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03/01/2010

Depois do Katrina, ainda é difícil ajudar as vítimas

The New York Times
Shaila Dewan Nova Orleans (EUA)
Quando o Renaissance Village, o amplo parque de trailers que abrigou pessoas desalojadas por conta do furacão Katrina próximo a Baton Rouge, estava prestes a fechar em maio de 2008, Theresa August foi uma das últimas a sair. Murmurando, cantando e usando um macacão de criança na cabeça, ela teve de ser convencida a fazer as malas e abandonar o trailer abarrotado que chamava de lar.

Hoje, August, 40, mora num pequeno apartamento em Nova Orleans que decorou com flores e luzes de Natal. Uma equipe de assistentes sociais garante que ela tome sua medicação antipsicótica e receba tratamento para o HIV. Ainda tímida e com um problema de fala, ela agora consegue conversar com muito mais coerência do que em qualquer momento desde a tempestade.

"Eu achava que não ia conseguir chegar a lugar algum", disse ela. "Mas cheguei".

Se é possível dizer que algum grupo de pessoas foi mais afetado pelo furacão Katrina, foram aqueles que foram deixados no Renaissance Village e em outros abrigos temporários quando a Agência de Administração de Emergência Federal (FEMA) começou a eliminar gradualmente o auxílio de moradia quase três anos depois da tempestade.

Elas estavam entre as pessoas mais pobres da região antes da tempestade em agosto de 2005, e recebiam apoio de uma densa rede de laços familiares e familiaridade em Nova Orleans. Muitos eram idosos, doentes, viciados, doentes mentais ou deficientes, sem escolaridade ou profissão, e traumatizados. Seus filhos eram repetentes na escola ou problemáticos. A tempestade foi inicialmente considerada como uma oportunidade para dar a eles uma vida melhor, mas à medida que o tempo progrediu, milhares de famílias desapareceram na morosidade da ajuda governamental.

Mais de quatro anos depois da enchente, suas vidas chegaram apenas a um equilíbrio frágil, com muitos deles ainda se voltando para agências privadas para buscar ajuda à medida que o auxílio do governo acaba. Alguns foram transferidos para programas permanentes do governo que pagam moradia, mas continuam a enfrentar obstáculos como a depressão clínica ou saúde em declínio.

Os que conseguiram se sair melhor forneceram uma lição valorosa para os trabalhadores sociais da região, uma lição que segundo eles o governo federal demorou a aprender: não é suficiente dar dinheiro, ou vales, a pessoas que são incapazes de se organizar. Os que atingiram uma maior estabilidade, como August, tiveram um cuidado maior: assistentes sociais que faziam visitas em casa, aconselhamento, transporte, encorajamento e sermões bem intencionados. Esse tipo de cuidado foi a exceção, não a regra.

As agências federais gastaram mais de US$ 200 milhões com as vítimas dos furacões Katrina e Rita, mas com frequência fizeram pouco trabalho de acompanhamento.

"É fácil só jogar dinheiro para as pessoas e depois de um ano cortá-lo", diz Toni Bankston, psicólogo no Neighbor's Keeper, um grupo sem fins lucrativos em Baton Rouge que trabalha com a Capital Area Alliance for the Homeless para oferecer assistência ampla às vítimas do furacão Katrina.

O próprio Neighbor's Keeper fez pouco progresso com muitos de seus clientes, disse a irmã Judith Brun, uma freira que coordena a organização, até que passou a oferecer cuidado mental.

"Pelo menos", disse Brun, "temos uma visão muito acurada sobre o que é necessário acontecer para ajudar as pessoas que perderam suas raízes. Às vezes é preciso ser um mentor e quase um pai ou uma mãe."

