UOL Notícias Internacional
 

07/01/2010

Após uma longa evasão de cérebros, China atrai cientistas de volta para casa

The New York Times
Sharon La Franiere
Em Pequim (China)
Os cientistas nos Estados Unidos não ficaram surpresos em 2008, quando o prestigiado Instituto Médico Howard Hughes, em Maryland, concedeu uma subvenção de pesquisa no valor de US$ 10 milhões ao biólogo molecular Shi Yigong, da Universidade de Princeton.

Os estudos de células de Shi já tinham aberto toda uma nova linha de pesquisa para o tratamento do câncer. Em Princeton, seu laboratório ocupava um andar inteiro e contava com verba anual de US$ 2 milhões.
  • Shiho Fukada/The New York Times

    Biólogo molecular da universidade de Princeton, Shi Yigong rejeitou a bolsa de 10 milhões de dólares para regressar à China em 2008 e trabalhar na Universidade Tsinghua, em Pequim

A surpresa -choque, na verdade- ocorreu poucos meses depois, quando Shi, um cidadão naturalizado americano que residia há 18 anos nos Estados Unidos, anunciou que estava partindo definitivamente para trabalhar na China. Ele recusou a subvenção, se desligou de Princeton e se tornou reitor de ciências da vida na Universidade Tsinghua, em Pequim.

"Até hoje, muitas pessoas não entendem por que voltei para a China", ele disse recentemente, em meio a um grande número de visitantes em sua sala em Tsinghua. "Especialmente na minha posição, abrir mão de tudo o que tinha."

"Ele era um de nossos astros", disse Robert H. Austin, um professor de física de Princeton, por telefone. "Eu achei que foi uma completa loucura."

Os líderes da China não. Determinados a reverter a evasão de talentos que acompanhou sua abertura para o mundo exterior ao longo das últimas três décadas, eles estão usando amplos recursos financeiros -e uma boa dose de orgulho nacional- para atrair cientistas e acadêmicos de volta.

O Ocidente e os Estados Unidos, em particular, continuam sendo locais mais atraentes para muitos acadêmicos chineses estudarem e realizarem pesquisas. Mas o retorno de Shi e de alguns outros cientistas de renome é um sinal de que a China está sendo bem-sucedida, mais rapidamente do que muitos especialistas esperavam, em estreitar a diferença que a separa dos países tecnologicamente mais avançados.

Os gastos da China em pesquisa e desenvolvimento aumentaram constantemente por uma década e agora representam 1,5% do produto interno bruto. Os Estados Unidos dedicam 2,7% de seu PIB a pesquisa e desenvolvimento, mas o percentual da China é muito maior do que o da maioria dos demais países em desenvolvimento.

Os cientistas chineses também estão sob pressão para competir com seus pares no exterior e na última década eles quadruplicaram o número de trabalhos científicos publicados por ano. O total deles em 2007 ficou atrás apenas do total dos Estados Unidos. Cerca de 5 mil cientistas chineses estão trabalhando apenas no campo emergente da nanotecnologia, segundo um recente livro, "China's Emerging Technological Edge", de Denis Fred Simon e Cong Cao, dois especialistas em China baseados nos Estados Unidos.

Um estudo de 2008 do Instituto de Tecnologia da Geórgia concluiu que na próxima década, ou duas, a China ultrapassaria os Estados Unidos em sua capacidade de transformar pesquisa e desenvolvimento em produtos e serviços que podem ser vendidos ao mundo. "À medida que a China se torna mais exímia em processos inovadores ligando sua crescente pesquisa e desenvolvimento aos empreendimentos comerciais, é preciso ficar atento", concluiu o estudo.

Quantidade não é qualidade. Apesar de seu imenso investimento, a China ainda enfrenta dificuldades em muitas áreas de ciência e tecnologia. Nenhum cientista nascido na China ainda recebeu um Nobel por pesquisa realizada no país, apesar de vários já terem recebido por trabalhos feitos no Ocidente. Mesmo com o crescimento dos investimentos, a China ocupa apenas o 10º lugar no número de patentes concedidas nos Estados Unidos em 2008.

Os estudantes chineses continuam partindo em grande número, à medida que mais famílias se tornam capazes de pagar os cursos no exterior. Quase 180 mil saíram do país em 2008, número quase 25% mais alto que em 2007. Para cada quatro estudantes que partiram na última década, apenas um retornou, como mostram estatísticas do governo chinês. Aqueles que obtiveram doutorados em ciência e engenharia por universidades americanas foram os que apresentaram menor probabilidade de voltar.

Mas, recentemente a China começou a exercer uma grande atração. Nos últimos três anos, cientistas renomados como Shi começaram retornar aos poucos. E estão voltando com uma missão: sacudir a cultura científica de clientelismo e mediocridade da China, frequentemente citada como seu maior obstáculo para realizações científicas.

Eles são atraídos por seu patriotismo, seu desejo de servir como catalisadores de mudança e sua crença de que o governo chinês os apoiará.

"Eu senti que devia algo à China", disse Shi, 42 anos, que é descrito pelos estudantes de Tsinghua como atencioso e intensamente motivado. "Nos Estados Unidos, tudo está mais ou menos estabelecido. O que quer que venha a fazer aqui, o impacto provavelmente será dez vezes maior, talvez até cem vezes maior."

Ele e outros como ele deixaram os Estados Unidos com menos pesar do que alguns americanos poderiam imaginar. Apesar de ter sido cortejado por importantes universidades americanas e ter ascendido rapidamente nas fileiras acadêmicas de Princeton, Shi disse acreditar que muitos asiáticos enfrentam um teto de vidro nos Estados Unidos.

Rao Yi, um biólogo de 47 anos que deixou a Universidade do Noroeste, em 2007, para se tornar reitor da Escola de Ciências da Vida na Universidade de Pequim, contrasta o "exame de consciência" da China com a satisfação própria americana. Quando a embaixada americana em Pequim pediu a ele que explicasse por que queria renunciar sua cidadania americana, ele escreveu que os Estados Unidos tinham perdido sua liderança moral após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Mas "o povo americano ainda se rejubila na grandeza do país e de si mesmo", ele disse em uma carta.

Esses cientistas também não foram uniformemente conquistados pelas virtudes da democracia. Apesar de Rao esperar e acreditar que a China venha a se tornar uma democracia multipartidária ainda em seu tempo de vida, Shi disse que duvida que esse sistema político "algum dia será apropriado para a China".

Tradução: George El Khouri Andolfato

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