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06/01/2010

Irã protege usinas nucleares em túneis e montanhas

The New York Times
William J. Broad
Em setembro passado, quando foi revelada a existência de uma usina de enriquecimento de urânio do Irã, dentro de uma montanha próxima da cidade sagrada de Qom, o episódio ressaltou um padrão mais amplo: ao longo da última década, o Irã escondeu discretamente uma parte cada vez maior de seu complexo atômico em redes de túneis e "bunkers" por todo o país.

Ao fazê-lo, disseram especialistas federais e privados, o Irã atingiu um duplo propósito. Não apenas o país protegeu sua infraestrutura de um ataque militar sob barreiras de rocha densa, como também ocultou ainda mais a escala e natureza de seu esforço nuclear notoriamente invisível. A descoberta da usina em Qom apenas aumentou o temor da existência de outras instalações não declaradas.
  • AFP - 27.abr.2007

    Presidente do Irã discursa durante visita a usina de enriquecimento de urânio, em Natanz, no Irã. Mahumud. Ele é acusado pelos EUA de iniciar a produção de combustível nuclear "em escala industrial", os atritos também com a União Européia e o Conselho de Segurança da ONU



Agora que passou o prazo do final de ano para progresso diplomático, estabelecido pelo presidente Barack Obama, esse manto de invisibilidade despontou como uma espécie de arma furtiva, complicando o cálculo militar e geopolítico do Ocidente.

O governo Obama diz que espera tirar proveito da inquietação política doméstica e desarranjo no programa nuclear do Irã para pressionar por um regime de novas sanções, imediatas e mais fortes. Mas um fator crucial por trás do esforço por soluções não-militares, dizem alguns analistas, são os túneis do Irã - o que Teerã chama de estratégia de "defesa passiva".

De fato, o secretário de Defesa, Robert Gates, desconsiderou repetidas vezes a possibilidade de um ataque militar, dizendo que apenas retardaria as ambições nucleares do Irã em um a três anos, ao mesmo o tempo ocultando ainda mais o programa.

Alguns analistas dizem que Israel, que adotou a linha mais dura em relação ao Irã, pode ser particularmente atrapalhado, dado suas forças armadas e capacidades de inteligência menos formidáveis.

"Isso complica o estabelecimento dos alvos", disse Richard L. Russell, um ex-analista da CIA e atualmente na Universidade de Defesa Nacional. "Nós estamos acostumados com as instalações presentes acima do solo. No subsolo, isso se transforma literalmente em um buraco negro. Não dá para saber o que está realmente acontecendo."

Até mesmo os israelenses reconhecem que a rocha sólida pode tornar as bombas inúteis. No final do mês passado, o ministro da Defesa israelense, Ehud Barak, disse ao Parlamento que a instalação em Qom estava "localizada em "bunkers" que não podem ser destruídos por meio de um ataque convencional".

O Irã altamente montanhoso tem uma longa história de túneis para fins civis e militares, e Mahmoud Ahmadinejad exerceu um papel primeiro como engenheiro de transportes e fundador da Associação Iraniana de Construção de Túneis, depois como presidente do país.

Há centenas, talvez milhares, de grandes túneis no Irã, segundo o governo americano e especialistas privados, e as linhas que separam seus diferentes usos não são claras. As empresas de propriedade da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, por exemplo, constroem tanto os túneis civis quanto os militares.

Ninguém no Ocidente sabe quanto, ou exatamente que parte, do programa nuclear do Irã está escondido. Ainda assim, a evidência de transferência do esforço atômico para o subsolo é clara.

O outro lado
O Google Earth, por exemplo, mostra que o centro original do complexo nuclear iraniano, em Esfahan, consiste de vários prédios facilmente visíveis - e fáceis de atacar. Mas analistas nucleares do governo dizem que, nos últimos anos, o Irã formou uma colméia de túneis nas montanhas próximas. Fotos por satélite mostram seis entradas.

As autoridades iranianas dizem que os anos de ameaças veladas de bombardeio levaram o país a exercer seu "direito soberano" de proteger suas instalações nucleares, ao escondê-las no subsolo. Esse foi o argumento quando anunciaram seus planos, no final de novembro, de construção de 10 fábricas de enriquecimento de urânio. Apesar da improbabilidade e vanglória da declaração, a história de construção de túneis do Irã dá a ela certa dose de credibilidade.

"Elas ficarão espalhadas pelas montanhas", disse o chefe da Organização de Energia Atômica do Irã, Ali Akbar Salehi, para a "Press TV" do Irã. "Nós usaremos a defesa passiva para não precisarmos de uma defesa ativa, que é muito cara."

