UOL Notícias Internacional
 

07/01/2010

Vice-ministro de relações exteriores da Índia consegue visibilidade pelo Twitter e causa polêmica

The New York Times
Lydia Polgreen
Em Nova Déli (Índia)
Parecia uma pergunta razoavelmente inocente, feita por um indiano recentemente em férias na região pontilhada de palácios do Rajastão. Será que o governo indiano deveria tornar mais difícil para os turistas visitar os belos pontos do país, endurecendo os requisitos dos vistos para prevenir o terrorismo?

Em uma viagem de carro com sua mulher, o homem que fez a pergunta, Shashi Tharoor, digitou em seu BlackBerry essa breve mensagem aos seus seguidores no Twitter, naquele jargão apertado exigido pelo limite de 140 caracteres do Twitter: "Dilema de nossa era. Restrições rígidas de vistos esperando melhorar segurança ou abertura & liberalidade p/ incentivar turismo & boa vontade? Prefiro os últimos".

Mas Tharoor, um escritor e ex-diplomata da ONU, que agora é membro do parlamento e vice-ministro de relações exteriores, não é um indiano qualquer, e a mensagem foi não somente para alguns amigos, e sim para mais de meio milhão de pessoas que o seguem no Twitter.

Essa mensagem, junto com algumas outras que questionavam de leve os méritos das novas e mais rígidas políticas de vistos de turista da Índia, o levaram para a primeira página da maioria dos jornais em língua inglesa da Índia, que o acusaram de cometer uma grande gafe em política indiana: discordar publicamente de seus superiores sobre uma questão delicada.

Políticos em democracias de todo o mundo abraçaram o Twitter, o serviço de micro-blogging, e outras ferramentas de mídia social, como o Facebook, para se conectar a eleitores. Muitos membros do Congresso americano o usam, assim como o premiê australiano, Kevin Rudd.

Mas na Índia, a maior e mais ruidosa democracia do mundo, ele não pegou entre os políticos. Na verdade, boa parte da elite do poder da Índia, seja na política, na mídia ou nos negócios, parece ver com desconfiança o entusiasmo de Tharoor por uma mídia que elimina a distância entre os governantes e os governados, e desmantela as camadas de protocolo e decoro que mantêm os políticos e burocratas aqui distantes das preocupações cotidianas daqueles que eles servem.

A maior parte da elite política da Índia parece não fazer idéia do que seja o Twitter. Muitos burocratas seniores o veem como uma perda de tempo. Quando lhe perguntaram se ele consideraria usar o Twitter, o secretário para questões internas da Índia, G. K. Pillai, fechou a cara em desaprovação e disse, "Não tenho tempo para isso".

Mas Tharoor lê quase todos os posts que recebe, segundo sua equipe, e responde pessoalmente ao máximo que consegue. Um acesso direto assim a um político é quase inédito na Índia, e o uso que Tharoor faz da mídia ajudou a definir sua ascensão política.

Muitos analistas aqui estão vigiando seu progresso de perto, buscando sinais de se indianos com experiência no exterior podem aplicar seu conhecimento na política daqui.

Tharoor é uma figura incomum na política indiana. Após uma longa carreira na ONU, ele concorreu ao parlamento de sua cidade natal, Trivandrum, capital do estado de Kerala. Em seu tempo livre ele também se tornou autor de certo reconhecimento, tendo escrito 11 livros, incluindo três romances.

Aos 53 anos, ele é considerado jovem pelos padrões da política indiana, e um tanto arrivista.

Um assistente abriu uma conta no Twitter para ele no início do ano passado, mas no início ele estava cauteloso e simplesmente ocupado demais com sua campanha para postar. Mas ele logo viu o potencial.

"De repente percebei que era tanto um meio de transmissão quanto um meio de interação", Tharoor disse em uma entrevista por telefone.

Sua mensagem de férias não foi a primeira que o deixou em maus lençóis. Em setembro, no meio de uma campanha de austeridade que fez com que servidores viajassem de classe econômica, ele postou uma mensagem sobre andar "na classe gado em solidariedade a todas nossas vacas sagradas!"

Mas o comentário sobre as vacas, no contexto do hinduísmo, não foi motivo de risos para muitos, e alguns políticos e seu próprio partido disseram que ele deveria renunciar por causa do comentário.

A mídia relata sem parar cada uma das supostas gafes de Tharoor no Twitter, em editoriais e em discussões de talk shows. Um canal de notícias mostrou suas últimas atualizações no Twitter sob a chamada "Últimas Notícias". Entusiastas do Twitter dizem que os veículos de notícias fazem um estardalhaço sobre isso porque ele rouba seu papel tradicional como intermediário e intérprete entre os poderosos e as massas.

"Ao associar constantemente o Twitter a controvérsias, a mídia indiana dissuadirá outros políticos de entrarem no site de relacionamento social", escreveu em um email Ajit Narayana, um ávido usuário do Twitter que está organizando uma conferência neste mês sobre o uso do Twitter na Índia.

Por ter nascido no exterior e passado a maior parte de sua carreira fora da Índia, Tharoor por vezes foi acusado de não ter contato com os costumes e tradições do país. Seu uso do Twitter, que está ficando mais popular mas ainda é o domínio de uma pequena fração de usuários da internet, é percebido como elitismo por alguns.

Tharoor disse que ele adotou o Twitter porque ajudava os indianos a entenderem o que ele fazia todos os dias, e o ajudava a entender o que seus seguidores pensavam.

O Twitter, ele disse, "é uma forma de envolver as pessoas por quem todos os políticos são responsáveis, na essência de nosso trabalho".

Hoje, Tharoor tem mais de meio milhão de seguidores no Twitter, e sua capacidade de falar diretamente a essas pessoas é um trunfo valioso para uma sociedade indiana cada vez mais conectada, dizem especialistas em política.

"O hábito de twittar de Shashi é uma forma de se conectar com a população da era eletrônica, que será muito importante nos próximos anos", disse Brahma Chellaney, professor no Centro para Pesquisa de Políticas em Nova Déli, que também usa o Twitter.

Mas Diptosh Majumdar, editor de assuntos nacionais na CNN-IBN, um canal a cabo de notícias, disse em seu perfil do Twitter que a velha guarda do Partido do Congresso, que de muitas formas controla o destino político de Tharoor, provavelmente não se impressionaria com suas qualificações em mídia social.

"Se o Twitteroor acha que a realidade virtual pode ajudá-lo a galgar a escada política mais rápido, ele ainda não conseguiu identificar os contornos da política aqui", Majumdar escreveu, usando um apelido para Tharoor.

Entretanto, Tharoor disse que ele continuaria postando mensagens no Twitter, independentemente de ajudar ou prejudicar sua carreira política. "Não vou fingir que a experiência foi uniformemente positiva", ele disse. "Mas estou muito feliz por ter esse público aí fora".

Tradução: Lana Lim

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,02
    3,136
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,02
    75.974,18
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host