UOL Notícias Internacional
 

07/01/2010

Com mudança populacional, negros perdem a maioria no Harlem

The New York Times
Sam Roberts
Em Nova York
Por quase um século, o Harlem tem sido sinônimo do norte-americano negro urbano. É improvável que sua reputação de capital negra dos EUA mude tão cedo, dado seu apelo crescente junto a jovens profissionais negros e suas instituições culturais e enclaves residenciais históricos.

O bairro, contudo, está passando por uma mudança profunda e acelerada. No grande Harlem, que vai de rio a rio e da rua East 96 até a West 106 e West 155, os negros não são mais a maioria da população - uma mudança que de fato ocorreu há uma década, mas foi amplamente ignorada.

Em 2008, os negros passaram a ser quatro em cada dez moradores. Desde 2000, a população do Harlem central cresceu mais do que em qualquer outra década desde os anos 40, de 109.000 para 126.000, mas sua população negra - cerca de 77.000 no Harlem central e quase o dobro disso no grande Harlem - é menor do que em qualquer outra época desde os anos 20.
  • Jane Hahn/EFE - 10.jul.2009

    Mesmo com a ascensão de Barack Obama ao posto de primeiro presidente negro dos EUA, o tradicional bairro do Harlem, em Nova York, os negros passaram a ser 4 em cada dez moradores


Em 2008, 22% dos lares brancos contra 7% dos lares negros no Harlem tinham se mudado para suas atuais residências no ano anterior.

"Foi uma combinação de locação e preços acessíveis", disse Laura Murray, 31, aluna de pós-graduação em antropologia médica em Columbia que se mudou para Sugar Hill perto do City College há cerca de um ano. "Sinto uma comunidade aqui que não sentia em outras partes da cidade."

A mudança foi ainda mais pronunciada no corredor norte-sul estreito, definido como Harlem central, ao norte da rua 110 entre a Quinta Avenida e St. Nicholas.

Ali, os negros são seis em cada dez moradores, mas os afro-americanos nascidos nos EUA são apenas metade de todos os moradores. Desde 2000, a proporção de brancos morando ali dobrou, para mais do que um em cada dez moradores - mais alto número desde os anos 40. A população hispânica, que se concentrava no Harlem Oriental, agora está em alta no Harlem central, subindo 27% desde 2000.

O Harlem está "novamente se aproximando de um ponto de transição importante", disse Michael Henry Adams, historiador do bairro e morador.

O Harlem não é o único bairro étnico a ter sido transformado pelo avanço de pioneiros em busca de barganhas e mais espaço - o bairro de Little Italy, por exemplo, foi em grande parte engolido por imigrantes que expandiram os limites de Chinatown e pela apreciação crescente do SoHo. Mas o Harlem evoluiu de forma única. Como uma parte grande da comunidade foi devastada por demolições para renovação urbana, incêndios e abandono a partir dos anos 60, grande parte dos recém-chegados não desalojaram os moradores existentes mas os sucederam. Só nos anos 70, a população negra do Harlem central caiu em mais de 30%.

"Este ponto estava vazio", disse Howard Dodson, diretor do Centro de Pesquisa de Cultura Negra Schomburg do Harlem. "Quando há um processo de valorização, ele desloca os moradores antigos".

O número de brancos não hispânicos cresceu. O censo de 1990 contabilizou apenas 672 brancos no Harlem central. Em 2000, eram 2.200. Na última contagem, em 2008, foram quase 13.800.

"Há muitas novas moradias, o que permite que as pessoas venham para a região sem expulsar as pessoas dali", disse Joshua S. Bauchner, que se mudou para uma casa no Harlem em 2007 e é o único membro branco do Conselho Comunitário 10 no Harlem central. "Em Manhattan, as opções são limitadas. Migrar em direção norte para o Harlem é uma das últimas opções."

Em 1910, os negros constituíam cerca de 10% da população do Harlem central. Em 1930, com o início da grande migração do Sul e a saída dos moradores dos bairros de Manhattan, onde os negros estavam se sentindo menos bem-vindos, transformou-os em uma maioria de 70% no Harlem. A proporção da população (98%) e o número total de negros no bairro (233.000) atingiram um pico nos anos 50.

Em 2008, de acordo com o censo, os 77.000 negros no Harlem central chegaram a 62% da população.

No grande Harlem, a população negra atingiu o pico de 341.00 moradores em 1950. A fatia negra da população atingiu 64% em 1970. Em 2008, os números foram 153.000 e 41%.

Cerca de 15% da população negra do Harlem é nascida no exterior, na maior parte no Caribe, mas há uma proporção africana crescente.

Alguns especialistas dizem que o declínio da população negra talvez seja hiper-estimado porque as pessoas mais pobres em geral são menos contabilizadas pelo censo, e o Harlem tem um número desproporcional de pobres. Outros advertem que as propostas de desenvolvimento e os imóveis mais caros podem forçar a saída dos mais pobres. Segundo estes, quando a prefeitura era o principal locador do bairro, deveria ter aumentado as oportunidades de aquisição de propriedade pelos moradores do Harlem.

"A valorização, com a compra e reabilitação da terra e prédios, seja por famílias ou incorporadores, ocupados ou abandonados - significa aumento de aluguel para todos, levando inevitavelmente ao deslocamento para uma ou duas ruas mais para baixo", disse Neil Smith, diretor do Centro de Local, Cultura e Política da Universidade Municipal de Nova York.

Dodson, do Centro Schomburg, mudou-se de Riverside Drive para Newark, Nova Jersey, há pouco tempo. Ele disse: "Digo para as pessoas que não posso mais pagar os preços do Harlem ou de Nova York como merecia".

Outros analistas apontam para a saída de alguns negros e a entrada de outros como evidência positiva de que caíram as barreiras à integração em outros bairros e que o Harlem tornou-se um lugar mais atraente para se morar.

"É um erro ver isso apenas como uma história de mudança racial. O que é interessante é que muitos afro-americanos estão morando no Harlem por escolha, não por necessidade", disse Scott M. Stringer, presidente do distrito de Manhattan.

Andrew A. Beveridge, sociólogo do Queens College, disse: "O Harlem voltou a ser como era nos anos 30 - um bairro predominantemente negro, mas com outros grupos também."

O ex-motorista de limusine Ronald Copney e suas duas irmãs dividem um prédio na rua 147 West que sua avó comprou em 1929. Eles alugam dois andares para dois moradores, um deles branco.

"Sempre foi um bairro muito bom", disse ele. "De certa forma, está melhor agora no sentido do preço dos imóveis."

Geneva Bain, gerente do Conselho Comunitário 10, culpou a economia e a falta de empregos e não a valorização pelo número decrescente de negros.

Ela admitiu, contudo, que os novatos brancos algumas vezes foram recebidos de forma ambivalente. "A integração é muito subjetiva", disse Bain. "O que é bom para uma pessoa é ruim para outra. Faço parte do grupo que acha que o Harlem central se tornou um lugar melhor por causa da integração."

O diretor do centro Schomburg disse que uma fonte de ressentimento histórico continua: apesar dos negros serem a maioria da população, ainda são a minoria dos proprietários.

"Há pessoas que gostariam de manter o Harlem como 'enclave negro', mas a única forma de fazer isso é dar o título de propriedade", disse Dodson. "Dito isso, não dá para se ter tudo: a pessoa não pode dizer por um lado que se opõe à discriminação e que só os negros podem morar no Harlem".

"A questão é se isso é bom ou não. Honestamente, ainda não sei."

Tradução: Deborah Weinberg

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