UOL Notícias Internacional
 

01/01/2010

No coração do Iraque, um plano para reviver uma artéria central

The New York Times
Riyadh Mohammed e John Leland
Em Bagdá (Iraque)
Alguns planejadores urbanos daqui não querem deixar ao acaso como o Iraque se parecerá após a partida das forças norte-americanas. Trabalhando com a prefeitura de Bagdá e com o conselho provincial, engenheiros desenvolveram o maior projeto de reconstrução iraquiano desde a invasão liderada pelos Estados Unidos, em 2003, um plano de US$ 5 bilhões para reconstrução da principal rua econômica e cultural da cidade.

Em uma manhã recente, Ahmed Jabbar, 48 anos, olhava para uma imagem por computador do futuro e não ficou impressionado. Ele possui uma loja de moda masculina na rua Rasheed, antes uma próspera artéria da era otomana, mas agora arruinada após quase três décadas de guerra e sanções. Nos desenhos, a Rua Rasheed parece um shopping ao ar livre reluzente, com palmeiras e pórticos restaurados sobre lojas de dois andares, com colunas.

Jabbar chutou a calçada diante de sua loja, um produto de um projeto menor de reconstrução recente.

"Eles gastaram US$ 7 milhões nesta calçada estúpida", disse, "e ela é tão inclinada que, quando chove, a água corre para dentro das lojas. Com pessoas assim no governo, nós teremos as mesmas circunstâncias para sempre."

O plano de revitalização, apresentado ao conselho provincial neste mês, é a visão mais ambiciosa de um novo Iraque já apresentada, um testemunho da redução da violência nos últimos dois anos. A firma de engenharia, Al Miemari, baseou seu plano na reconstrução de Beirute após 1990, que criou milhares de empregos e atraiu bilhões de dólares em investimento estrangeiro e local à capital libanesa.

É um sinal do otimismo presente aqui o fato das pessoas estarem pensando em projetos de grande escala como esse.

"A melhor resposta ao terrorismo é insistir na reconstrução da rua mais importante de Bagdá", disse Kamil al Zaidi, que preside o conselho provincial da cidade. "É uma mensagem para todos. Nós seguiremos em frente."

Mas primeiro, o projeto enfrenta adversários mais prosaicos. Antes de se tornar público, ele provocou três investigações em andamento de corrupção, um problema disseminado que atrapalhou seriamente as melhorias no Iraque após a guerra.

"Tudo no projeto é suspeito", disse Abbas al Dihlegi, que dirige o comitê de integridade do conselho provincial. Com os bilhões de dólares esperados de investidores privados, tanto estrangeiros quanto iraquianos, as autoridades e lojistas da rua Rasheed suspeitam que grande parte do dinheiro acabará nos bolsos de políticos e prestadores de serviço relacionados. O grupo de vigilância Transparência Internacional recentemente nomeou o Iraque o quinto país mais corrupto do mundo, dentre 180 países estudados.

Al Dihlegi disse que o contrato inicial de US$ 7 milhões para desenvolvimento do plano e fornecimento de uma lista breve de empresas foi concedido à Al Miemari sem uma licitação pública envolvendo outras firmas. "Isso é contra as regras", afirmou. Ele notou que um dos sócios da firma, Thaeir al Faili, é um ex-vice-ministro da reconstrução e um atual membro da comissão de investimento de Bagdá, que concederá todos os contratos para trabalho no projeto.

"Há um conflito de interesses", disse Al Dihlegi.

Al Faili disse que nenhuma outra firma de engenharia apresentou uma proposta para o contrato, que agora está sendo investigado pela Comissão de Integridade Pública.

Mohammed al Rubaiei, presidente da comissão de planejamento estratégico do conselho provincial, disse que devido ao projeto ser financiado por investidores privados, por meio de uma empresa de acionistas que incluiria os donos de propriedades na rua, isso evitaria a corrupção e o clientelismo presentes nos projetos do governo.