Gates, juntamente com outras autoridades ocidentais, rejeitou esse argumento como sendo uma fachada para um programa secreto de armas. "Se a quisessem para fins pacíficos", ele disse sobre a instalação de Qom na "CNN", "não há motivo para colocá-la no subsolo, não há motivo para mantê-la em segredo por tanto tempo".
  • Reuters - 08.ago.2005

    Técnicos iranianos manuseiam barril de 'yellow cake' (urânio ainda não enriquecido) na usina de Isfahan, a 420 km de Teerã. A agência nuclear da ONU afirmou que o Irã retomou suas atividades em uma usina de conversão de urânio, o que aumenta o temor de que o país tente obter a bomba atômica. Segundo fontes da CIA, eles esconde as ogivas em montanhas e túneis

O Irã nega fortemente que seus esforços nucleares sejam para fins militares e insiste que deseja a capacidade estritamente para fins pacíficos, como para geração de eletricidade. Ele diz que deseja construir muitas usinas de enriquecimento para alimentar até 20 usinas nucleares -um plano que muitos economistas questionam, porque o Irã é o segundo país do mundo em reservas de petróleo e gás natural.

Truque ou não, qualquer expansão parece improvável. Após uma década de construção, a principal usina de enriquecimento do Irã, em Natanz, opera a apenas uma fração minúscula de sua capacidade projetada. A usina de Qom está apenas parcialmente construída. Especialistas nucleares dizem que as novas usinas, se tentadas, levariam anos para se materializar, até mesmo décadas. Mesmo assim, eles notam que os túneis protetores seriam a parte mais fácil do plano e poderiam ser cavados em um prazo relativamente breve.

Apesar das dúvidas sobre se o Ocidente pode ameaçar de forma crível destruir o programa nuclear do Irã, analistas insistem que os Estados Unidos, Israel e seus aliados nunca descartarão essa opção. O Pentágono, na verdade, está correndo para desenvolver uma nova bomba poderosa, destruidora de túneis.

"Alvos enterrados profundamente há muito são um problema", disse Greg Duckworth, um cientista civil que recentemente liderou um esforço de pesquisa do Pentágono para localizar túneis inimigos. "E está ficando cada vez pior."

Ahmadinejad iniciou sua vida profissional como engenheiro de transportes, com laços estreitos com a Guarda Revolucionária e um interesse em túneis.

Ele ajudou a fundar a Associação Iraniana de Construção de Túneis em 1998, segundo o site do grupo. Naquele ano, o metrô de Teerã deu início a uma grande expansão, e o Irã, em segredo, acelerou seu programa nuclear.

Presidente iraniano entende muito de túneis
No início de 2004, enquanto era prefeito de Teerã, Ahmadinejad serviu como presidente da 6ª Conferência Iraniana de Construção de Túneis. Ele elogiou os líderes da antiga Pérsia pela criação das redes de canais de água subterrâneos e pediu pela criação de novos "túneis" entre o governo, universidades e grupos profissionais.

"Eu peço a Deus que nos ajude", ele disse em um relatório. Essas conferências sobre construção de túneis, realizadas regularmente em Teerã, atraíam fabricantes de todo o mundo de maquinário de escavação de túneis -maquinários tão grandes quanto locomotivas que cavam rapidamente entre camadas rochosas. A Terratec, uma fabricante australiana, notou no início do ano passado que o Irã recentemente se tornou "um dos mercados mais ativos do mundo".

Muitas das empresas possuem escritórios em Teerã. A Herrenknecht, uma empresa alemã considerada a líder do mercado, possui três. Os engenheiros dizem que o Irã possui centenas de quilômetros de projetos de túneis civis em andamento, incluindo linhas de metrô em Teerã, Esfahan e Shiraz, túneis em rodovias por todo o país e túneis de água para irrigação do interior seco.

Segundo todos os relatos, as sementes para transferência da capacidade militar para o subsolo foram plantadas durante a guerra entre o Irã e o Iraque nos anos 80, quando o Iraque atingiu Teerã e outras cidades iranianas com ondas de mísseis. A construção de abrigos, bunkers e túneis se transformou em um dever patriótico.

Em 2002, o Conselho Nacional de Resistência do Irã, um grupo de oposição, revelou que o Irã estava construindo uma instalação nuclear subterrânea secreta em Natanz, que revelou ser para enriquecimento de urânio. As usinas de enriquecimento podem produzir combustível para reatores ou, com um pouco mais de esforço, bombas atômicas.

Fotos por satélite mostraram os iranianos enterrando dois salões cavernosos com cerca da metade do tamanho do Pentágono. Estimativas calculam a espessura da rocha, terra e concreto acima em cerca de 9 metros -o suficiente para frustrar as bombas, mas não para garantir a sobrevivência da instalação.

A revelação de Natanz provocou o confronto do Ocidente com o Irã. Dois anos depois, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) descobriu, para sua surpresa, que o Irã estava abrindo túneis nas montanhas ao lado da instalação de Esfahan, onde o urânio é preparado para enriquecimento. "O Irã fracassou em informar a agência em um prazo apropriado", disse um relatório da AIEA em uma atenuação diplomática.

Então, no final de 2005, o grupo de oposição iraniano realizou coletivas de imprensa em Paris e Londres para anunciar que seus espiões descobriram que o Irã estava cavando túneis para mísseis e atividades atômicas em 14 locais, incluindo um complexo subterrâneo próximo de Qom. O governo, disse um representante do conselho, estava construindo os túneis para esconder "sua busca por armas nucleares". O conselho acusou Ahmadinejad e a associação de túneis de fornecerem uma fachada civil para as obras e aquisições militares.

