UOL Notícias Internacional
 

24/12/2009

Más condições e tratamento ruim aos animais em zoológico ucraniano

The New York Times
Clifford J. Levy
Em Kiev (Ucrânia)
Tatyana Shvets caminhava recentemente pelo zoológico de Kiev como se fosse seu próprio quintal, alimentando o bisão com restos de pão ("Oi, meus queridos!"), arrulhando para as cegonhas ("Oh, você deve estar com frio!") e distribuindo amor para todas as criaturas à vista, como faz desde que o visitou pela primeira vez em sua infância, há meio século.
  • The New York Times

    O zoológico de Kiev já viu dias melhores. Até mesmo os leões, tigres e ursos foram arrastados para a discórdia política incessante do governo da Ucrânia

Mas com frequência, sua alegria se transformou em desalento.

Ela insistia que o curral dos camelos estava uma bagunça. O elefante estava esquelético. O hipopótamo parecia deprimido. E quanto ao viveiro apertado dos macacos?

"Deus, que pesadelo", ela disse.

Shvets foi atrás e repreendeu os funcionários do zoológico, fazendo anotações mentais sobre as queixas que enviaria à direção do zoológico. Havia muito que escrever.

O zoológico de Kiev, ao que parece, já viu dias melhores. O governo da Ucrânia está desorganizado e a discórdia política parece incessante -e sim, agora até mesmo os leões, tigres e ursos foram arrastados para ela.

O zoológico foi expulso da Associação Europeia de Zoológicos e Aquários em 2007, devido às más condições e tratamento ruim aos animais. Defensores e ex-funcionários dizem que uma girafa e outros animais morreram por incompetência do zoológico, e que o dinheiro foi desviado do orçamento do zoológico por meio de esquemas corruptos.

O diretor do zoológico foi demitido no ano passado pelo excêntrico prefeito de Kiev, Leonid M. Chernovetsky, após fracassar em encontrar um companheiro para uma elefanta -ao menos é o que diz Chernovetsky. A nova diretora causou rebuliço entre os funcionários por seus modos supostamente tirânicos e, em outubro, estourou uma briga entre os funcionários durante uma comemoração do centenário do zoológico.

Recentemente, defensores dos direitos dos animais, incluindo Shvets, têm argumentado que os problemas do zoológico foram orquestrados por autoridades municipais, que querem vender seu terreno valorizado para empreendedores imobiliários e transferir os animais para os subúrbios. Os defensores chamam a estratégia, "Sem animais, sem problemas", inspirado nas palavras infames de Stalin, "Sem pessoas, sem problemas".

"Isso está sendo feito para que haja cada vez menos animais, para que possam ganhar dinheiro com o terreno", disse Shvets, 60 anos, uma funcionária pública aposentada. "As autoridades em Kiev só pensam ultimamente em dinheiro."

Os problemas nem sempre são imediatamente óbvios. Durante uma caminhada pelo zoológico em uma manhã de sábado, o lugar parecia mais deteriorado do que esquálido, como se antes aspirasse ao status de grande zoológico, mas que decaiu em meio aos tempos difíceis por falta de dinheiro e atenção.

Ainda assim, os defensores disseram que as piores condições não ficam à vista e eles circulam fotos que mostram como os animais são tratados longe dos olhos do público.

Muitos dos primatas e ursos são mantidos em jaulas claustrofóbicas porque os cercados públicos estão em ruínas. A construção de um pavilhão para os primatas teve início a um grande custo, então foi abandonada no ano passado. Os funcionários dizem aos visitantes que a maioria dos macacos está "sob quarentena".

"Eu realmente chorei quando entrei e vi as condições em que vivem os macacos", disse Tamara Tarnawska, líder do SOS-Animais de Kiev. "Era absolutamente horrível. Eu me senti envergonhada de ser humana." Ela disse que os animais ficam espremidos em jaulas mal iluminadas e sujas.

A direção do zoológico contestou muitas das críticas, dizendo que são feitas por ex-funcionários irritados ou por pessoas de fora sem conhecimento. A diretora do zoológico, Svetlana Berzina, reconheceu que o zoológico estava em más condições quando ela assumiu no ano passado. Ela disse que a direção anterior era incompetente e iniciou projetos que eram caros, desnecessários e que nunca foram concluídos, como o pavilhão dos primatas.

Berzina disse que substituiu funcionários, promoveu reformas, trouxe consultores e estabeleceu um código de ética.

"Nós estamos lidando consistentemente com todas essas questões", ela disse. "Mas eu acho que você pode entender que os problemas acumulados ao longo de décadas não podem ser resolvidos em um único ano."

"Um número significativo de funcionários do zoológico claramente não estava fazendo seu trabalho, e muitos estavam simplesmente bebendo demais durante o expediente", ela acrescentou. Berzina negou a existência de planos para venda do terreno do zoológico, assim como chamou de exagerado o estardalhaço em torno da briga durante a celebração do zoológico em outubro, dizendo que ela foi provocada por ex-funcionários.

As autoridades municipais esperam melhorar o zoológico o suficiente para reingressar na Associação Europeia de Zoológicos e Aquários, mas a associação disse que o zoológico terá que esperar até pelo menos 2012.

Apesar dos conflitos em torno do zoológico terem sido amplamente divulgados, alguns visitantes disseram não perceber o motivo de tanta confusão.

"Em comparação a outros zoológicos em que estive, os animais vivem muito bem aqui", disse Aleksei Nazarenko, 22 anos. "Há todos esses zoológicos itinerantes na Ucrânia e os animais vivem em condições ruins neles. Aqui, eles parecem ok."

Mas Yelena Ryabova, 55 anos, disse temer uma mudança de endereço do zoológico.

"Eles querem colocá-lo a 40 quilômetros daqui", ela disse, se referindo aos rumores persistentes. "É uma distância longa demais."

Quando Shvets ouviu as pessoas dizendo que os animais pareciam bem, ela balançou a cabeça. Ela disse que em seus muitos anos visitando o zoológico, a situação nunca esteve tão preocupante. Durante os tempos soviéticos, as instalações do zoológico podiam ser relativamente mais frugais, mas o tratamento era muito melhor, ela disse.

Agora, ela notou, as placas estão desatualizadas, animais estão misteriosamente ausentes e o zoológico está repleto de canteiros de obras desertos.

E então ela partiu para espiar um pouco mais.

"Onde está o hipopótamo?" ela perguntou para um funcionário, à beira de um cercado vazio.

"Quando o prefeito nos der dinheiro para reparos, você poderá ver o hipopótamo", resmungou o funcionário.

Shvets localizou o animal abandonado em um pequeno cercado em outra parte. "Bom dia, meu querido!" ela disse.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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