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09/01/2010

China transforma reabilitação de drogados em experiência penosa

The New York Times
Andrew Jacobs
Em Pequim (China)
Fu Lixin, emocionalmente esgotada por cuidar de sua mãe doente, precisava de um pouco de estímulo. Um amigo ofereceu a ela um "cigarro especial" -um contendo metanfitamina- que Fu tragou alegremente.

No dia seguinte, três policiais aparecerem à sua porta.

"Eles me pediram para urinar em um copo", ela disse. "Meu amigo foi preso e me entregou. Era um teste de drogas. Eu fui pega na hora."

Apesar de ter dito que era a primeira vez que fumava metanfetamina, Fu, 41 anos, foi prontamente enviada para um dos centros compulsórios de reabilitação de drogados da China. A estadia mínima é de dois anos e a vida é uma punição persistente de abusos físicos e trabalhos forçados sem nenhum tratamento para drogas, segundo ex-presos e profissionais da área.

"Foi um inferno do qual ainda estou tentando me recuperar", ela disse.

Segundo a ONU, até meio milhão de cidadãos chineses são mantidos nesses centros. As detenções são decididas pela polícia sem julgamentos, juízes ou apelações. Criados em 2008 como parte de um esforço para lidar com o crescente problema de narcóticos do país, os centros, dizem advogados e especialistas em drogas, se transformaram em colônias penais de fato, onde os presos são enviados para fábricas e fazendas, são alimentados com alimentos abaixo do padrão e não recebem cuidados médicos básicos.

"Eles os chamam de centros de desintoxicação, mas todos sabem que a desintoxicação leva poucos dias, não dois anos", disse Joseph Amon, um epidemiologista da Human Rights Watch, em Nova York. "O conceito básico é inumano e falho."

Na quinta-feira, o Human Rights Watch divulgou um relatório sobre o sistema de reabilitação de drogados, que substituiu a abordagem anterior do Partido Comunista de envio dos viciados a campos de trabalhos forçados, onde trabalhavam ao lado de ladrões, prostitutas e dissidentes políticos.

O relatório, intitulado "Onde as Trevas Não Conhecem Limites", pede ao governo que feche imediatamente os centros de detenção.

Segundo a Lei Antidrogas de 2008, os infratores devem ser enviados para instalações de desintoxicação contendo profissionais treinados e então enviados para centros de reabilitação comunitários, por até quatro anos, para acompanhamento terapêutico.

Mas especialistas em abuso de substâncias dizem que a legislação, parte de uma abordagem supostamente "centrada na pessoa" para lidar com o vício, simplesmente dá um novo nome ao velho sistema. O que é pior, eles disseram, ela expande as detenções compulsórias de seis meses para períodos de dois anos, que as autoridades podem prolongar para até cinco anos.

Os centros de reabilitação comunitários, acrescentam os especialistas em tratamento, ainda não foram estabelecidos.

Wang Xiaoguang, o vice-diretor da Daytop, uma residência de tratamento de drogas na província de Yunnan, afiliada a uma clínica americana, disse que os centros de desintoxicação do governo são pouco mais que empreendimentos comerciais dirigidos pela polícia. Os detidos, ele disse, passam seus dias trabalhando em granjas ou fábricas de sapato que possuem contrato com a polícia local; tratamento para drogas, terapia e treinamento vocacional são quase inexistentes.

"Eu não acho que essa é a situação ideal para pessoas que tentam se recuperar do vício", disse Wang em uma entrevista por telefone.

Em seu relatório, a Human Rights Watch, que se concentrou em Yunnan, disse que os abusos em alguns dos 114 centros de detenção da província são ainda mais perturbadores. Pessoas com doenças sérias, como tuberculose e Aids, frequentemente não recebem tratamento médico. Muitos presos relataram espancamentos, alguns deles fatais.

O Escritório da Comissão Nacional de Controle de Narcóticos, que administra a política chinesa para as drogas, não respondeu na quinta-feira aos pedidos de comentário.

Han Wei, 38 anos, um viciado em heroína em recuperação que foi solto de um centro de detenção em Pequim em outubro, disse que os guardas usavam aguilhões elétricos nos recalcitrantes. "Pelo menos eles nos davam capacetes, para não ferirmos nossas cabeças durante as convulsões", ele disse.

As refeições consistiam de pães aquecidos no vapor e, ocasionalmente, lavagem a base de repolho. Banhos eram permitidos apenas uma vez por mês. E o remédio para os sintomas de abstinência de heroína era um balde de água fria no rosto. "Eles não me deram nenhuma pílula e nem terapia", disse Han.

Apesar das privações, Han, um ex-dono de boate, disse que sua sentença de dois anos resultou na meta desejada: ela o persuadiu a abandonar o vício iniciado em 1998. "Eu nunca mais vou voltar", ele disse.

Zhang Wenjun, que dirige a Guiding Star, uma organização que ajuda viciados a se recuperarem, disse que essa determinação frequentemente é passageira. Pelo menos 98% daqueles que deixam o sistema de detenção de drogados retornam ao vício em poucos anos, ele disse.

Zhang sabe do que está falando. Seu próprio vício em heroína o levou a centros de desintoxicação e campos de trabalhos forçados seis vezes desde meados dos anos 90.

"O que o governo não percebe é que esta é uma doença que precisa ser tratada, não punida", disse Zhang, 42 anos, um homem tatuado que fala murmurando.

De certa forma, ele disse, o estigma do vício é tão debilitante quanto a atração da próxima dose. Aqueles que são presos por infrações ligadas às drogas são rotulados como viciados em suas carteiras de identidade, o que torna fúteis as tentativas de arrumar emprego e benefícios do bem-estar social. E como a polícia local é automaticamente notificada quando ex-infratores fazem o check-in em hotéis, viajar frequentemente envolve exames de urina improvisados e a possibilidade de humilhação diante dos colegas.

"Na China, ser um viciado em drogas é ser um inimigo do governo", disse Zhang.

Ainda assim, ele e outros que cuidam do tratamento de drogados são rápidos em reconhecer o progresso obtido pela China nos últimos anos. Atualmente há oito clínicas para metadona em Pequim, a capital, servindo 2 mil pessoas, e mais de 1.000 programas de troca de agulhas surgiram no país desde 2004.

Yu Jingtao, cuja organização, o Grupo de Redução do Dano de Pequim, distribui 30 mil agulhas limpas por mês, disse que o governo foi lento na adoção do modelo de tratamento de drogados comum em grande parte do mundo desenvolvido. "Nós fomos pegos em um período de transição", disse Yu, um viciado em recuperação. "Os períodos de transição nunca são bonitos."

Zhang Jing contribuiu com pesquisa.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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