UOL Notícias Internacional
 

03/01/2010

Sul do Sudão anseia por liberdade, mas teme uma nova guerra

The New York Times
Jeffrey Gettleman
A notícia correu em uma sexta-feira. Chibetek estava voltando com guerreiros e muito ressentimento, para acertar as contas.

Toda a aldeia entrou em modo de combate. Os meninos agarraram rifles enferrujados, as mulheres correram para o rio para se esconder na água, os velhos montaram sentinela nos arredores da aldeia, fixando seus olhos amarelos e remelentos nas vastas savanas e pântanos cheios de malária que mantiveram essa região isolada durante décadas.

Quando os guerreiros vieram, disseram os aldeões, havia centenas deles, talvez milhares, surgindo pelo capim-elefante, da altura do peito, com metralhadoras e lança-granadas, vestindo novos uniformes que significavam um nível inédito de organização militar.

"Não era uma batida para apanhar gado", disse Majak Piok, um idoso da aldeia.
  • Jehad Nga/The New York Times

    Mercado de gado em Poktap, no sul do Sudão, região que vive aumento na violência


O sul do Sudão, uma das áreas menos desenvolvidas e mais assoladas pela guerra da África, está em uma fase crítica, preparando-se para uma votação sobre a independência que provavelmente dividirá o Sudão, já volátil, em dois. É o auge de décadas de guerra civil e de um tratado de paz apoiado pelos Estados Unidos para pôr fim a ela, mas conforme se aproxima o dia tão esperado muitos sudaneses do sul temem que outra guerra devastadora esteja no horizonte.

Mais de 2 mil pessoas foram mortas este ano em batalhas de origem étnica, como a recente em Duk Padiet. Os aldeões chamam isso de "guerra tribal", mas os líderes do sul do Sudão e alguns diplomatas da ONU suspeitam que não sejam simplesmente disputas locais resolvidas a ponta de fuzil.

Em vez disso, eles indicam um recente influxo de armas na região, dizendo que isso sugere que as autoridades do norte do Sudão estejam armando várias facções - como já fizeram antes -, em um complô para mergulhar o sul no caos e para que o referendo da independência marcado para 2011 seja adiado ou mesmo cancelado.

Os políticos do norte, que controlam o país, negam ardentemente essas acusações, e não há uma prova concreta de interferência. Porém, a estabilidade do Sudão, o maior país da África, com quase 2,6 milhões de quilômetros quadrados, pode estar em jogo.

Mais de 2 milhões de pessoas morreram durante a guerra civil que terminou com o acordo de paz de 2005, e se irrompesse um novo conflito norte-sul poderia incluir militantes de Darfur, das montanhas Nuba, do leste do Sudão e de outros cantos do país.

Desta vez o centro poderá não suportar, segundo muitos analistas, porque a política do Sudão se tornou muito combustível. O presidente Omar Hassan al-Bashir foi acusado de crimes de guerra; o país se prepara para uma eleição disputada em abril; enormes suprimentos de armas continuam entrando; e militares do norte e do sul estão em alerta máximo, especialmente em áreas de fronteira disputadas.

Já no sul, as aldeias estão sendo arrasadas, crianças são sequestradas e milhares de civis despossuídos estão afluindo para campos de refugiados, em cenas que lembram o conflito de Darfur, que, depois de anos de violência, está comparativamente tranquilo.

"Este é o núcleo" da violência, disse David Gressly, a principal autoridade da ONU no sul do Sudão. Ele passou a mão sobre um mapa mostrando o estado de Jonglei, onde a aldeia de Duk Padiet foi atacada por um comandante rebelde chamado Chibetek. Vários outros massacres ocorreram recentemente na área.

O roubo de gado e pequenas escaramuças acontecem há eras, disse Gressly, mas este ano houve uma "facilidade e disponibilidade de munição" incomum.

O norte tem uma história bem documentada de canalizar armas para o sul do Sudão e atirar os sulinos uns contra os outros, geralmente seguindo linhas étnicas. Além disso, há bilhões de dólares de petróleo no sul, que o norte claramente não quer perder.

