UOL Notícias Internacional
 

10/01/2010

Brasil e outros vizinhos desafiam objetivos energéticos da Bolívia

The New York Times
Simon Romero e Andres Schipani
Em La Paz (Bolívia)
O governo de esquerda do presidente Evo Morales, que afirmou um controle maior sobre as reservas de gás natural mais cobiçadas da América do Sul, está enfrentando um desafio à medida que os países vizinhos se mobilizam para conquistar a segurança energética cortando sua dependência do fornecimento de gás boliviano.

Novos projetos de gás no Brasil e na Argentina estão em andamento numa época em que Morales está ganhando apoio por uma economia mais forte. Ela cresceu 3,7% no ano passado, permitindo que ele consolidasse o controle sobre os recursos energéticos, incluindo o gás natural, a segunda maior reserva da América do Sul depois da Venezuela, e imensos depósitos de lítio.
  • Dado Galdieri/AP - 5.mai.2006

    Trabalhadores carregam botijão de gás em usina da YPFB em El Alto, Bolivia


Mas ainda que Morales tenha emergido como um dos líderes mais fortes da região, reforçado por uma vitória esmagadora na reeleição em dezembro, há preocupações vindo à tona em relação à estrutura de suporte financeiro da Bolívia a longo prazo, à medida que seus vizinhos começam a importar gás de fontes distantes como o Qatar, e outras mais próximas, como Trinidad e Tobago.

A reorganização das relações energéticas da América do Sul está sendo seguida de perto por países que tentam limitar sua dependência das nações ricas em energia que estão no fluxo político ou que usam seus recursos como moeda política, da mesma forma que a companhia energética da Rússia pressionou antigas repúblicas soviéticas e a Europa.

"Os novos projetos na América do Sul oferecem um exemplo sensacional de como os países podem cortar sua dependência umbilical dos gasodutos", disse Carlos Alberto Lopez, secretário de energia de um governo anterior. "Estamos acordando para a realidade de que nosso nacionalismo energético está sendo um tiro pela culatra".

Os novos empreendimentos de importação de gás no Brasil e na Argentina, assim como dois no Chile, que antes eram um mercado potencial para o gás boliviano, usam importações via navio, nas quais o combustível é resfriado para o estado de gás liquefeito para ser transportado de países exportadores e reaquecido na entrega. Esse método de transporte cada vez mais comum forneceu uma concorrência substancial para os gasodutos em alguns mercados.

A própria Bolívia já teve planos para exportar gás liquefeito enviando-o primeiro para um porto chileno, de onde ele seria transportado para o México ou Estados Unidos. Mas o plano causou tanta revolta - em parte por conta das tensões históricas com o Chile e pelo ressentimento da elite política que havia defendido o projeto - que foi um dos principais fatores de um levante da população indígena da Bolívia em 2003.

Morales, 50, ajudou a liderar estes protestos e anunciou a nacionalização da indústria energética depois que se tornou presidente em 2006. Ele enviou soldados para ocupar as instalações de gás, aumentou os royalties sobre as companhias de energia estrangeiras e apoiou instituições nacionalistas como a marinha, que patrulha os rios e lagos, e almeja obter acesso ao mar nesse país cercado apenas por terra.

Embora essas políticas tenham intensificado os temores de países vizinhos quanto à capacidade e disposição da Bolívia em exportar seu gás por preços determinados, elas têm grande apelo entre os eleitores bolivianos, o que se refletiu na vitória eleitoral de Morales, o primeiro presidente indígena do país, no mês passado.

"Nós fomos explorados por muito tempo", disse Domitila Mora, 46, vendedora de frutas em El Alto, cidade de favelas localizada acima de La Paz. "A nacionalização nos devolveu a dignidade, e agora as coisas estão melhores. O irmão Evo Morales está cuidando dos nossos recursos naturais para nós".

O simbolismo de suas políticas energéticas permeia a paisagem desolada de Al Alto sob a forma de propaganda estatal.

Um letreiro pago pela YPFB, a companhia de energia nacional, glorifica os gastos sociais que se tornaram possíveis com o aumento dos royalties. "Não há desenvolvimento sem nacionalização", diz, mostrando Morales segurando uma menina nos braços.

