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24/12/2009

Energia nuclear, há muito dormente, redesperta

The New York Times
Matthew L. Wald
Em Washington (EUA)
Quando especialistas em confiabilidade da rede elétrica se perguntaram recentemente como seria um futuro de energia mais limpa, sete dos oito conselhos regionais imaginaram como seus sistemas funcionariam com 10% de energia eólica.

Apenas um, representando o sudeste dos Estados Unidos, escolheu uma opção radicalmente diferente: dobrar a capacidade da energia nuclear.

Trinta anos após a indústria nuclear americana ter abandonado várias usinas semiconstruídas devido aos altos custos e problemas operacionais, como o acidente de Three Mile Island, ainda persiste o ceticismo sobre se vale a pena investir na tecnologia.

Mas o pêndulo pode estar balançando de volta. As 104 usinas atualmente em operação aumentaram acentuadamente sua capacidade, encorajando companhias elétricas de todo o país a argumentarem em prol da construção de novas.

E o setor está prestes a receber um grande estímulo. Nos próximos dias, o Departamento de Energia planeja anunciar a primeira das garantias de empréstimo no valor de US$ 18,5 bilhões para construção de novos reatores.

As garantias foram autorizadas em um projeto de lei aprovado pelo Congresso em 2005. Foram necessários quatro anos para o departamento estabelecer um sistema para avaliar os pedidos e determinar quanto os tomadores de empréstimo pagarão pelas garantias, para compensar o governo pelo risco que assumiu. Especialistas acreditam que a primeira garantia irá para a Southern Company, para construção de duas unidades em sua usina nuclear Vogtle, perto de Augusta, Geórgia.

O dinheiro fluirá em meio ao arrocho nacional de crédito e à intensa disputa entre os setores de energia solar, eólica, geotérmica e nuclear do país. Cada um está tentando se apresentar como uma opção de energia "limpa", à medida que o país busca conter as emissões de dióxido de carbono associadas ao aquecimento global.

Todas essas fontes poderiam se beneficiar com o sistema de comércio de carbono que está sendo considerado no Congresso, como parte da legislação sobre mudança climática. Este sistema estabeleceria um teto às emissões de dióxido de carbono e permitiria o comércio de permissões de poluição, minando os setores de carvão e gás natural, intensivos em carbono.

Historicamente, os republicanos são mais entusiasmados com a energia nuclear do que os democratas. Logo, se os projetos de lei sobre a mudança climática avançarem no Senado, alguns senadores democratas pretendem aumentar os US$ 18,5 bilhões em garantias de empréstimo ao setor nuclear, para atrair os republicanos e alguns democratas de Estados industriais. (A versão da Câmara foi aprovada em junho, por 219 a 212 votos.)

Alguns dos principais defensores do combate à mudança climática no Congresso não estão entusiasmados.

O deputado Edward Markey, democrata de Massachusetts, que há décadas caça a indústria nuclear por questões de segurança e que é um dos autores do projeto de lei na Câmara, é contrário a uma ajuda direta ao setor nuclear. Ele argumenta que o sistema de comércio de emissões daria ao setor nuclear o único estímulo de que precisa.

Se o sistema entrar em vigor, ele disse, a energia nuclear "poderá competir de forma mais eficaz em um novo mercado. Quão eficazmente ela poderá competir será a pergunta".

Outros veem a combinação de um sistema de comércio de emissões com um pacote de energia nuclear como sendo uma tática sensível para fazer com que o Congresso trate dos problemas ambientais.

"É possível argumentar que certamente está promovendo um casamento incomum de interesses aqui", disse Philip R. Sharp, democrata de Indiana, que serviu na Câmara dos Deputados de 1975 a 1995 e que liderou um comitê da Câmara com jurisdição sobre o sistema elétrico.

"É um dos caminhos potenciais para obtenção de uma ação real e uma legislação real", disse Sharp, que atualmente chefia o grupo não-partidário Recursos para o Futuro.

Questões econômicas também ajudaram a formar alianças nas esferas estadual e local. Como os novos reatores criam muitos empregos e grande receita tributária, os governadores democratas de Maryland e Ohio estão trabalhando arduamente para que sejam construídos em seus Estados.

Os Legislativos estaduais da Louisiana e de Dakota do Sul e as prefeituras de Port Gibson, Mississippi, até Oswego, Nova York, também estão defendendo novos reatores.

Peter A. Bradford, um ex-membro da Comissão Reguladora Nuclear e que atualmente é vice-presidente da União dos Cientistas Preocupados, questiona a sabedoria de uma ajuda direta ao setor.

Diferente do sistema de comércio de emissões, no qual as empresas compram e vendem o direito de emitir dióxido de carbono em um sistema guiado pelo mercado, ele disse, as garantias de empréstimo financiam projetos que o setor privado considera arriscado demais.

O governo "escolheria alguns vencedores e lhes concederia muito apoio dos contribuintes", ele disse.

Pelas contas de Bradford, dentre os 28 reatores que a Comissão Reguladora Nuclear atualmente lista como planejados, metade sofreram grandes atrasos, um grande aumento do custo estimado ou foram abortados.

Para complicar o desafio, as futuras garantias de empréstimo representam apenas US$ 18,5 bilhões e a indústria nuclear diz que precisa de dezenas de bilhões adicionais.

O secretário de Energia do presidente Barack Obama, Steven Chu, reconheceu que a soma era pequena. Ele disse que poderia financiar no máximo, talvez, uma usina para cada novo desenho de reator, dificultando determinar qual projeto é o mais prático.

"Se eu fosse uma companhia elétrica, talvez uma de cada não seria de ajuda", ele disse. Ele sugeriu que a indústria nuclear precisaria construir dois ou três de cada.

Mas Chu insiste que a energia nuclear terá um papel importante em qualquer solução climática.

"Nós temos uma indústria nuclear dormente", ele disse. "Nós temos que retomá-la de uma forma que dê às pessoas que farão o investimento a confiança de que isto é economicamente viável."

Cientes dos desafios impostos pelo aquecimento global, alguns ambientalistas estão avaliando cautelosamente suas posições a respeito da energia nuclear.

"Há um número crescente de pessoas que passaram suas vidas como defensores do meio ambiente e que acreditam que o carbono é um problema tão urgente, a ponto de repensarem seu ceticismo em relação à energia nuclear", disse Jonathan Lash, presidente do Instituto dos Recursos Mundiais, que se coloca nessa categoria.

"Mas há muitas pessoas que são ambientalistas passionais, que também são oponentes passionais da energia nuclear e continuam assim", ele disse.

Entre os oponentes está Karen Hadden, diretora executiva da Coalizão para Energia Sustentável e Desenvolvimento Econômico em Austin, Texas, que está combatendo um projeto nuclear local que está aguardando por uma garantia de empréstimo. Apesar de defender fortemente limites ao carbono, ela disse, ela é contrária à construção de reatores.

Ela alertou que o dinheiro para projetos de energia solar, eólica e geotérmica pode ser desviado para "esses projetos multibilionários que podem ou não vir a ser construídos".

Daniel L. Roderick, vice-presidente sênior para projetos de usinas nucleares da GE-Hitachi Nuclear Energy, uma parceria entre a General Electric americana e a Hitachi do Japão, disse que há um ano e meio, havia a expectativa de que mais de 20 unidades estariam em construção no momento nos Estados Unidos. "Esse número atualmente é zero", ele disse.

Todavia, a GE e outras empresas investiram dezenas de milhões de dólares em planos para os reatores que esperam construir ao redor do mundo, incluindo dezenas nos Estados Unidos.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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