Taghlub al Waeili, que é dono da firma de engenharia, disse que as acusações de corrupção foram feitas por seus concorrentes para retardar o progresso.

"A verdadeira corrupção é quando você para a reconstrução do país sob falsas acusações", apontou. E, além disso, ele acrescentou, um pouco de graxa pode ser um preço que vale a pena ser pago. "Se você soubesse que as torres do World Trade Center foram construídas com US$ 100 mil de corrupção", disse, se referindo aos prédios, não sua história, "o que você escolheria? Construí-las ou não?"

Al Rubaiei reconheceu que o projeto enfrentou vários obstáculos, incluindo a possibilidade da continuidade da violência. "Nós concordamos que o Iraque não está totalmente pronto como um ambiente para investimento", disse. "Mas não podemos esperar para sempre."

Ainda levará mais outro ano para que as obras tenham início, apontou.

A rua, projetada pelos otomanos em 1916 e baseada em Paris, está presente em grande parte da história de Bagdá: sunitas e xiitas planejaram a derrubada do governo britânico em 1920 na Mesquita Hayder Khana. Um levante comunista tomou a rua em 1948. Saddam Hussein iniciou sua carreira política ali em 1959, em uma tentativa de assassinato contra Abdul Kareem Qassim, o primeiro primeiro-ministro da república iraquiana.

"Não aconteceu nada no Iraque em que a rua Rasheed não tenha tido um grande papel", disse Yaseen al Nussayir, que escreveu um livro sobre a rua.

Em uma tarde recente, as fachadas decrépitas da rua Rasheed exibiam apenas um testemunho silencioso de seu passado, quando o Iraque - cheio do novo dinheiro do petróleo nos anos 50 - celebrava sua riqueza nas lojas e cinemas de sua rua mais antiga, onde os estilos arquitetônicos ocidental e árabe conviviam com um brilho otimista do modernismo da metade do século. As janelas agora estão quebradas ou cobertas de pó; venezianas estão tortas, escapando de suas dobradiças. No café mais antigo da cidade, homens fumam narguilé na calçada porque não há eletricidade no interior.

Os novos planos mostram nove grandes praças e um bonde passando por uma faixa de lojas, com sacadas em ferro que não estariam deslocadas em uma pequena cidade da Flórida. Os engenheiros identificaram 254 prédios como sendo históricos ou patrimônios que devem ser preservados se possível; em 1984, eram 526.

Para Muwafaq al Taei, ao visitar a rua em uma tarde recente, os prédios degradados evocavam um passado secular, liberal, muito diferente da Bagdá que está se materializando hoje. Como muitos iraquianos de classe média de sua idade, Al Taei, 68 anos, abraçou o comunismo e os movimentos artísticos e sociais da Europa dos anos 50 e 60, os vivendo na rua Rasheed. "Nós tínhamos os cinemas mais avançados, até mesmo cinemas 3D", ele disse. "Eu assisti 'Helena de Tróia' aqui, ao mesmo tempo em que passava na Inglaterra."

Al Taei, um engenheiro civil, disse que os planos de reconstrução são míopes, em parte por uma zona livre de carros ser inviável, em parte porque Bagdá atualmente carece de infraestrutura - municipal ou cultural - para regenerar aquilo que dava vida à Rua Rasheed. "Você não pula para o produto final", afirmou. "Rasheed é um produto final."

Para Jabbar, que dirige a loja de moda masculina, é prematuro começar a fazer planos para o futuro.

"Estes sete anos nos fizeram recuar um século por causa da corrupção", disse. "Nós não somos o primeiro país invadido em uma guerra, mas temos um governo que realizou apenas corrupção." Ele apontou para uma sacada decrépita do outro lado da rua, que até recentemente era mantida, mas que agora está sendo desmontada. "A rua Rasheed era o centro da vida econômica de Bagdá, mas agora está destruída", disse. "A corrupção do governo a destruiu."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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