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25/12/2009

Violência de gangues cresce nas reservas indígenas dos EUA

The New York Times
Erik Eckholm Em Pine Ridge, Dakota do Sul (EUA)
Richard Wilson carregou o caixão de pelo menos cinco de seus "colegas" do Tre Tre Gangster Crips do Norte, uma imitação sioux de uma notória gangue de Denver.

Um membro de 15 anos foi espancado por rivais. Um de 17 anos atirou em si mesmo; outro, alucinado pela cocaína e disparando a esmo, foi morto a tiros pela polícia. Um, alcoolizado, morreu em um acidente de carro, e outro, um fundador da gangue chamado Gaylord, morreu esfaqueado aos 27 anos.
  • Matthew Williams/The New York Times

    Richard Wilson, à esquerda, e seu meio-irmão, Richard Lame no cemitério da reserva indígena de Pine Ridge, Dakota do Sul. Wilson carregou o caixão de pelo menos cinco de seus "colegas" do Tre Tre Gangster Crips do Norte, uma imitação sioux de uma notória gangue de Denver

"Todos nós nos embebedamos após o enterro de Gaylord e eu comecei a cantar rap", disse Wilson, que, aos 24 anos, é praticamente um ancião na gangue. "Mas comecei a chorar e não consegui terminar."

Wilson é um dos 5 mil jovens da tribo Oglala Sioux envolvidos com pelo menos 39 gangues na Reserva Indígena de Pine Ridge. É atribuído às gangues um aumento do vandalismo, roubo, violência e do medo que estão alterando a vida aqui e em outras partes do território indígena americano.

Esta terra deslumbrante de campinas onduladas, pastos de cavalos marrom-amarelados no outono e fazendas de girassóis é manchada pelo número surpreendente de cruzes à beira da estrada e símbolos de gangues pichados nas casas, lojas e prédios abandonados, dando às comunidades indígenas rurais um aspecto de periferia urbana.

Grupos como Wild Boyz, TBZ, Nomads e Indian Mafia atraem as crianças de lares partidos, arrasados pelo álcool, com o de Wilson, oferecendo irmandade, uma identidade extraída do rap de gangster urbano e proteção.

Alguns grupos possuem mais de uma centena de membros, outros apenas duas dúzias. Em comparação aos seus modelos urbanos, eles apresentam uma maior probabilidade de lutar contra os rivais, geralmente devido a alguma pequena ofensa, com punhos e porretes em vez de pistolas semiautomáticas.

Wilson, um desempregado que abandonou os estudos e que vive com irmãos e amigos na casa caindo aos pedaços de sua mãe, sem água encanada, exibia um cicatriz no nariz e uma sobre seu olho. "É como viver em um gueto", ele disse. "Alguém é espancado dia sim, dia não."

O Departamento de Justiça faz distinção entre as gangues domésticas das reservas e as gangues organizadas de drogas das áreas urbanas, as chamando de parte de um problema mais amplo de criminalidade juvenil nos territórios indígenas, que é auxiliado pela erosão da autoridade legal, falta de programas juvenis e uma taxa de suicídio entre jovens indígenas que é mais de três vezes maior do que a média nacional.

Se elas carecem do alcance das gangues maiores nas quais se inspiram, as gangues indígenas despontaram como mais uma força destrutiva em alguns dos lugares mais pobres e negligenciados do país.

Apesar de muitos crimes não serem denunciados, a polícia na reserva de Pine Ridge documentou milhares de roubos e ataques relacionados às gangues -incluindo ataques sexuais- e um aumento da criminalidade nos últimos três anos, assim como quatro assassinatos. Os moradores cada vez mais temem que suas casas serão roubadas ou vandalizadas. Janelas de carros são rotineiramente quebradas.

"Os moradores estão ligando e dizendo: 'Estou assustado'", disse Paul Iron Cloud, diretor executivo da Autoridade Habitacional dos Oglala Sioux (Lakota), ao Comitê do Senado para Assuntos Indígenas, em julho, em uma audiência especial sobre o aumento da atividade das gangues.

"Parece que todo dia temos mais violência", disse Iron Cloud.

