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29/12/2009

Tentando influenciar a política dos EUA para Cuba com canção e conversa fácil

The New York Times
Ginger Thompson
Em Washington (EUA)
Quando um dos músicos mais conhecidos de Cuba chegou aos Estados Unidos, sua primeira aparição não foi em um palco, mas no Capitólio.

Carlos Varela, frequentemente tratado como o Bob Dylan de Cuba, veio para remixar um álbum com seu amigo Jackson Browne. Mas ele também esperava ajudar a mudar as relações entre os Estados Unidos e sua terra natal.

Assim, antes de seguir para Hollywood para trabalhar no álbum, ele fez uma parada em Washington no início deste mês, para encontros com legisladores e um almoço com um alto funcionário da Casa Branca. Posteriormente, ele participou de uma jam session na sala de reuniões do Comitê Orçamentário da Câmara.

Em quase toda parte em que Varela, 46 anos, esteve durante suas semanas nos Estados Unidos, incluindo universidades e institutos de políticas, a conversa fútil sobre música dava lugar a questões urgentes, porém educadas, sobre políticas.

"Eu não represento nenhum governo ou partido político", ele disse. "Mas talvez seja este o motivo para governos e políticos estarem dispostos a ouvir o que tenho a dizer."

O cantor e compositor, fazendo sua primeira viagem aos Estados Unidos em 11 anos, faz parte de um movimento de artistas, acadêmicos e empresários para mudar a política americana em relação a Cuba de baixo para cima. Quase um ano após o presidente Barack Obama tomar posse, prometendo abrir uma nova era de diálogo com Cuba, os dois governos parecem presos no mesmo velho impasse, com Washington exigindo que seu vizinho comunista adote reformas democráticas e Havana reclamando da interferência americana.

As tensões ressurgiram em 5 de dezembro, quando Cuba deteve uma pessoa contratada pelo governo americano, que viajou para Havana sem a autorização apropriada para entregar equipamentos de comunicação aos grupos dissidentes.

Mesmo assim, apesar da disputa persistir nos escalões mais altos, o governo Obama tem discretamente expandido o intercâmbio cultural e acadêmico como forma de se dirigir diretamente ao povo cubano. Muitos daqueles que participam tentam evitar a política.

"Nosso assunto é apenas música", disse Robert Bell, o cantor e baixista do Kool and the Gang, para a agência de notícias "The Associated Press" antes da banda subir ao palco em 20 de dezembro, em Havana. "Nós não viemos como políticos, nós viemos como músicos."

Outros veem esse intercâmbio como chances de preencher um vácuo político.

"Todos aqueles que vão para Cuba voltam questionando nossa política, porque o que eles veem não tem nada daquilo que ouvem por parte dos políticos americanos", disse Andy Spahn, um consultor político de Steven Spielberg e outros, que deu uma festa para Varela e levou clientes célebres para Havana.

Stephen Rivers, um consultor de relações públicas para celebridades e que já fez várias viagens para Cuba, disse: "Há tanta ficção cercando nosso relacionamento". Ele descreveu a forma como Kevin Costner foi cercado por fãs cubanos durante uma visita em 2001 como evidência de que a ilha está longe de isolada da cultura americana.

"A verdade é que estamos muito mais isolados deles do que eles de nós", ele disse.

Em setembro, centenas de milhares de cubanos se reuniram na Praça da Revolução, em Havana, para um concerto "Paz Sem Fronteiras" liderado pelo cantor de origem colombiana Juanes. O concerto, que contou com a presença de vários músicos americanos, foi organizado com assistência logística e de licenciamento significativa por parte do governo Obama.

Antes do evento, as pesquisas mostravam que mais da metade da comunidade cubana-americana em Miami, liderada por aqueles que fugiram da repressão, via o concerto como uma afronta. Depois, mais da metade expressou uma visão favorável do evento.

"Juanes abriu a porta para a mudança", escreveu Sergio Pino, um empresário e voz poderosa dentro da comunidade dos exilados cubanos que já foi um defensor ferrenho do embargo comercial contra Cuba, em uma carta ao "The Miami Herald". "É hora de repensarmos nossa estratégia."

Também em setembro, autoridades ambientais cubanas, que antes tinham seus vistos negados para participarem de conferências nos Estados Unidos, foram convidadas para vir a Washington para discutir questões de conservação relacionadas ao Golfo do México. Em outubro, um grupo de especialistas ambientais americanos foi para Havana para dar continuidade às conversações.

"Eu conheço pessoas que se queixam de que o presidente Obama não promoveu nenhuma mudança em relação a Cuba, mas até onde posso ver, ocorreram mudanças notáveis", disse Daniel Whittle, do Fundo de Defesa Ambiental, que organizou a viagem.

Apesar das décadas de embargo contra Cuba, os Estados Unidos há muito são os maiores fornecedores estrangeiros de alimentos à ilha. Obama suspendeu as restrições impostas pelo governo Bush para facilitar que produtores rurais americanos negociem com Cuba. Em novembro, dezenas deles participaram de uma feira do setor em Havana.

Então, no início de dezembro, Varela chegou em Washington. Era sua primeira visita aos Estados Unidos desde 1998; o governo Bush, que negou o visto a ele em 2004, negava rotineiramente vistos a artistas e acadêmicos cubanos como parte de um esforço para derrubar o governo, ao isolá-lo.

Em um encontro com o deputado Howard L. Berman, o democrata da Califórnia que preside o Comitê de Relações Exteriores da Câmara, Varela sugeriu uma abordagem diferente.

"Há alguns políticos cubanos que exploram o isolamento em benefício próprio", disse Varela. "Mas eu não acredito que alguém em Cuba conseguiria ficar no caminho caso os Estados Unidos decidissem abrir as relações. Se os Estados Unidos fizessem isso, a mudança em Cuba seria inevitável."

Usar a música para unir lados opostos em um dos debates de política externa mais antigos do país pode parecer uma ideia ilusória dentro da capital política americana.

Antes do concerto de Juanes em setembro, Obama disse a um repórter da "Univision" que apesar desses eventos não prejudicarem as relações dos Estados Unidos com Cuba, "eu não exageraria o quanto eles ajudam".

Varela, cuja viagem aos Estados Unidos foi patrocinada por uma organização política sem fins lucrativos chamada Centro para a Democracia nas Américas, disse que ele não se mostrou ingênuo a respeito da magnitude e complexidade das tensões entre os Estados Unidos e Cuba.

A vida dele foi marcada pelos altos e baixos da revolução cubana. O governo lhe deu uma educação de classe mundial em música e teatro, mas se recusa a tocar muitas de suas canções, pois elas possuem criticas veladas à liderança comunista.

Ao longo dos anos, a política lhe custou uma banda (membros pediram asilo à Espanha em 1997), um irmão (ele fugiu de Cuba há 12 anos) e talvez uma chance de maior renome internacional.

O fato, por exemplo, de suas letras nunca terem o levado à prisão, como muitos dissidentes políticos cubanos, contribuiu para a suspeita entre alguns cubanos-americanos de que ele é um agente cubano.

A música, ele disse, não promoverá um fim rápido a 50 anos de conflito político. Mas, ele disse, na ausência de um diálogo diplomático significativo, os músicos podem ser mais do que apenas celebridades.

"A música pode não sensibilizar os governos", ele disse. "Mas pode sensibilizar as pessoas. E as pessoas podem mudar os governos."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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