UOL Notícias Internacional
 

05/01/2010

Governo iraniano tenta censurar cineastas do país; artistas resistem

The New York Times
Michael Slackman
Do Cairo (Egito)
O governo iraniano não pode silenciar os cineastas.

Mas ele continua tentando. Filmes são censurados, diretores são proibidos de deixar o país e proibidos de retornar a seu lar, obrigados a cancelar projetos e ameaçados com punição se seus filmes forem investigativos ou críticos demais sobre a vida na República Islâmica.

Mas os filmes continuam surgindo, e os cineastas também.

O último trabalho de Bahman Ghobadi, "No One Knows About Persian Cats" [Ninguém Sabe dos Gatos Persas], está proibido no Irã mas tem circulado gratuitamente, oferecendo um retrato cáustico da vida através do prisma de um vibrante cenário musical underground. O filme conta com músicas cujas letras são assim: "Esta é Teerã, a cidade onde tudo que você vê seduz sua alma, até que você percebe que não é mais humano, apenas lixo."
  • Reprodução

    Cinema: Cena do filme iraniano "Ninguém Sabe dos Gatos Persas", dirigido pelo cineasta Bahman Ghobadi, alvo de censura pelo governo iraniano


O filme levou o Prêmio Especial do Júri no Festival de Cannes em 2009, transformando o tapete vermelho de um festival internacional de cinema em uma plataforma para chamar a atenção à crise política no Irã. Eventos parecidos ocorreram em Montreal, Berlim, Nuremberg, Mumbai e Londres, onde cineastas iranianos - seja através de sua presença ou através de sua ausência forçada pelo governo - usaram seu status de celebridade para manter o público focado nas manifestações que têm agitado o Irã desde a eleição presidencial em junho, a qual os opositores do governo denunciaram como fraudulenta.

"As pessoas no meu país são mortas, presas, torturadas e estupradas apenas pelo seu voto," disse Mohsen Makhmalbaf, um dos mais renomados cineastas iranianos, depois de aceitar o prêmio Freedom to Create em Londres no mês passado. "Cada prêmio que recebo significa uma oportunidade de fazer com que suas vozes ecoem pelo mundo, pedindo por democracia no Irã e paz no mundo."

O governo iraniano tem estado ocupado lutando em muitas frentes, se esforçando para manter a ordem nas ruas, para restaurar a unidade entre as fileiras da elite política e religiosa, e para manter algum grau de legitimidade dentro e fora de casa. De maneira progressiva, seus esforços falharam ao mesmo tempo em que o governo se valeu de força, incluindo repressão letal, na tentativa de abater os protestos e intimidar a oposição ao silêncio. Alguns dos defensores mais radicais do governo começaram a pedir pela execução daqueles que contestam e desafiam a vontade da liderança.
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    O diretor iraniano Bahman Ghobadi (centro) ao lado do elenco de outro grande sucesso de sua carreira: o filme "Marooned in Iraq"


Mas o governo também se mobiliza contra a oposição de maneiras mais veladas, trabalhando para expurgar do currículo escolar aquilo que considera idéias subversivas, como o estudo das ciências humanas, e criando uma nova força de polícia virtual para patrulhar a internet.

E tem sido dada uma ênfase especial à tentativa de se domar a indústria de filmes, que mesmo antes de o governo islâmico chegar ao poder já tinha uma longa história como um meio para se expressar - e se explorar - idéias consideradas tabu por governos autoritários e sociedades conservadoras. Por décadas, os cineastas se valeram da alegoria e do simbolismo para driblar censores e provocar seu público a pensar.

Durante o reinado do xá, "assistíamos aos filmes não apenas para aprender sobre o cinema nacional, mas para buscar referências ocultas à tirania e à dominação" declarou Hamid Dabashi, professor de estudos iranianos e literatura comparada na Universidade de Columbia, que escreveu amplamente sobre o cinema iraniano. O professor Dabashi disse que o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, estava bem ciente da influência do cinema em uma nação onde a arte e os artistas eram apreciados em todos os segmentos da sociedade.

"Ele se lembra bem de como as artes, a literatura e a poesia eram o modus operandi dos anos 1970, que levou à revolução," ele declarou. "Sempre teve uma tremenda influência e sempre esteve lá."

O aiatolá Khamenei e o presidente Mahmoud Ahmadinejad se mobilizaram contra a indústria cinematográfica como parte daquilo que chamaram de uma "guerra suave" conta as influências ocidentais no Irã. Javad Shamaghdari, o responsável pelo cinema no Ministério da Cultura e Instrução, anunciou mês passado que o presidente iria liderar pessoalmente um novo braço do governo para supervisionar o cinema iraniano.

