UOL Notícias Internacional
 

31/12/2009

EUA buscam culpado pela tentativa de atentado em avião

The New York Times
Scott Shane
Em Washington (EUA)
O apontar de dedos começou cedo nesta quarta-feira, a respeito de quem, dentre a sopa de letrinhas de agências de segurança norte-americanas, sabia o que e quando a respeito do nigeriano acusado de tentar explodir um avião de passageiros.

Mas o holofote mais duro caiu sobre a agência criada para assegurar que os pontos da inteligência permanecessem sempre ligados: o Centro Nacional de Contraterrorismo (NCTC, na sigla em inglês). A joia da coroa da reforma da inteligência após os ataques de 11 de setembro de 2001, o centro era o eixo cuja missão era unir todos os dados sobre ameaças e suspeitos, para assegurar que um extremista como Umar Farouk Abdulmutallab, o suposto terrorista, nunca penetrasse nas defesas norte-americanas.

"O NCTC é supostamente o centro nervoso", disse Amy B. Zegart, que estuda inteligência na Universidade da Califórnia, em Los Angeles. "É o centro de fusão de todos os centros de fusão. Logo, se algo foi perdido, é para onde deve ir a culpa."

Os funcionários do centro de contraterrorismo - uma pequena agência em um prédio moderno de vidro no subúrbio da Virgínia - mantiveram um silêncio estóico nesta quarta-feira, notando que a revisão ordenada pelo presidente Barack Obama ainda estava em andamento. Mas aqueles que lideraram os grandes estudos sobre como o governo norte-americano fracassou em prevenir os ataques terroristas do 11 de Setembro, assistiram ao desenrolar da história do ataque no Natal com crescente desalento.

"É totalmente frustrante", disse Thomas H. Kean, presidente da comissão nacional do 11 de Setembro. "Até parece que as palavras que estão sendo usadas para descrever o que saiu errado são exatamente as mesmas."

Eleanor Hill, a diretora da investigação conjunta do Congresso sobre o 11 de Setembro, chamou a história de "assustadoramente semelhante às desconexões e erros que investigamos".

"Parece ter ocorrido o mesmo fracasso em montar as peças do quebra-cabeça e apresentá-las às pessoas certas a tempo", disse Hill.

A dissecação deles dos ataques de 2001 ocorreu anos depois, com base em uma montanha de registros confidenciais e centenas de entrevistas.

Em comparação, a revisão sobre como Abdulmutallab foi autorizado a embarcar em um avião de passageiros, com destino a Detroit, com explosivos em sua cueca, mal começou. Um relato pleno pode mostrar que as falhas não foram tão graves quanto pareciam nesta quarta-feira, ou como Obama sugeriu.

Mas duas peças de informação críticas aparentemente nunca foram conectadas: as interceptações da Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês) de agentes da Al Qaeda no Iêmen, conversando a respeito do uso de um nigeriano em um ataque, e o alerta do pai de Abdulmutallab aos diplomatas norte-americanos na Nigéria, a respeito da radicalização do filho no Iêmen. Se o Centro Nacional de Contraterrorismo ou qualquer outra agência dispunha desses dois itens e nunca os ligou, o Congresso e o público vão querer saber por quê.

Os ecos do 11 de Setembro são óbvios. Antes dos ataques em Nova York e Washington, a NSA, a CIA e o FBI dispunham todos de inteligência sobre os futuros sequestradores. A CIA soou o alarme sobre um ataque iminente, incluindo o agora famoso Briefing Diário do Presidente de 6 de agosto de 2001, intitulado "Bin Laden Determinado a Atacar nos Estados Unidos".

Mas a informação que poderia ter desbaratado a trama permanecia em cada uma dessas três agências e nunca foi reunida.

A solução, proposta pela comissão do 11 de Setembro e aprovada pelo Congresso em 2004, foi colocar um único diretor de inteligência acima das 16 agências de espionagem do país. No centro estaria o Centro Nacional de Contraterrorismo.

De 2004 em diante, os críticos da reorganização da inteligência se queixaram de que o novo czar da espionagem tinha muito pouco poder e apenas acrescentava uma camada desajeitada de burocracia. Mas até mesmo os críticos aplaudiram o centro de contraterrorismo, que agora precisa defender seu desempenho.

Zegart, autora de "Spying Blind: The CIA, the FBI, and the Origins of 9/11", disse que ficou especialmente desanimada pelo fato da ocorrência da semana passada ter, novamente, ocorrido em um avião.

"Esse é o manual da Al Qaeda de 2001", disse. "Eles tentaram atingir o alvo mais duro que temos, aquele no qual a maior parte do dinheiro e da atenção foi gasto desde 2001. Mas mesmo assim não conseguimos prevenir."

Alguns observadores de contraterrorismo alertaram contra as alegações de que nada melhorou desde 2001. Analistas de inteligência de uma agência agora atuam rotineiramente por um período dentro de outra agência, para desenvolvimento de laços pessoais. Os bancos de dados sobre os suspeitos de terrorismo são muito mais completos e acessíveis. A proibição da retenção de dados é aplicada rigidamente.

"É a pena de morte caso você não compartilhe uma informação de ameaça", disse Kip Hawley, que comandou a Administração de Segurança nos Transportes (TSA) até janeiro. Esta agência, por exemplo, participa dos briefings diários realizados pelo centro de contraterrorismo e, às vezes, analistas da Agência de Segurança Nacional visitam seus pares na TCA, para investigar com eles as interceptações, disse.

Mas a enxurrada de inteligência coletada contra uma rede terrorista espalhada e obscura continua crescendo, ameaçando sobrecarregar todo o sistema, disse Matthew M. Aid, um historiador de inteligência cujo livro, "The Secret Sentry", examina a NSA.

A agência de espionagem, monitorando o tráfego de e-mail e telefonia celular ao redor do mundo, coleta todo dia quatro vezes o volume de informação armazenado na Biblioteca do Congresso, disse Aid.

"Pinçar as ameaças importantes é uma tarefa quase impossível", disse.

No caso de Abdulmutallab, a NSA parece ter obtido interceptações críticas, além de seu pai ter fornecido o nome que permitiria a ação das agências norte-americanas.

Para Kean, é o papel do pai que deveria ter movimentado até mesmo a burocracia mais calejada. "Pense no que foi preciso para o pai, um dos banqueiros mais respeitados na Nigéria, entrar em uma embaixada americana e denunciar o próprio filho", disse Kean. "O pai é um herói. Sua visita por si só deveria ser suficiente para disparar todo tipo de alarme."

Eric Lipton contribuiu com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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