No entanto, o norte dominado pelos árabes também é um bode-expiatório conveniente, e as autoridades do norte se queixam de ser retratadas como "o bicho-papão". Desde que o sul do Sudão recebeu certa autonomia, em 2005, seus líderes decepcionaram a população de muitas maneiras, com esquemas de desarmamento ineficazes e uma tremenda corrupção.

Recentemente, US$ 200 milhões que seriam destinados à compra de cereais desapareceram do Ministério das Finanças do sul, em um momento em que a seca e os deslocamentos relacionados ao conflito deixaram mais de um milhão de sulinos à beira da fome.
  • Jehad Nga/The New York Times

    Destroços de avião militar da guerra civil da década de 1980 em um campo de Jonglei (Sudão)


A terra aqui é árida, e em alguns lugares parece um depósito de dejetos de guerra, com tanques queimados e aviões de caça derrubados desaparecendo no mato. No período colonial, os britânicos dividiram a área em zonas de influência para os poucos missionários europeus que se dispuseram a enfrentar a malária, a febre tifóide e o calor inclemente.

A população aqui é notavelmente diferente de seus conterrâneos do norte islâmico. A maioria é animista ou cristã, extremamente alta - não é raro encontrar homens de 2 metros - e ligada a uma vida que gira tão estreitamente ao redor do gado que as pessoas dão nomes de bois e vacas a seus filhos.

Mesmo antes de o Sudão se tornar independente, em 1956, os sulinos já lutavam para ter um país próprio. A guerra irrompeu várias vezes e no final da década de 1980 o Exército de Libertação do Povo do Sudão (SPLA na sigla em inglês) surgiu como a força guerrilheira multiétnica mais forte.

Entretanto, quando o SPLA estava prestes a capturar as principais cidades, os rebeldes - instigados por políticos do norte - se dividiram violentamente. Algumas das piores atrocidades durante a guerra civil foram atos do sul contra o sul, como o chamado massacre Bor em 1991, quando guerreiros nuer assassinaram 2 mil dinka. Foi essencialmente uma guerra civil dentro de uma guerra civil.

Muitas pessoas aqui dizem que hoje há um sentimento parecido.
  • Jehad Nga/The New York Times

    Soldados do Exército de Libertação do Povo do Sudão (SPLA na sigla em inglês), posam para foto sentados do lado de fora de um container usado como prisão, em Duk Padiet, sul do país


Em Duk Padiet, o terreno é marcado por círculos de cinzas das cabanas queimadas durante o ataque de setembro. A população daqui é dinka. Os atacantes bem armados eram nuer. Mais de 160 pessoas foram mortas, incluindo policiais, mulheres, crianças e um comerciante somali e um lojista de Darfur, enterrados na mesma cova rasa porque ninguém sabia exatamente de onde eram.

Os líderes nuer não negam que seus guerreiros mataram dezenas de pessoas. Mas dizem que o governo local chefiado pelos dinka estava bloqueando uma estrada para regiões nuer e não permitia o acesso dos nuer ao rio.

"Os nuer sentiram que o governo os ignorava", disse Solomon Pur, um jovem líder nuer.

No passado essas rivalidades ocasionalmente se tornavam violentas, com alguns guerreiros mortos de cada lado. Mas os recentes ataques mais parecem manobras de infantaria. Em um massacre em março, 17 aldeias foram sitiadas e mais de 700 pessoas morreram, segundo oficiais da ONU.

Diing Akol Diing, um comissário de distrito próximo a Duk Padiet, guarda fotos das vítimas em seu computador: crianças com buracos de bala no peito, idosas caídas em poças de sangue, guerrilheiros de milícias em roupas novas camufladas.

"Isto é loucura", ele diz. Clica em uma foto de mais de dez pessoas enroladas em cobertores e jogadas em uma vala. "Valas comuns?", ele diz. "Nós nunca tivemos valas comuns".

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