"Hoje vemos que o inimigo nos embosca culturalmente e aumenta a intensidade de seus ataques," declarou Shamagdari, segundo uma agência oficial de notícias iraniana. "Nosso cinema tem de encontrar seu lugar, e é responsabilidade dos cineastas assumirem esse papel."

O líder supremo organizou uma reunião dos diretores de cinema no fim do mês passado, falando sobre como o cinema não era arte de verdade, mas sim uma ferramenta da propaganda política. Ele disse que os Oscars (assim como os prêmios Nobel) "não tinham nenhum valor e os artistas nunca deveriam trabalhar para fazer filmes com o propósito de ganhar tais prêmios."

Os esforços do governo produziram resultados em casa, onde filmes que exploram qualquer coisa que pareça contrária à narrativa da liderança foram proibidos. Mas não conseguiram silenciar os cineastas em si. No encontro com o líder supremo, o premiado diretor Majid Majidi reclamou que não "há respeito aos direitos humanos, e o governo é tão motivado ideologicamente que nossas mãos estão atadas," declarou Jaleh Pirnazar, professor do Centro de Estudos do Oriente Médio na Universidade da Califórnia em Berkeley.

O governo ficou constrangido quando um grupo de diretores boicotou um recente festival de documentários em Teerã, dizendo que não podiam mostrar a verdade. Uma conhecida diretora, Manijeh Hekmat, escreveu uma carta aberta ao Ministério da Cultura exigindo que o governo a ressarcisse pelo dinheiro que havia perdido, porque os censores a proibiram de exibir seu filme "Sons", e ameaçou "queimar este filme na frente dos cinemas".

A pressão em casa tem inspirado muitos cineastas a levarem seus casos ao exterior. Jafar Panahi, que ganhou o mais alto prêmio no festival de Veneza em 2000 pelo filme "O Círculo", um sombrio e tocante retrato do lugar da mulher na sociedade iraniana, foi preso por participar de um protesto depois da eleição. Ele apareceu em um festival de cinema em Montreal nesse verão, onde pediu a todos os juízes que usassem um cachecol verde, o que fizeram.

Ele usou um também.

Verde é o símbolo do movimento de oposição no Irã; as autoridades não gostaram do que Panahi fez e o impediram de deixar o país para participar de um outro festival internacional, desta vez na Índia. Isso também atraiu atenção para a oposição.

O governo iraniano ficou ainda mais constrangido no mês passado quando Narges Kalhor, 25, filha do assessor cultural de Ahmadinejad, exibiu um curta no Festival de Cinema dos Direitos Humanos em Nuremberg na Alemanha, e então anunciou que estava pedindo por asilo político.

Mas talvez ninguém tenha usado mais sua carreira no cinema para apoiar a oposição do que Makhmalbaf, diretor de "A Caminho de Kandahar", aclamado pela crítica. Ao aceitar seu prêmio em Londres, ele o dedicou ao falecido Grande Aiatolá Hossein Ali Montazeri, o líder espiritual da oposição.

Makhmalbaf dedicou um prêmio pelo conjunto da obra, que recebeu em Nuremberg, ao clérigo Mehdi Karroubi, um ex-candidato presidencial que acusou as autoridades penitenciárias de estuprarem e sodomizarem jovens, homens e mulheres, presos por tomarem parte nos protestos pós-eleição.

Além dos créditos de seus filmes, Makhmalbaf, assim como Karroubi, tem uma relação pessoal de peso com o governo islâmico. Quando jovem, ele fez filmes que serviram à liderança, tornando-se cada vez mais desiludido; então mudou-se para a França, onde agora vive e trabalha.

Em casa, no Irã, nem todos os diretores responderam ao chamado para criticar. Abbas Kiarostami, cujos próprios exames poéticos da vida iraniana o estabeleceram como a mais respeitada figura do cinema iraniano, criticou a decisão de Ghobadi de fazer "No One Knows About Persian Cats" sem a permissão do governo, e depois decidir deixar o país. Isso desencadeou um debate público sobre o papel da arte no Irã, e se ela deve ter um componente sócio-político.

Kiarostami, cujo "Gosto de Cereja" conquistou a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1997, foi mentor de Ghobadi, o que fez a crítica particularmente dolorosa, levando Ghobadi a responder com uma tocante carta pública a seu antigo professor.

"Baseado em quê você se permite ridicularizar os esforços de cineastas que se colocam ao lado dos oprimidos usando palavras inaceitáveis e, pior do que isso, usando a mesma voz que os ditadores religiosos?", escreveu Ghobadi.

O assistente de Ghobadi disse que ele estava viajando e não estava disponível para comentários, mas que planejava retornar em breve. Para Berlim, não para o Irã.

Tradução: Lana Lim

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