UOL Notícias Internacional
 

08/01/2010

Caminho do homem-bomba jordaniano que matou agentes da CIA permanece misterioso para seus familiares

The New York Times
Stephen Farrell
Em Amã (Jordânia)
O telefone tocou às 7 horas da manhã da véspera de Ano Novo e então um estranho, com voz com sotaque forte -possivelmente um afegão- disse ao homem que atendeu o que tinha acontecido a um de seus filhos que tinha desaparecido há um ano.

"Eles disseram que Human realizou uma grande operação contra a CIA", disse um irmão de Humam Khalil Abu Mulal al Balawi, um jordaniano de 32 anos, descendente de palestinos, que matou sete americanos em um posto avançado no Afeganistão, na semana passada.

"Ele é um herói", disse a pessoa que telefonou, segundo o irmão.
  • Ahmad Masood/Reuters - 26.set.2006

    Segundo a própria agência de inteligência dos Estados Unidos, o autor do atentado suicida que provocou a morte de sete funcionários da CIA em 30 de dezembro, no Afeganistão, era um jordaniano recrutado pelos serviços de inteligência de seu país que trabalhava como agente duplo para a Al-Qaeda, organização do terrorista Osama Bin Laden

Foi apenas mais tarde naquele dia, quando a família soube mais detalhes a respeito das mortes dos agentes da CIA, que a família do homem-bomba descobriu que Balawi, um médico, não estava, como pensavam, tratando de palestinos doentes e feridos em Gaza, mas que estava no centro de uma complexa operação de espionagem que teve um final mortal.

Autoridades ocidentais dizem que Balawi foi recrutado por agentes da inteligência jordaniana e levado ao Afeganistão para se infiltrar na Al Qaeda, se passando por jihadista estrangeiro. Ele participava de uma reunião com a CIA quando detonou a si mesmo, matando sete americanos e seu supervisor jordaniano, um primo distante do rei Abdullah 2º.

Os detalhes sobre Balawi e a operação estão surgindo lentamente, com uma autoridade jordaniana daqui dizendo que Balawi viajou ao Paquistão e, de lá, começou a passar voluntariamente informação por e-mail "sobre a Al Qaeda e suas operações planejadas na Jordânia e outros países".

"Ele estava envolvido de uma forma empática e amistosa", acrescentou a autoridade, "tentando verificar a informação".

A autoridade não quis identificar o valor das comunicações de Balawi, dizendo apenas que "ele forneceu informação que era digna de atenção, que achávamos que valia a pena ser investigada". Os serviços de inteligência jordanianos compartilhavam essa informação com outros países, ele disse, incluindo os Estados Unidos.

O pai de Balawi, Khalil, disse na noite de quarta-feira que ainda estava confuso com os relatos conflitantes sobre o que exatamente aconteceu ao seu filho. "Nós não temos qualquer informação", ele disse, ao retornar da mesquita perto de seu apartamento no andar térreo na rua Urwah bin al Ward, no bairro de Nuzha, aqui na capital da Jordânia. "Tudo o que ouvimos é contraditório."
  • Tomas Munita/AP - 14.nov.2005

    A família do homem-bomba jordaniano Humam Khalil Abu Mulal al Balawi, autor do atentado contra os agentes da CIA, desconhecem as influências e a forma de recrutamento usadas pelos terroristas para ganhar a confiança do agente duplo

A vigilância sobre a casa é tamanha que o irmão mais jovem de Balawi foi preso, segundo a família, e o irmão que atendeu a porta da residência da família se recusou a dizer seu nome, apenas que era um engenheiro que voltou de Dubai para cuidar de seus pais. Ele disse que temia as "consequências" caso falasse em público e que a família foi repetidamente alertada a não falar à imprensa.

Ele descreveu Balawi como "um irmão muito bom" e um "médico brilhante", dizendo que a família desconhecia os escritos de Balawi sob pseudônimo em sites jihadistas na Internet. Ele disse, entretanto, que seu irmão "mudou" após a ofensiva israelense de três semanas em Gaza, no ano passado, que matou cerca de 1.300 palestinos.

O irmão disse que Balawi foi preso pelas autoridades jordanianas após se oferecer como voluntário a organizações médicas para tratar dos palestinos feridos em Gaza. A família é de origem palestina, de uma tribo na região de Beersheba.

Ele não criticou as ações do irmão, culpando sim as pessoas que ele sente que o incitaram a agir. Ele disse que Balawi se sentia sob "enorme pressão" após sua prisão, "se livrou" imediatamente de seu computador, parou de usar o e-mail e desapareceu pouco depois. "Se você encurralar um gato em um canto, ele saltará sobre você", disse o irmão.

Postagens nos sites jihadistas comemoram o atentado como um triunfo e elogiam seu perpetrador, algumas usando o nome online de Balawi, Abu Dujana al Khorasani.

Na terça-feira, uma mensagem no site muslm.net, por um membro chamado "O Otimista", dizia: "Se é verdade que a pessoa que realizou a operação é o escritor Abu Dujana al Khorasani, então eu juro por Deus que é uma operação genuína realizada por este herói. É suficiente ela ter erradicado alguns elementos importantes da CIA. Até mesmo as autoridades americanas estão gritando na imprensa por causa deste duro golpe".

A mãe do homem-bomba, Shanara Fadel al Balawi, disse à agência de notícias "France-Presse" que seu filho "nunca foi um extremista". Ela disse que seu filho era "consciencioso" e "um bom aluno na escola pública jordaniana", que pediu um visto no ano passado para estudar nos Estados Unidos.

A autoridade jordaniana confirmou que Balawi foi interrogado pelas autoridades de inteligência há um ano, após ele escrever para sites jihadistas, mas disse que ele foi solto porque não havia evidências suficientes para processá-lo.

Logo depois, Balawi partiu para o Paquistão, aparentemente para seguir sua carreira médica, disse a autoridade, que se recusou a ser identificado enquanto a investigação americana está em andamento. Alguns meses depois, ele disse, Balawi "nos contatou por e-mail".

"Em cooperação com os americanos, nós tentamos convencê-lo a verificar a informação que ele nos fornecia", disse a autoridade. Ele se recusou a dar detalhes operacionais, como quem tratava diretamente com Balawi. Mas ele disse: "Nós não estamos no Afeganistão. Os americanos estão no Afeganistão e no Paquistão".

Ele também insistiu que o atentado não abalou os laços da Jordânia com os Estados Unidos, e que a Jordânia manterá sua cooperação "sólida, eficaz e muito frutífera" com os americanos.

Citando os ataques da Al Qaeda na Jordânia, incluindo três bombas detonadas em 2005, que mataram mais de 50 pessoas em hotéis em Amã, ele disse que a Al Qaeda é inimiga da Jordânia tanto quanto dos Estados Unidos.

"Essas pessoas mataram os nossos", ele disse. "Elas são nossas inimigas. Os Estados Unidos são parceiros, aliados, nós temos um inimigo comum e vamos enfrentá-lo juntos."

Ranya al Kadri, em Amã, contribuiu com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    12h39

    0,11
    3,269
    Outras moedas
  • Bovespa

    12h43

    -0,63
    63.679,17
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host