Uma administração econômica sólida, particularmente se comparada à da Venezuela, a principal aliada da Bolívia, torna improvável que haja uma crise súbita por conta da perda de exportações de gás. O crescimento da Bolívia no ano passado contrastou com a contração econômica de 2,9% da Venezuela, à medida que esta enfrentou uma inflação alta e uma insuficiência de investimentos privados.

O Brasil, a potência emergente da região, também não está muito ansioso para ver a Bolívia, um grande produtor de cocaína e ainda uma das nações mais pobres da América do Sul, perder sua estabilidade duramente conquistada.

Enquanto tenta evitar o confronto com Morales, o Brasil assegurou à Bolívia de que continuará importando seu gás, embora a Petrobras, a companhia energética nacional, tenha perdido intensidade para novos grandes investimentos aqui. E companhias privadas brasileiras como a HRT fizeram da quebra da dependência do gás boliviano uma missão central.

Enquanto isso, as rachaduras já estão surgindo na indústria energética boliviana à medida que o foco de companhias de energia internacionais na América do Sul se transfere para o Brasil, que está desenvolvendo suas próprias novas descobertas de óleo e gás no mar, e longe da Bolívia e da Venezuela.

Os preços do gás boliviano caíram drasticamente em 2009, e os rendimentos das exportações declinaram 39% para US$ 2,1 bilhões, de acordo com a Câmara Boliviana de Hidrocarbonetos, uma associação do setor.

À medida que companhias estrangeiras desaceleram os investimentos aqui, a perfuração de novos postos também está quase num impasse, dizem consultores energéticos bolivianos.

A companhia de energia nacional, a YPFB, também enfrenta um escândalo envolvendo um esquema de propinas e o recente assassinato de um executivo do setor que levava US$ 450 mil em dinheiro, eventos que Morales atribuiu à infiltração da CIA na companhia.

Mas os projetos de gás liquefeito nos países vizinhos, incluindo dois no Brasil e um na Argentina, mostram-se um desafio maior.

Outros dois projetos de gás líquido no Chile, que não importa o gás boliviano, alteraria a dinâmica energética da região ainda mais. O gás desses projetos também poderia ser enviado por gasoduto para a Argentina, um dos principais compradores da Bolívia.

Por enquanto, a possibilidade de a Bolívia exportar energia para o Chile parece cada vez mais remota à medida que este continua resistente às aspirações da Bolívia, que foram reiteradas aqui no mês passado pelo almirante Jose Luis Cabas, comandante das Forças Armadas da Bolívia, de recuperar a costa que hoje pertence ao território chileno.

"A nacionalização de Evo foi um movimento político astuto a curto prazo", disse Roger Tissot, especialista em políticas energéticas da América do Sul para a Gas Energy, uma firma de consultoria brasileira, citando o aumento nos gastos sociais que foram possíveis com os lucros. "Mas no longo prazo, a Bolívia está se encurralando".

Miguel Yague, um alto funcionário de energia no governo de Morales, disse numa entrevista que a Bolívia continua otimista em relação a manter as exportações para seus vizinhos e possivelmente estabelecer rotas de gasodutos para novos mercados na Argentina, Paraguai e Uruguai.

"Olhando para o Brasil", diz ele, "é um mercado de potencial quase ilimitado".

Ainda assim, o Brasil está agora elaborando planos próprios para explorar suas recém-descobertas reservas de gás e construir seu próprio terminal de gás natural liquefeito para possivelmente exportar o combustível durante os meses de baixa demanda.

E o Peru, vizinho nordeste da Bolívia, está se preparando para exportar gás liquefeito, talvez enviando-o para mercados que poderiam ser bolivianos.

Ao mesmo tempo, a Bolívia está concentrada em projetos menores como expandir um gasoduto para a Argentina. Houve comemoração depois de um anúncio recente da Repsol, a gigante energética espanhola, de que aumentaria os investimentos na Bolívia. Mas o ceticismo persiste, questionando se o movimento não é similar aos feitos por companhias estrangeiras na Venezuela, onde elas querem manter um lugar na mesa de negociações num país com grandes reservas energéticas mas raramente dão continuidade a conversas sobre grandes projetos.

"Há uma década a Bolívia estava se preparando para ser o centro energético da América do Sul", disse Gonzalo Chavez, economista da Universidade Católica de La Paz. "Agora uma série de projetos de segurança energética estão acontecendo à nossa volta."

Tradução: Eloise De Vylder

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