Talvez em algo exclusivo das reservas, os rivais às vezes atiram latas de comida do programa federal uns contra os outros.

Com a redução das verbas federais para Pine Ridge ao longo da última década, a força policial tribal encolheu em mais da metade, com apenas 12 a 20 policiais por turno patrulhando uma área do tamanho do Estado de Rhode Island, disse John Mousseau, presidente do comitê judiciário da tribo.

O secretário de Justiça, Eric H. Holder Jr., propôs grandes aumentos na verba para a polícia, tribunais e programas juvenis, assim como para programas de combate à violência doméstica e sexual nas reservas.

Christopher M. Grant, que costumava comandar uma unidade antigangue da polícia em Rapid City, Dakota do Sul, e agora é consultor sobre gangues para várias tribos e agências federais, notou "o aumentado acentuado na atividade das gangues, particularmente nas reservas no Meio-Oeste, Noroeste e no Sudoeste" ao longo dos últimos cinco a sete anos.
  • Matthew Williams/The New York Times

    Um ex-detento que vive na reserva indígena mostra as cicatrizes de sua tentativa de suicídio. A aldeia sofre com altas taxas de desemprego e suicídio



A Nação Navajo no Arizona, por exemplo, identificou 225 gangues, em comparação a 75 em 1997.

Um grupo presente em várias reservas em Minnesota, chamado de Native Mob, parece mais com as gangues de rua vistas nas cidades, com liderança hierárquica e envolvimento no tráfico de drogas e armas, disse Grant.

Muitas das gangues em Pine Ridge, como a Tre Tre Crips, foram formadas por membros da tribo que se conheceram na prisão ou enquanto viviam fora da reserva; outras tiraram seus nomes e cores de filmes e músicas.

Enquanto buscam reforçar o policiamento, os líderes de Pine Ridge veem no revival cultural sua melhor esperança para combate às gangues a longo prazo.

"Nós estamos tentando dar uma identidade de volta aos nossos jovens", disse Melvyn Young Bear, o contato cultural nomeado pela tribo. "Eles estão envolvidos na subcultura dos afro-americanos e dos latinos. Mas eles são lakota e têm muito do que se orgulhar."

Young Bear, 42 anos, é encarregado de promover os rituais lakota, como tocar os tambores, cantar e realizar as danças do sol. Ele notou que alguns programas Head Start (do governo, que oferecem ensino, saúde, nutrição) agora são realizados totalmente em lakota.

Michael Little Boy Jr., 30 anos, da aldeia de Evergreen, disse que se sentiu inicialmente tentado pela vida de gangue, mas com os rituais e com a sauna purificadora, "eu consegui colocar a cabeça no lugar". Ele está despontando como um líder espiritual tribal, trabalhando com grupos jovens para promover as tradições indígenas.

Grant disse que um levantamento entre os jovens das reservas da Dakota do Sul apontou que a abordagem pode estar ajudando.

Wilson, o membro de gangue de 24 anos, disse que lamentava não ter aprendido a língua sioux quando era jovem e agora se pergunta a respeito de seu futuro.

"Eu ainda fico bêbado e ando com os colegas de gangue, mas não como antes", ele disse.

Seu carro, com os vidros quebrados, está estacionado do lado de fora de sua casa, de forma que não pode frequentar o supletivo que ele disse que gostaria de frequentar. Sua meta é dirigir um estúdio de gravação, onde seu meio-irmão mais novo, Richard Lame, 18 anos, poderia gravar raps. Lame está concluindo o colégio e diz que deseja ir para a faculdade.

Mas ele reconhece que ainda se junta aos cerca de 30 membros de gangue na cidade para festejar sempre que pode -"pela empolgação". Enquanto falava, ele se vestia com as cores escuras de sua gangue, a Black Wall Street Boyz, usando uma bandana preta; seu quarto minúsculo é decorado com cartazes de cinema de Al Pacino como o traficante megalomaníaco Tony Montana de "Scarface". Ele pegou suas letras de rap e fez uma apresentação improvisada.

"Desde o nascimento

Eu espero pela morte..."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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