensamento mudou, e a Rússia atualmente considera as armas nucleares táticas como um baluarte contra a supremacia convencional americana.

"A ideia de que abririam mão dessas coisas facilmente é tolice", disse Henry D. Sokolski, diretor executivo do Centro para Educação de Políticas de Não-Proliferação, em Washington. "Eles estão dando mais ênfase, e não menos, a esses sistemas. Eles estão se apoiando mais neles porque não podem nos alcançar em forças convencionais."

Washington e Moscou saíram da Guerra Fria determinados a reduzir suas armas nucleares táticas, e ambos os lados anunciaram reduções unilaterais em 1991. Como resultado, 17 mil armas nucleares táticas foram retiradas de serviço, mas nenhum tratado impôs limites legalmente vinculantes.

Nikolai N. Sokov, um ex-negociador de controle de armas soviético que atualmente faz parte do Centro James Martin para Estudos de Não-Proliferação, no Instituto Monterey para Estudos Internacionais, na Califórnia, o chamou de "o maior impasse em toda a agenda de controle de armas", e ele disse que também será difícil para o governo Obama tratar simultaneamente das armas táticas e estratégicas.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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