Sua agência cria um sistema de responsabilidade altamente pessoal para cada cliente: uma mulher desempregada recebe uma mesada, mas precisa se voluntariar na cozinha; ou cliente que está abandonando as drogas ou o álcool pode, apesar da relutância de Brun, receber cigarros. Em casos em que o menor obstáculo pode significar o fracasso, a Neighbor's Keeper oferece passes de ônibus, cartões telefônicos ou uniformes escolares. Por outro lado, a FEMA paga para as famílias para ficarem em hotéis por meses com muito pouco contato.

Como isso não encorajou um envolvimento mais profundo dos assistentes sociais, disse Burn, "o governo federal teve um retorno muito ruim de seu investimento".

Em muitos casos, o furacão simplesmente empilhou novas dificuldades sobre os problemas que já existiam antes, tornando a recuperação mais desafiadora. Laura Hilton, que tem três filhos e mal sabe ler, está atualmente abrigada num duplex em Nova Orleans, como parte do mesmo programa de moradia de August. Mas o filho de Hilton, Roy, de 12 anos, continua bem abaixo do seu nível escolar em leitura.

Funcionários da escola levam Roy ao médico, conseguem uma receita para medicação para transtorno de déficit de atenção, mas dizem que seus esforços não são tão eficazes porque ele não toma os remédios nos finais de semana ou feriados. Ainda assim, Roy vai à escola regularmente e constrói relacionamentos lá. Ele às vezes pede a Charlita Hayes, coordenadora de educação especial, para deixá-lo ver uma cópia da carteira de motorista de seu pai, que foi assassinado depois da tempestade, que ela guarda para ele em sua escrivaninha.

Alton Love, um pai solteiro de Baton Roube, foi hospitalizado em 2008 com diabetes em estágio avançado que ele não sabia que tinha. Quando ele conseguiu um novo emprego como motorista de van no verão e passou pelo exame admissional, o médico revogou sua carteira de motorista comercial porque a doença era muito severa.

Doris Fountain, 68, finalmente está de volta em sua casa reformada em Nova Orleans e visita regularmente um centro local para americanos idosos. Mas quando questionada sobre a tempestade e sobre o câncer que matou seu marido há menos de dois anos, ela cai em prantos.

Jermaine Howard, 16, perdeu três anos de escola. Mas depois de uma intervenção da Neighbor's Keeper, ele está morando com um primo mais velho em Baton Rouge, apresentando-se com o grupo de dança da igreja e se recuperou na escola. Agora é o seu irmão mais novo que está fora da escola. A Neighbor's Keeper está trabalhando para colocá-lo numa escola alternativa.

O que fica claro, a partir destas e outras histórias, é que a tempestade ainda está destruindo.

Das 30 mil famílias que recebiam auxílio temporária para o aluguel em fevereiro, 12.500 se qualificaram para receber ajuda permanente para moradia do governo federal, enquanto o resto foi cortado porque não precisava de mais ajuda ou não foi qualificado.

Dezenas dessas famílias ligaram em desespero para a Neighbor's Keeper em Baton Rouge ou para a Unity of Greater New Orleans, que fornece serviços para desabrigados. Para essas pessoas, os meses que passaram no programa de aluguel, segundo Brun, foram uma oportunidade perdida para que os assistentes sociais do governo as ajudassem ter uma maior autossuficiência.

Matthew Bailey, 44, atrasou o pagamento de seu aluguel de US$ 420 mensais logo depois que seu subsídio para moradia terminou em setembro. Ele tem um ferimento na cabeça e seu apartamento cheio de lixo é um cubículo com odor insuportável. Ele ganha muito pouco com empregos diversos como cuidar de animais de estimação. A Neighbor's Keeper o ajudará a requisitar pagamentos por invalidez, um processo que pode demorar mais de um ano.

Brun questionou por que seu assistente social federal, a quem Bailey diz que não vê desde pouco tempo depois de se mudar para o apartamento, não deu entrada no requerimento para ele.

"Matthew poderia ter sido um cidadão estabelecido, passeando com seus cachorros e cortando a grama", disse ela.

Tradução: Eloise De Vylder

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