As afirmações do conselho receberam pouca atenção. Alguns especialistas ocidentais as consideraram um exagero. Alguns questionaram a objetividade do conselho, já que ele buscava a derrubada do governo. Talvez o maior obstáculo tenha sido a suspeita nutrida em relação aos desertores, em um momento em que a invasão americana ao Iraque provava ter sido baseada em alegações falsas por parte dos dissidentes iraquianos a respeito das armas não-convencionais de Saddam Hussein.

Limites para a ONU e atividades suspeitas
Os inspetores nucleares da ONU checaram alguns dos túneis em Esfahan, mas não em Qom, porque a instalação fica em uma base militar, portanto fora dos limites para inspeção sem que haja forte evidência de atividade suspeita.

"Nós seguíamos o que quer que inventassem", disse Mohamed ElBaradei, o ex-chefe da Agência Internacional de Energia Atômica, sobre o conselho em uma entrevista. "E muita coisa era falsa."

Frank Pabian, um alto conselheiro para não-proliferação nuclear do Laboratório Nacional de Los Alamos, no Novo México, discorda fortemente. "Eles estão certos em 90% das vezes", ele disse sobre as revelações do conselho sobre as instalações clandestinas do Irã. "Isso não significa que são perfeitos, mas 90% é um bom retrospecto."

Em 2007, o conselho anunciou que o Irã estava construindo túneis nas montanhas próximas de Natanz, a ampla instalação de enriquecimento. Fotos por satélite confirmaram isso.

E Qom se tornou um desagravo, apesar de tardio, no final de setembro, quando Obama, acompanhado pelos líderes britânico e francês, identificou uma "instalação secreta de enriquecimento de urânio" sendo construída lá.

No início de dezembro, o grupo de oposição fez uso de sua nova estatura ao divulgar um relatório sobre os túneis militares iranianos. Ele dizia que o Irã cavou túneis e bunkers para instalações de pesquisa, depósitos de munição, bases militares e centros de comando e controle. "Um grupo de fábricas", no leste montanhoso de Teerã, é especializado na "manufatura de ogivas nucleares", ele dizia. No geral, o relatório elevou de 14 para 19 o número de localizações onde dizia que túneis -frequentemente múltiplos- escondiam bases militares e a pesquisa de armas.

Os planejadores de guerra americanos consideram os túneis do Irã -independente de qual seja seu número exato e conteúdo- como um sério teste para suas capacidades militares. A maioria diz que não há um modo fácil de eliminar um programa nuclear que está bem escondido, amplamente disperso e enterrado profundamente.

Entre as dificuldades, dizem os especialistas militares, estão as falsas entradas e túneis-isca, cuja identificação exige boa inteligência. Os especialistas dizem que o anúncio pelo Irã de novas usinas de enriquecimento pode simplesmente produzir um excesso de atividade visando confundir os planejadores de guerra ocidentais.

David A. Kay, um especialista nuclear que liderou a busca infrutífera pelas armas não-convencionais no Iraque, disse que a ocultação de uma instalação ou duas entre labirintos rochosos poderia representar um desafio em particular para Israel. "Eles possuem uma inteligência limitada para determinação de alvos", disse Kay, acrescentando que os Estados Unidos estão melhor equipados para mapear o terreno nuclear do Irã.

Raymond Tanter, um especialista em Irã da Universidade de Georgetown e que serviu na Casa Branca de Reagan, concordou. "Até o momento, a construção de túneis não foi bem-sucedida a ponto da tecnologia americana não poder lidar com ela", ele argumentou. "Mas ela torna as opções de Israel mais problemáticas, porque eles possuem menos recursos militares."

Apesar das dúvidas, o governo Obama tem sido cuidadoso ao deixar a opção militar na mesa, e o Pentágono está correndo para desenvolver uma arma mortal para túneis.

O artefato -com 6 metros de comprimento e chamado Massive Ordnance Penetrator (munição de grande penetração, antes GBU-57A/B)- surgiu como uma recomendação de 2004 do Conselho de Ciência da Defesa, um grupo de consultoria de alto nível para o Pentágono.

"Uma instalação em túneis profundos em uma geologia rochosa representa um desafio significativo", escreveu o conselho. "Vários milhares de quilos de altos explosivos colocados no túnel são necessários para explodir as portas e propagar um choque letal."

A bomba carrega toneladas de explosivos e é considerada 10 vezes mais poderosa do que sua antecessora, a bunker buster. Ela passou por um teste preliminar em 2007 e sua primeira utilização deverá ocorrer na metade do ano. Ela será lançada por um bombardeiro stealth B-2.

Bryan Whitman, um porta-voz do Pentágono, disse aos repórteres que problemas orçamentários atrasaram a arma, mas que agora ela está de volta aos trilhos. Oficiais militares negaram ter um alvo específico em mente. Ainda assim, acrescentou Whitman, os planejadores de guerra a consideram "uma capacidade importante".

Tradução: George El Khouri Andolfato

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